A inteligência artificial deixou de ser promessa tecnológica. Ela já opera no coração das campanhas, produzindo conteúdos, monitorando redes, analisando dados e testando mensagens em escala inédita. A discussão não é mais se a IA estará presente nas eleições: ela já está. A pergunta incômoda é outra: até que ponto o voto continuará livre quando máquinas conhecem nossos medos e impulsos melhor do que nós mesmos?
A Resolução TSE nº 23.755 ampliou as regras para o uso de IA na propaganda eleitoral de 2026. Nesta semana, um acordo entre o Tribunal Superior Eleitoral e a Advocacia-Geral da União acrescentou dimensão operacional a esse esforço, com orientações sobre deepfakes, automação ilícita e microdirecionamento.
O avanço é real. Conteúdos sintéticos deverão ser identificados. Nas 72 horas anteriores e nas 24 horas posteriores à votação, fica proibida a publicação ou impulsionamento de novos conteúdos sintéticos com imagem, voz ou manifestação de candidatos ou pessoas públicas. As plataformas também passam a responder mais diretamente.
O TSE percebeu a gravidade do problema. Mas seria perigoso imaginar que o risco da inteligência artificial cabe inteiro dentro do universo dos deepfakes.
A regulamentação ainda se concentra no que pode ser visto, ouvido, rotulado ou removido. Mas a interferência mais sofisticada pode não produzir imagem falsa ou voz clonada. Ela pode atuar silenciosamente sobre a percepção do eleitor, escolhendo quais emoções estimular, quais medos reforçar e quais conteúdos repetir até que uma narrativa artificial pareça espontânea, popular e verdadeira.
É nesse território que operam os neurobots, as redes coordenadas de comportamento inautêntico e o microdirecionamento cognitivo. Esses sistemas observam padrões, testam estímulos e adaptam mensagens. Muitas vezes, nem precisam inventar uma mentira completa. Basta selecionar fragmentos verdadeiros, retirar contexto, exagerar ameaças e conduzir o eleitor por uma sequência calculada de emoções.
Uma mentira pode ser checada. Um vídeo falso pode ser periciado. Muito mais difícil é detectar uma arquitetura de influência construída para alterar progressivamente a forma como milhões de pessoas interpretam a realidade. Quando essa operação funciona, o eleitor acredita que chegou sozinho a uma conclusão induzida.
O acordo entre TSE e AGU acerta ao incluir automação ilícita e microdirecionamento entre suas preocupações. O desafio será transformar intenção em fiscalização e capacidade operacional. Caso contrário, teremos uma regulação forte sobre o truque que aparece na tela e frágil diante da engenharia invisível que atua dentro da cabeça do eleitor.
Há também o problema da velocidade. Um conteúdo falso pode alcançar milhões de pessoas antes da primeira decisão judicial. Mesmo removido, continuará circulando em grupos fechados, aplicativos de mensagens e versões modificadas. Na comunicação digital, o dano cognitivo costuma ocorrer antes da reparação jurídica. Retirar uma publicação do ar não apaga a impressão que ela deixou.
Campanhas e partidos precisam abandonar a fantasia conveniente de que a IA é apenas ferramenta barata de produção. Ela também é infraestrutura de persuasão, vulnerabilidade jurídica e arma de ataque reputacional. Deve ser tratada como área de governança e segurança, com protocolos internos, regras para fornecedores e equipes preparadas para reagir a falsificações e operações coordenadas. Quem utiliza IA sem controle entrega parte da própria estratégia a sistemas que talvez nem compreenda.
Proteger o eleitor não pode significar infantilizá-lo. Liberdade de expressão, crítica política, humor, sátira e contraditório precisam ser preservados. O desafio é combater fraude, automação clandestina, financiamento oculto e exploração de vulnerabilidades cognitivas sem transformar o enfrentamento à desinformação em censura.
As regras do TSE representam avanço real, mas não um ponto de chegada. As eleições de 2026 testarão não apenas a capacidade da Justiça Eleitoral de remover conteúdos falsos, mas também de enxergar aquilo que foi produzido justamente para não ser percebido.
A liberdade do voto não desaparece apenas quando alguém impede o eleitor de chegar à urna. Ela também pode ser corroída quando uma máquina escolhe seus medos, organiza suas indignações e conduz sua percepção da realidade. O deepfake engana os olhos. A manipulação cognitiva tenta sequestrar o caminho até a decisão.
(*) MARCELO SENISE é sociólogo, estrategista político, especialista em comportamento humano e IA aplicada à comunicação política. É presidente do IRIA — Instituto Brasileiro para a Regulamentação da Inteligência Artificial — e autor de A Delicada (ou não) Arte da Desconstrução Política e da trilogia Blindagem Essencial.
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