O Brasil vive uma das maiores contradições do mundo democrático contemporâneo: possuímos uma das legislações eleitorais mais sofisticadas do planeta, mas ostentamos uma das representações políticas mais arcaicas e masculinizadas da América Latina.
Enquanto as mulheres compõem a maioria absoluta do eleitorado e apresentam, em média, maiores níveis de escolaridade formal, os corredores do poder em Brasília e nas capitais estaduais permanecem como redutos de um patriarcado que se recusa a ceder espaço.
A sub-representação feminina não é um fenômeno acidental; é o resultado de um sistema que foi deliberadamente edificado sobre a exclusão e que, ainda hoje, opera através de mecanismos de expulsão sofisticados.
Historicamente, a trajetória da mulher na política brasileira é uma crônica de concessões tardias e resistências ferozes. Desde o Código Eleitoral de 1932, que concedeu o voto sob amarras, até a chegada da primeira senadora titular apenas nos anos 90, o Estado brasileiro cristalizou uma cultura onde a política é lida como um "domínio natural" masculino.
Essa herança moldou não apenas quem senta nas cadeiras legislativas, mas como os partidos políticos são geridos. Hoje, os partidos atuam como as verdadeiras aduanas da democracia. No papel, cumprem as cotas de 30%; na prática, as executivas partidárias mantêm o controle financeiro e estratégico, sufocando candidaturas femininas promissoras em favor de dinastias políticas e nomes masculinos já consolidados. O financiamento, quando chega às mulheres, costuma ser escasso e tardio, transformando a disputa eleitoral em uma corrida onde elas partem vários quilômetros atrás.
Entretanto, o obstáculo financeiro é apenas a face mais visível de um problema mais profundo: a persistente desigualdade na economia do cuidado. A política, no formato atual, exige uma disponibilidade de tempo que ignora a realidade social brasileira. Enquanto a sociedade continuar delegando às mulheres a responsabilidade quase exclusiva pelo cuidado com a casa e a família, a vida pública será um fardo duplo. O relógio político, com suas reuniões noturnas e articulações de última hora, foi desenhado para quem tem uma rede de apoio invisível e gratuita garantindo o funcionamento do lar.
Para uma mulher, ocupar um espaço político não é apenas um ato de representação, é uma batalha diária contra o cansaço e a culpa socialmente imposta.
Além do esgotamento físico, há o desgaste simbólico. A violência política de gênero tornou-se a ferramenta de manutenção de poder mais vil da nossa era. Ela se manifesta no silenciamento em plenários, nas ofensas de cunho sexual e na desqualificação intelectual sistemática. Enquanto o debate entre homens costuma ser programático, o ataque às mulheres é invariavelmente pessoal. Essa hostilidade, amplificada pelas redes sociais, funciona como um alerta desencorajador para qualquer liderança feminina que ouse desafiar o status quo. É uma forma de dizer que aquele espaço, embora público, não as pertence.
Portanto, encarar a sub-representação feminina apenas como uma questão de "justiça social" é um erro de perspectiva. Trata-se de uma falha grave na eficiência do Estado.
Quando excluímos as mulheres da tomada de decisão, perdemos olhares fundamentais sobre temas relevantes para a sociedade, reduzindo a inteligência coletiva do país. A verdadeira reforma política não virá apenas de novas leis de cotas, mas de uma transformação cultural que compreenda que uma democracia que não espelha o rosto do seu povo é, na melhor das hipóteses, uma democracia incompleta.
(*) ROBERTA HERINGER é estrategista digital para perfis políticos e criadora do Estratégia Política Digital e escreve para HiperNoticias. Instagran: @robertaheringers
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