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Artigos Terça-feira, 06 de Janeiro de 2026, 10:01 - A | A

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Terça-feira, 06 de Janeiro de 2026, 10h:01 - A | A

JOÃO EDISOM

Os danos da idiotização da política

“O homem medíocre acredita ter direito de impor sua mediocridade.” José Ortega y Gasset

JOÃO EDISOM

A política, em sua origem clássica, nasce como o mais elevado exercício da razão coletiva. Para Aristóteles, o ser humano é um zoon politikon, isto é, um animal destinado à vida em comunidade, cuja plenitude se realiza na participação racional dos assuntos da pólis. No entanto, o cenário político contemporâneo revela um processo inverso: a progressiva idiotização da política, marcada pela ocupação de espaços institucionais por indivíduos com baixo nível intelectual, ético e humano, fenômeno que se agrava a cada ciclo eleitoral.

O termo “idiota”, no sentido original grego (idiṓtēs), designava aquele que se recusava a participar da vida pública, limitando-se aos interesses privados. A ironia histórica é que, hoje, o idiota não apenas participa da política, como a ocupa e a conduz. A idiotização contemporânea não se resume à ignorância técnica, mas envolve a recusa deliberada da complexidade, o desprezo pelo conhecimento, a hostilidade à ciência, à filosofia e à reflexão crítica.

Do ponto de vista sociológico, esse processo não ocorre de forma espontânea. Ele é resultado direto da precarização da educação, da mercantilização da informação e da transformação da política em espetáculo. Guy Debord já alertava que, na “sociedade do espetáculo”, a aparência substitui o conteúdo, e o que importa não é a verdade, mas a capacidade de gerar impacto emocional. Assim, discursos simplistas, agressivos e vazios passam a ser mais eficazes eleitoralmente do que propostas consistentes e debates qualificados.

As redes sociais intensificaram esse fenômeno ao premiar a indignação rasa, a mentira bem embalada e o ataque pessoal. O algoritmo não valoriza a razão, mas o engajamento. Nesse ambiente, o político medíocre prospera, pois fala o que é fácil, o que é imediato e o que dispensa esforço cognitivo do eleitor. A idiotização da política, portanto, é também a idiotização do debate público.

Sob a ótica das ciências políticas, os danos são profundos e duradouros. Instituições passam a ser ocupadas por representantes incapazes de compreender o funcionamento do Estado, o papel dos freios e contrapesos ou a complexidade das políticas públicas. A consequência direta é a produção de leis mal formuladas, políticas improvisadas e decisões guiadas por interesses pessoais, ressentimentos ou puro oportunismo eleitoral.

Além disso, a baixa estatura intelectual e humana de parte significativa da classe política contribui para o esvaziamento da ética pública. Hannah Arendt, ao analisar a banalidade do mal, demonstrou que grandes tragédias políticas não nascem apenas da maldade consciente, mas da incapacidade de pensar. Quando o representante não reflete, não duvida e não compreende o impacto de seus atos, torna-se perigoso, mesmo sem intenção explícita de causar danos.

A idiotização da política também corrói a democracia por dentro. O descrédito nas instituições cresce à medida que o cidadão percebe que seus representantes não estão à altura da função que exercem. Isso alimenta o cinismo, o abstencionismo e, paradoxalmente, abre espaço para soluções autoritárias, que se apresentam como alternativas à desordem causada pela incompetência generalizada.

Não se trata de elitismo intelectual, mas de responsabilidade pública. A política exige preparo, sensibilidade social, capacidade de diálogo e compromisso com o bem comum. Quando esses atributos são substituídos por bravatas, ignorância e teatralização do poder, toda a sociedade paga o preço: na economia, na educação, na saúde e na própria coesão social.

Combater a idiotização da política é, antes de tudo, uma tarefa coletiva. Passa pela valorização da educação, pela exigência de debate qualificado, pelo fortalecimento da cultura cívica e pela recusa consciente de transformar o voto em instrumento de protesto inconsequente. A democracia não sobrevive apenas do direito de escolher, mas da qualidade das escolhas que fazemos.

Em última instância, a pergunta que se impõe não é apenas quem nos governa, mas o quanto estamos dispostos a tolerar que a política seja reduzida a um espetáculo de mediocridade. A idiotização da política não é um destino inevitável; é uma escolha social e toda escolha traz consequências

(*) JOÃO EDISOM DE SOUZA é Analista político e professor universitário.

 

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Sebastião 06/01/2026

Excelente, muito sucinto nas suas posições.

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