O bolsonarismo quer tomar de assalto os locais de votação nas eleições deste ano. Como uma célula política cancerígena com o DNA alterado - prestes a perder o controle sobre sua própria multiplicação antes de sucumbir -, o bolsonarismo patrocina neste momento um movimento em que células malignas se desprendem do tumor principal e invadem tecidos até então saudáveis. Para isso, buscam utilizar os vasos sanguíneos em detrimento dos linfáticos, o que lhes garantiria velocidade e alcance maiores no ataque. Chegariam, assim, aos pulmões, ao fígado e ao cérebro do processo eleitoral.
Da mesma forma que faz há anos, o bolsonarismo aposta em semear, junto à sua base social, a desconfiança em relação ao processo eleitoral brasileiro. E aqui cabe um elogio involuntário: eles são craques na ação sobre a realpolitik. Canalhas, é verdade. Mas não se pode negar que operam com uma eficiência e uma desfaçatez que nenhum outro movimento político alcança na atualidade - e é difícil encontrar paralelo semelhante em toda a história do País.
Desta vez, convocam como porta-voz a ex-primeira-dama e pré-candidata ao Senado, Michelle Bolsonaro. Ela se utiliza - e notem a petulância - dos horários da propaganda partidária do PL no rádio e na televisão para disseminar a ideia de que há necessidade de maior fiscalização sobre o processo eleitoral, insinuando, portanto, a existência de fraudes. Em outras palavras, instrumentaliza um espaço concebido para defender a democracia - tempo de antena garantido pela legislação eleitoral-partidária justamente para que os partidos expressem seus programas e ideias - para atacar as bases da própria democracia que o protege.
Assim como fizeram desde o início de sua construção política - o que é traço característico de todo movimento de natureza fascista -, o bolsonarismo aposta em plantar, junto a uma parcela da população, o descrédito nas instituições. A estratégia não é nova: é o manual.
E é aqui que reside o perigo mais concreto do movimento que realizam sob a chancela do PL. O partido lançou um chamamento explícito à sua militância para que se inscrevam junto à Justiça Eleitoral como mesários. O sinal foi claro e objetivo: levar células cancerígenas - pela própria corrente sanguínea da Justiça Eleitoral - a todos os órgãos do sistema eleitoral, tomando de assalto cada ponto de votação do País.
Numa tática "entrista" às avessas, o objetivo é construir bases infiltradas para implodir o processo nas eleições de 2026. Não esqueçamos, afinal, de quem é a responsabilidade de abrir e fechar as seções de votação e de encaminhar os relatórios ao TSE: são os mesários. Controlar esse elo é controlar o sistema nervoso central do processo.
A Justiça Eleitoral, de um lado, e os demais partidos políticos, de outro, precisam se manter alertas e adotar medidas objetivas e urgentes para que esse projeto não se concretize. O risco é concreto. O fechamento de rodovias pela PRF no Nordeste no dia das eleições de 2022, seguido pelo misterioso chamamento de que "em 72 horas haveria novidades" - frase que manteve acesa a chama golpista até a explosão de 8 de janeiro de 2023 - pode encontrar seu equivalente desta vez. Mas não mais nas estradas. Por dentro.
(*) OLIVEIROS MARQUES é sociólogo, publicitário e comunicador político.
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