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Artigos Quinta-feira, 25 de Junho de 2026, 09:57 - A | A

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Quinta-feira, 25 de Junho de 2026, 09h:57 - A | A

BRUNA BERTHOLDO

Zero a zero. E ele chorou pela mãe

BRUNA BERTHOLDO

A Copa do Mundo chegou. E com ela, aquele fenômeno que é fascinante: a mobilização, entrega e o entusiasmo dos torcedores em estádios, bares, restaurantes, parques e salas de casa, os mesmos que não correm nem para pegar o ônibus e não se emocionam nem no aniversário do filho, de repente correm, choram, gritam e abraçam desconhecidos como se tivessem marcado o gol da virada.

Esta Copa também ensinou a respeito do que a Constelação Familiar chama de pertencimento primário. A necessidade visceral de pertencer à origem, tão essencial quanto respirar, que nenhuma taça, nenhuma torcida ou aclamação consegue preencher.

Ele está com o rosto molhado de lágrimas diante de milhões de pessoas que assistiam ao jogo no estádio e na TV. Acabou de fazer o jogo da sua vida. E o choro não foi de alegria pela surpresa de manter o placar fechado zero a zero contra a Espanha, marco histórico para uma seleção estreante em Copas do Mundo. Ele chorou pela mãe que não pôde estar ali.

Josimar Évora Dias, conhecido como Vozinha, goleiro de Cabo Verde, quarenta anos, foi eleito o melhor jogador da partida. E, no microfone, com a respiração ainda entrecortada, lamentou:

Chorei também pela minha mãe. Ela não conseguiu vir por causa do visto. Devido ao dinheiro que precisávamos pagar para o trâmite, não conseguimos a tempo. Eu gostaria que ela estivesse aqui.

O visto americano custava quinze mil dólares de caução. A mãe ficou em Cabo Verde.

Bert Hellinger, desenvolvedor da Constelação Familiar, ensinava que o sucesso depende de “tomar a mãe”. Não num post de Dia das Mães, e sim num ato interno, silencioso e honesto de aceitar a mulher que ela é, com sua história, seus limites e sua humanidade.

Tomar a mãe é diferente de aprovar tudo que ela fez. É carregar essa mulher dentro de si inteira, honrada, amada, que deu o que tinha, não o que você precisava, mas o que ela pôde. E honrar a vida que pulsa em si.

Quando bloqueamos a mãe internamente, bloqueamos o fluxo. O sucesso não entra, porque a porta está fechada.

Quem nunca numa vitória, sentiu no momento de comemorar, a falta de alguém para contar? Não qualquer pessoa. E sim, a pessoa. A ausência mais antiga. Às vezes é a presente em corpo, mas distante em história. Às vezes é a que nunca soube dar colo. Às vezes é a que partiu.

Com licença poética:

Tomar a mãe não é arquivar a dor.
É reconhecer que ela chegou antes,
que esse lugar lhe pertence por amor.
É dizer, com o coração miúdo:
- A senhora veio antes. O que sou, começa em ti.
Carrego a senhora comigo com honra e tenho paz.

Dias depois daquela partida, Ana Cândida Évora, a mãe de Vozinha, após uma mobilização nacional, esteve presente no segundo jogo do filho. Fiquei imaginando o abraço. O cheiro de casa no meio de um estádio de Copa do Mundo. A voz dela dizendo o nome dele como só mãe sabe dizer.

Vozinha já havia vencido algo maior que qualquer placar. Não só por ter sido considerado o melhor jogador da partida tampouco pela atuação excepcional, fazendo inúmeras defesas, mas também pelo exemplo, que deu a cada torcedor que comemorou com ele, de como honrar a mãe.

Quando vier sua próxima vitória, quem você gostaria que estivesse ali?

(*) BRUNA BERTHOLDO é Escritora. Poesia. Consteladora Familiar. Neurociência aplicada.
Instagram: @brunabertholdocf
Substack: @brunabertholdo

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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