Pois é, entramos no período eleitoral e todos os dias, além das acusações mútuas entre os candidatos, ao ligar a televisão ou abrir o celular, somos confrontados com imagens dramáticas que já começam a fazer parte da nossa rotina: cidades debaixo d'água, florestas em chamas, ondas de calor sufocantes, secas prolongadas e tempestades cada vez mais violentas.
São milhares de famílias que perderam suas casas, pessoas queridas, crianças que deixaram de ir à escola. Dramas familiares e de pequenos comerciantes que viram o trabalho de uma vida inteira desaparecer em poucas horas. A crise climática deixou de ser uma ameaça para o futuro. Ela está batendo à nossa porta e muitas vezes, sem pedir licença, entrando em forma de inundação. Outras vezes, ainda, reduzindo a escombros milhares de casas.
Os números ajudam a entender a dimensão do problema. Dados da Fiocruz mostram que, somente em 2025, mais de 336 mil brasileiros foram diretamente afetados por eventos climáticos extremos. Em 2024, a tragédia no Rio Grande do Sul deixou mais de 180 mortos, atingiu cerca de 2,4 milhões de pessoas e provocou prejuízos próximos de R$ 90 bilhões.
Números que, por si só, não conseguem expressar o sofrimento humano. Quem teve a vida devastada ou ficou dias sem energia elétrica alguns dias, sabe bem o que isso significa. No recente vendaval que atingiu o Rio de Janeiro, cerca de 1,9 milhão de imóveis ficaram sem luz no momento mais crítico da tempestade. Em muitos locais, o fornecimento demorou alguns dias para ser restabelecido.
Poucos meses antes, outro temporal histórico deixou mais de 3 milhões de imóveis sem energia na região metropolitana de São Paulo. Hospitais, escolas, pequenos negócios e milhões de pessoas tiveram suas rotinas profundamente afetadas.
E há ainda um inimigo silencioso, cujas consequências são subestimadas: o calor extremo, que os últimos vinte anos, está associado a cerca de 120 de mil mortes no Brasil.
O Inevitável Agravamento da Crise
O mais preocupante é que esses episódios não representam o auge da crise, mas apenas seus primeiros sinais. Os eventos extremos tendem a se tornar mais frequentes, mais intensos e persistentes. A comunidade científica é praticamente unânime ao afirmar que, sem uma redução rápida das emissões de gases de efeito estufa e sem investimentos consistentes em adaptação climática, eventos extremos vão se tornar mais frequentes, mais intensos, mais letais e mais caros para a sociedade.
Isso significa mais mortes, mais pessoas desabrigadas, maior pressão sobre os sistemas de saúde, aumento do preço dos alimentos, perdas na agricultura, danos à infraestrutura, impactos sobre a geração de energia e um crescimento expressivo dos gastos públicos para enfrentar as tragédias e com reconstrução. Em outras palavras, a crise climática já não é apenas um problema ambiental. É também uma grave ameaça econômica, social e humanitária.
A inércia política e o voto como Ferramenta de Sobrevivência
Outra realidade que impressiona é que estamos em período eleitoral, assistimos diariamente a debates, entrevistas e propagandas, onde candidatos basicamente se restringem à troca de acusações, disputas ideológicas e a aprofundarem a polarização e a desinformação. Como se estivessem em outro planeta, desconectados da realidade, a emergência climática e outros temas fundamentais para a sociedade e o futuro do país, como os desafios nas áreas de saúde, educação, emprego e segurança, praticamente não aparecem.
A superficialidade e o baixo nível ocupam grande parte do espaço, empurrando para o segundo plano as questões que realmente definirão o futuro do país, entre eles, a crise climática – que não é bandeira só de ambientalistas. Atinge ricos e pobres, grandes e pequenas cidades, produtores rurais, empresários, trabalhadores, famílias, regiões e cidades inteiras.
Por isso, a emergência climática precisa subir no palanque. Precisamos cobrar dos candidatos propostas concretas para proteger vidas, preparar nossas cidades, fortalecer a Defesa Civil, investir em adaptação climática e acelerar a transição para uma economia mais sustentável. Cada voto é uma oportunidade de perguntar ao seu candidato: como você pretende proteger minha família, meu emprego, minha sobrevivência?
O clima já entrou na vida de todos nós e está mais do que na hora de entrar no cenário eleitoral. Mais que nunca é fundamental que a sociedade organizada, os movimentos sociais, setores do empresariado e cada cidadão pressionem candidatos e partidos para colocarem a emergência climática no centro do debate político.
Nestas e nas próximas eleições, escolher representantes que assumam compromissos reais com a agenda climática, de forma integrada com a economia e com os outros temas vitais para o Brasil, é a única forma de impedir que o país colapse diante dos eventos extremos que já estão literalmente invadindo nossas casas, destruindo nosso patrimônio e colocando em risco a vida de milhões de brasileiros.
(*) SÉRGIO GUIMARÃES é engenheiro civil e especialista em políticas ambientais.
Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br
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