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Artigos Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2026, 15:07 - A | A

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Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2026, 15h:07 - A | A

ELISMAR BEZERRA

O menino tinha o rio em si

ELISMAR BEZERRA ARRUDA

Uma pessoa poderosa pelo que ajuntou de riqueza, a ferro e enganação de falar falso, pressupõe uma multidão de esvaziadas do poder que havia nelas, por ser gente; e que lhes foi subtraído, para subsumi-las no interesse medonho daquele empedrado. Um sem-coração, que, por ter esquecido a lição antiga (que ensina só ser, seguramente, sendo com os outros, semelhantemente), um dia arderá de dor sem alívio, sem quem lhe dê copo d’água, ou até lhe dê, cobrando preço caro. “Gente cresce aprendendo coisa ruim, maldade, ganância de usura; de jeito que só quando perde a dó do outro, adulto é: aprendeu a ser só, somente!”, disse assim, o seleiro João Acaba-Mundo – alcunha ganhada pelo seus dizeres proféticos, apocalípticos, falados enquanto fazia sua arte, quando alguém ia vê-lo e ouvi-lo na sua oficinazinha impregnada de cheiros de couro e tempo. Era dizeres sem serventia para o viver comercial, mas, como o viver não é só negociação, havia quem distinguia neles verdades – que não se mostravam no razio...

Ele morava cá, em cima, na mesma rua da Dona Pedra: mulher esguia, que aparentava mais retilínea e circunspecta que era, pelos vestidos compridos que usava; e nunca saía à rua para qualquer afazer, sem ter nas mãos, juntadas ao peito à moda das santas, um buquê formado por galinhos e alguma flor, colhidos das plantas cultivadas no quintal – na verdade, era um cultivo ao deus-dará, porque quase nada plantara: as ervas e arbustos e frutíferas nasceram ali, trazidas pelo vento e do descomido das tripas dos passarinhos, aí cresceram por si; ela aparava os galhos e outros excessos, para o sol lhes penetrar, vitalmente. Nos seus domínios, todas as plantas cresciam sem ameaça de enxada e foice: “É um vivente como os outros: sentem dor, na morte; nenhum eu mato, não...”, dizia aos que perguntavam porque não limpava o quintal. Era mulher cheia de si e sabenças. De jeito que quando Maurina pariu menino-macho, foi visitar a puérpera e, ao ver a criança, ao quilate de João Acaba-Mundo, disse: “Muito vistoso, o menino: é já a luz, a graça dada. Mas tem que saber cuidar, pra seguir sendo graça, minha filha. Amém!”. Era reza? Ao pé da cama pobre, ninguém entendeu direito, senão, que o nascimento se deu à vontade divina; e ninguém fez esforço pra entender: o viver ali, não carecia desesperadamente de entendê-la, para seguir sendo o que era...

Andava devagar, sem a pressa dos que, de tanto correrem atrás de fortuna, adoeceram de gemer o corpo e perder o juízo – aí, restaram nada; ela, não: era, já...

Num dia de batizado, com a igreja cheia de meninos e meninas vestidos de branco-pureza e celestialidades, e seus pais e mães e padrinhos, Dona Pedra tomou a palavra de padre João Bento, antes mesmo dele terminar a homilia, e disse aos ouvidos todos: “Olhai as criaturas amadurecidas, nós, que já falamos e pensamos, que aprendemos falares e pensares ensinados, quase sempre, por muitos amedrontamentos; reparai bem: vivemos de saudades de uma vida não vivida, mas, de tão boa, imaginada, dói-nos esse não-acontecido. É desse oco que há em nós, de não sabermos, sequer, o rumo pronde foi a alegria que parece ter existido, e que se desarrumou, perdeu-se de nós; de jeito que, crescidos, rindo e gozando alguma alegria breve e fugidia, vivemos de sentir essa saudade que não passa, enchendo todos de certo vazio. Onde foram parar as nossas meninices, como essas que vemos aqui, puras e santas?”. A igreja quedou-se, silente. Padre João Bento riu, como a agradecer com o semblante feliz; aí quis dizer palavra, mas, ela o atalhou e, terminando com mais vagar nas palavras, com calma de quase cansaço, disse: “Crescer não devia ser entristecimento, esse desviver sem fim, que se faz por morticínios: das alegrias e levezas que há nas crianças; de jeito que, quanto mais bem matadas são as criancices, mais ligeiramente, é que brota adulto bruto...”. Aí, calou-se, sentando-se a olhar o Altar, fazendo o sinal da Cruz. Foi reza, aquele dizer?

