Repriso episódios antigos,
Carrego pesos não vistos,
Busco na raiz o que ficou,
Um recomeço, com novo script.
Você já se perguntou por que certas histórias de amor se repetem na sua vida, como uma série que conta o mesmo episódio, ano após ano, só trocando o elenco?
Por que atrai sempre o mesmo tipo de parceiro? Por que, no instante em que tudo parece bem, alguma coisa dentro de você encontra um motivo para sabotar?
Bert Hellinger, terapeuta alemão, dedicou parte da sua vida a observar algo que poucos enxergam: famílias carregam ordens, leis não escritas que regem o amor e o lugar de cada um dentro do sistema familiar.
Ele afirmou que quando essas ordens são violadas, alguém no sistema assume o peso daquilo que não foi resolvido. E é assim que o passado de quem vivenciou um amor interrompido, um luto não chorado, uma injustiça nunca reparada encontra alguém para carregar esse peso. Algumas vezes, esse alguém nem sequer conheceu a história original.
Foi exatamente isso que aconteceu com Vavá*.
Pela sétima vez, uma semana antes do dia dos namorados, Vavá*, 36 anos, terminou outro relacionamento da mesma forma e pelo mesmo motivo. Sem traição, sem briga. Sempre que começava a ter mais intimidade ou se tornava mais vulnerável, era como se um juiz apitasse dentro dele: jogo suspenso.
Ele pegou a xícara fria, tomou um gole de café, sem nem sentir o gosto, e fez a pergunta que vinha evitando há anos: por que isso está acontecendo comigo?
Foi procurar saber de onde vinha aquela dor através da constelação familiar.
Ali, apareceu o representante do seu avô Kalil*, que viveu um grande amor interrompido pela guerra. Não pôde ser vivido, ficou suspenso, guardado em silêncio por décadas.
Vavá* sentiu, naquele momento, um nó no peito. Uma vontade de ficar parado. De não seguir. Uma tristeza que não era dele, mas que, de alguma forma, ele carregava.
Será que, sem saber, Vavá* vinha sendo leal àquela história, recuando do amor para não trair quem nunca pôde tê-lo?
Injustiças ou segredos de família, guardados por vergonha, dor ou proteção, não desaparecem com o tempo. Eles continuam, silenciosamente, influenciando escolhas, e tendem a ser “lembrados” por gerações futuras, através de repetições do destino.
O sofrimento não resolvido tende a ser transmitido, como uma herança invisível, para quem vem depois, não por culpa, mas por lealdade. Uma lealdade tão antiga e tão silenciosa que quem a carrega nem sequer sabe o que está carregando, à espera de reconhecimento.
Como Vavá*, talvez você também esteja carregando, com lealdade, uma história que não é sua para viver, mas que é sua para honrar. E, ao reconhecê-la, você pode escrever um novo final. Não apenas para você, mas para todos os que vierem depois.
Quantas temporadas da sua vida anda maratonando no automático?
*Os personagens são fictícios.
(*) BRUNA BERTHOLDO é Escritora. Poesia. Consteladora Familiar. Neurociência aplicada.
Instagram: @brunabertholdocf
Substack: @brunabertholdo
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