Na manhã deste domingo, 22 de fevereiro de 2026, por volta das oito horas, eu caminhava pelas ruas do meu bairro (Bairro Consil), quando, ao passar pela Rua Oriente Tenuta, presenciei uma cena que me atravessou como uma pergunta moral.
Um veículo saía apressadamente da garagem de um prédio para entrar na rua. No mesmo instante, outro carro transitava pela rua. O motorista que saía freou bruscamente para que este passasse; o que passava buzinou de forma raivosa. Não satisfeito, parou adiante, fechou o carro que deixava a garagem para achincalhar os ocupantes. Ao abaixar o vidro, vi que se tratava de uma senhora, aparentando mais de quarenta anos muito bem-vestida, conduzindo um veículo de alto valor, (mais de quatrocentos mil reais quando zero). No vidro traseiro, uma frase religiosa proclamava fé e proteção divina.
Então, do carro interceptado, a mulher que estava no banco do carona abaixou o vidro e, apavorada e com voz trêmula, suplicou: “Pelo amor de Deus, meu filho está convulsionando. Deixa a gente correr para o hospital.”
A cena durou poucos segundos, mas revelou uma fissura profunda do nosso tempo. Entre a buzina e a súplica, entre a ostentação de um símbolo religioso e a recusa da compaixão imediata, estava ali condensada uma pergunta inquietante: por que estamos tão tomados pela raiva?
Na psicologia clássica, a raiva é compreendida como uma emoção básica, ligada à percepção de ameaça ou frustração. A teoria frustração-agressão, desenvolvida por pesquisadores como John Dollard, sugere que a agressividade emerge quando um objetivo é bloqueado. No trânsito, essa dinâmica é quase um laboratório a céu aberto: pressa, sensação de injustiça, disputa por espaço, anonimato.
Mas o que vemos hoje vai além da irritação momentânea. O que se percebe é uma disposição permanente à hostilidade. A buzina não é apenas alerta; é sentença. O outro não é apenas alguém que errou; é um inimigo.
O psicanalista Sigmund Freud falava de uma pulsão agressiva constitutiva do ser humano, algo que, sem elaboração simbólica e ética, pode se voltar contra o outro com violência. Já Erich Fromm, ao analisar sociedades modernas, distinguia a agressividade defensiva da agressividade maligna, esta última alimentada por estruturas sociais que cultivam medo, competição extrema e sensação de insignificância.
Quando a identidade se fragiliza, o ego busca reafirmação pela dominação. Humilhar o outro no trânsito, impor-se pela força simbólica, “dar uma lição”, tudo isso funciona como compensação narcísica. A raiva, nesse caso, deixa de ser reação e se torna estilo de existência.
A filósofa Hannah Arendt alertou para a banalidade do mal: o mal não nasce necessariamente de monstros, mas de pessoas comuns que deixam de pensar criticamente e passam a agir por automatismo emocional. O que vi naquela manhã não era um crime, mas era um sintoma. O sintoma de uma cultura onde o outro é rapidamente reduzido a obstáculo.
Já Thomas Hobbes descreveu o estado de natureza como uma guerra de todos contra todos. A civilização, dizia ele, nasce do pacto que limita nossos impulsos. O problema contemporâneo talvez seja o enfraquecimento simbólico desse pacto. Quando a confiança social se deteriora, o espaço público se converte em arena.
Vivemos tempos de polarização intensa. Alguns atribuem a “onda assassina” à raiva contra líderes políticos, seja Donald Trump, Luiz Inácio Lula da Silva ou Jair Bolsonaro. Outros falam em ódio ao comunismo, ao fascismo, à esquerda, à direita. Mas a pergunta honesta é: a raiva política é causa ou pretexto?
A política amplifica emoções já latentes. Ela oferece narrativas, alvos simbólicos, justificativas morais. No entanto, o impulso de ferir quem está próximo ou no trânsito, na fila do mercado, na vizinhança, revela algo mais profundo: uma crise de sentido e de empatia.
Talvez o detalhe mais perturbador da cena tenha sido o adesivo religioso no carro que bloqueava a passagem. Não porque a fé seja problema, mas porque ali se evidenciou a dissociação entre símbolo e prática.
O filósofo Immanuel Kant propôs o imperativo categórico: agir apenas segundo máximas que possamos desejar como lei universal. Se universalizarmos o gesto de impedir alguém que corre para socorrer um filho convulsionando, que tipo de mundo criamos?
A ética não se mede pelo discurso, mas pela ação concreta diante da vulnerabilidade alheia. A compaixão não é sentimento abstrato; é resposta imediata ao sofrimento do outro.
Não creio que ela venha exclusivamente de um líder, de uma ideologia ou de um partido. Ela nasce da soma de: frustrações acumuladas; insegurança econômica; hiperexposição a discursos de ódio nas redes sociais; cultura de competição e exibicionismo e perda de vínculos comunitários reais.
Quando a sociedade se organiza em torno da lógica do desempenho e da ostentação, o outro passa a ser rival. Quando o debate público se transforma em guerra moral, o adversário deixa de ser interlocutor e passa a ser inimigo.
A agressividade cotidiana é o ensaio da violência maior. A buzina descontrolada é o eco distante do disparo. O insulto gratuito é a semente da exclusão, sentir raiva é humano; agir com brutalidade é decisão.
Naquela manhã, havia duas possibilidades: insistir na humilhação ou abrir passagem. Entre o poder de bloquear e a grandeza de ceder, revela-se o caráter.
Talvez a pergunta mais honesta não seja “de quem é a culpa?”, mas “que tipo de ser humano estamos nos tornando?”.
A senhora do carro caro não era um monstro. Era alguém comum, atravessada por uma cultura de intolerância que normaliza a agressividade. E é justamente isso que assusta: o mal não precisa de grandes causas ideológicas para se manifestar; basta a ausência de empatia no cotidiano.
Se quisermos compreender a violência social, precisamos começar pelas pequenas cenas diárias: no trânsito, na vizinhança, nas redes sociais. A paz não começa nos palácios presidenciais, mas nas esquinas do bairro.
Naquela rua do Consil, entre a buzina e o choro de uma mãe, estava desenhada a encruzilhada do nosso tempo: ou aprendemos a frear a própria ira, ou continuaremos atropelando uns aos outros mesmo quando alguém grita, desesperado, pedindo passagem para salvar um filho.
(*) JOÃO EDISOM DE SOUZA é Analista político e professor universitário.
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