Ali perto, havia a Aldeia São Pedro, com gente de idades diversas: desde os de olhares e risos de quem ainda vive só de leite de peito e cuidados da Mãe, e aprendendo a caminhar – até os já muito vividos. Viviam como se a acalantar o terreiro que pisavam, bendizendo o tempo que os habitavam mansamente, dando desembaraço ao ser de todos, para serem irmandade benfazeja, na igualdade que eram. E se faziam assim, naturalmente, urdindo entendimento no trançar de embiras, cheios de alumbramentos, sem ganas de um crescer pra si, somente; assim, os pequenos riam mostrando a almazinha sem pecado, a mente sem pensamentos e desejos de maldade e os olhinhos puros, de só enxergarem a Mãe em todos que olhassem. Eles e os maiorzinhos, não tinham visto rudezas e crueldades: viam tudo pelo olhar de Mãe estendido por toda a aldeia, ventre-terra, a lhes devotar amor-puro. Um chorava, a aldeia auscultava: nera doença, nem fome? – deixai-o, em sua birrinha, porque passará; ali, juntavam entendimento, que viraria sabedoria com o correr dos anos, amalgamando modo de ser e viver...

Quando Bentinho, menino de quase onze anos, filho de um irmão de dona Pedra, que enviuvara, veio passar uns dias com ela, ela o levou à Aldeia: era mês de julho, tempo do Aruanã – a festa-maior daquele povo milenar. Ele viu tudo com olhos de espanto amoroso e medo, pelo que lhe disseram de indígena. Eles voltaram pra casa com a lua cheia alta no céu, a iluminar o caminho de terra-chã com luz e a beleza dos luares centro-oestinos; com eles, uma dezena de outras pessoas voltaram, conversando animadas, lembrando causos e acontecidos em tempo passado ali e além. Bento gostava de estar com a tia; talvez, porque nenhum mistério há, mais, que no ser mulher, e nenhum mais santo e misterioso, que ser mulher-mãe.

Tudo visto assim, no simplificado de reparar e imaginar sem avexamento, vê-se alevantar para o compreender real, do que se vê e sente, que o divino-deus, que tudo fez, parido da sua bondade, só pode ser Mulher-Mãe – pai, não! Fosse o homem-macho, a imagem e semelhança de Deus, os homens teriam aprendido desde que são, no correr dos dias e horas de tantos milênios, a se esmerarem no querer, a darem-se em bondades aos outros, sem interesse de paga ou espera de ganho, sem querer recompensa. Mas, do jeito que são, dados às guerras e vinganças, à mortandade dos filhos dos outros para tomar coisas e terras, escravizar: sendo desse jeito, têm semelhança não! Fosse, amaria como Mulher-Mãe – ao modo do Nazareno; senão, que tenham sido Pai-Mãe, mas se perderam de ser assim e se desassemelharam do Criador. Porque, reparado no que criou: fez tudo torto, mostrado no meio de linhas tortas, a exigir entendimento e sem desvio no fazer igual; o mundo feito, gira velozmente, indo para um sem fim do nada, mas, na calmaria de tudo, é que faz a gente enxergar a gente...

Bento amanheceu querendo lembrar os dizeres todos, ouvidos num sonho que durou a noite inteira; queria dizê-los à tia, pra saber o que eram. Levantou-se, atravessou a cozinha e, sentindo o cheiro de café e da banha de porco fritando ovo, foi à areazinha onde ficava o fogão à lenho: pediu a benção da tia e sentou-se num banco em silêncio a olha-la. “Dormiu bem, meu filho?”, perguntou-lhe, a tia; como se não tivesse ouvido a pergunta, Bento respondeu, perguntando: “Tia, Deus é Mulher-Mãe, é?!”. Dona Pedra virou-se para o sobrinho e se riu inteira, riso-aberto – ri, riso-alegre, cedinho, quem tem sentimento de felicidade no corpo e na alma, a inundar a casa toda, desde o fogão...

(*) ELISMAR BEZERRA DE ARRUDA é professor doutor das redes municipal de Cuiabá e da estadual de Mato Grosso. Foi presidente fundador do Sintep e Secretário de Cultura de Mato Grosso.

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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