Nos últimos dias, o Brasil foi confrontado, mais uma vez, com episódios que expõem uma ferida antiga e persistente: a violência, o desrespeito e a desigualdade enfrentados por mulheres e meninas em diferentes espaços da sociedade. Do ambiente doméstico aos campos de futebol, passando por relações abusivas naturalizadas, os acontecimentos recentes não são fatos isolados, são sintomas de uma cultura que ainda falha em proteger, respeitar e valorizar suas mulheres.
O caso da criança em Minas Gerais envolvida em um relacionamento com um homem muito mais velho gerou indignação nacional. Independentemente das narrativas que tentem suavizar a gravidade da situação, é preciso afirmar com clareza: criança não consente. Criança precisa de proteção. Quando a sociedade relativiza esse princípio, abre espaço para que o abuso seja travestido de escolha.
O Estatuto da Criança e do Adolescente é claro ao reconhecer a vulnerabilidade absoluta de menores de idade. Ignorar esse fundamento é enfraquecer uma das principais garantias de proteção da infância.
No esporte, outro episódio escancarou o machismo estrutural: uma árbitra foi desrespeitada simplesmente por exercer sua profissão. A presença feminina no futebol ainda provoca reações que vão da desconfiança à hostilidade, como se competência tivesse gênero.
Mulheres já provaram, inúmeras vezes, sua capacidade técnica na arbitragem e em todas as áreas do esporte. Ainda assim, trabalham sob pressão redobrada, enfrentando comentários depreciativos, xingamentos e questionamentos que raramente recaem com a mesma intensidade sobre homens na mesma função.
O futebol, paixão nacional, deveria ser também espaço de inclusão e igualdade. Quando uma árbitra é desrespeitada por ser mulher, o problema não está na arbitragem, está na mentalidade de quem ainda acredita que certos lugares não lhes pertencem.
Paralelamente, os casos de feminicídios continuam a ocupar manchetes quase diárias. Mulheres assassinadas por companheiros, ex-companheiros ou por homens que não aceitam o fim de um relacionamento. Mortas por exercerem o direito de dizer “não”.
O feminicídio não é um crime passional. É a expressão máxima do controle e da posse. É o resultado de uma cultura que ainda ensina que mulheres devem obediência, tolerância e silêncio. Sem enfrentamento firme, políticas públicas eficazes, educação para a igualdade de gênero e responsabilização exemplar dos agressores, o ciclo continuará.
O que conecta todos esses episódios? A mesma raiz: a desigualdade de gênero. A sexualização precoce de meninas, o questionamento da autoridade feminina em espaços públicos e a violência letal contra mulheres fazem parte de um mesmo sistema de crenças que insiste em limitar, controlar e submeter.
Não se trata de casos isolados. Trata-se de um padrão. E padrões exigem mudanças estruturais.
É urgente fortalecer uma educação baseada no respeito, ampliar a proteção às vítimas e garantir que denúncias sejam levadas a sério. É preciso que a sociedade pare de relativizar violências quando elas se encaixam em narrativas convenientes.
Cada vez que minimizamos um abuso, rimos de um comentário machista ou silenciamos diante de um relacionamento claramente desigual, colaboramos ainda que involuntariamente para a manutenção desse cenário.
O Brasil precisa decidir que tipo de sociedade deseja ser: uma que normaliza o inaceitável ou uma que protege suas meninas, respeita suas mulheres e pune seus agressores?
Os acontecimentos recentes não são apenas notícias. São alertas. Ignorá-los é escolher permanecer no mesmo ciclo de violência e desigualdade.
O enfrentamento começa com indignação, mas precisa avançar para ação coletiva, institucional e contínua.
Porque respeito não é concessão.
É direito.
(*) KEROLAYNE CHAVES é Jornalista.
Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br
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