Presos da Penitenciária Central do Estado (PCE) tratavam a pastora Orminda Carlos de Barcelos, de 55 anos, como “mamãe” e o marido dela, o pastor Nivaldo Almeida, como “pai” em cartas enviadas à filha do casal, Rhavenna Barcelos Cabeça de Almeida, de 24 anos. As correspondências são citadas nas investigações que apuram um suposto esquema de lavagem de dinheiro para o Comando Vermelho em Mato Grosso envolvendo Orminda e Rhavenna.
Em uma das cartas, datada de 30 de junho de 2026, um detento identificado no documento como remetente chama Rhavenna de “Piu” e pede que ela receba e guarde objetos que seriam entregues por outro preso.
“Rapaz aqui que tá mim devendo [...] vai leva um relógio e um PEN DRIVE”, escreve. Em seguida, pede ajuda: “vc guarda. Por favor. mim ajuda aí” e “vem aqui busca seu presente”.
Segundo a Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Draco), o conteúdo indica que Rhavenna era procurada por detentos para receber e guardar objetos. A carta também menciona a entrega de um “presente” em troca do auxílio.
Em outra correspondência, sem data, um preso orienta Rhavenna a avisar Orminda sobre transferências de dinheiro. “Fala p/ mamãe que vai cair na conta dela dois pix um no valor de R$ 400,00 e outro R$ 150,00, para p/ ela guardar p/ mim”, diz o texto.
Na mesma carta, o detento afirma que uma terceira pessoa lhe devia dinheiro e que havia deixado “um relógio e uma bíblia” com Orminda. Ele pede que os objetos sejam levados até ele e solicita ainda uma fotografia e um número de telefone. Ao final, escreve: “vou dar uma bença p/ ela”.
Para a Draco, as mensagens indicam que Rhavenna e Orminda eram acionadas por presos para receber e guardar valores e objetos, além de repassar informações e atender a pedidos feitos de dentro da unidade prisional. A interpretação consta em relatório elaborado a partir de arquivos armazenados na conta iCloud de Rhavenna.
As referências a relógios e bíblias aparecem novamente em outras correspondências. Em uma delas, um detento pede que Orminda “não esquecer de pegar o meu dinheiro e comprar um relógio aí pra mim” e orienta que o objeto seja enviado “por um dos irmão aqui pra mim”.
Na mesma carta, ele menciona presentes destinados a integrantes da família: “eu fiz presente para a minha família, um para vc, um para mãe, um para papai, um para Lorena [Lo Rhuama Barcelos, irmã de Rhavenna], um para Taninha [Anatany Nina, irmã de Rhavenna], e outro para Yara, espero que todos vcs gostem”.
No relatório, os investigadores afirmam que o conjunto das mensagens coloca Rhavenna e familiares em um círculo de confiança dos detentos, com participação na guarda de dinheiro, aquisição e encaminhamento de objetos e recebimento de presentes.
A família, que atuava como missionária no projeto Resgatando Vidas, passou a ser investigada pela Operação Fariseus, deflagrada pela Polícia Civil em julho deste ano, em Cuiabá. A operação apura a possível utilização da atividade de evangelização para intermediar interesses de integrantes do Comando Vermelho.
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