O Governo de Mato Grosso instituiu um Grupo de Trabalho (GT) para elaborar um protocolo de prevenção em casos de feminicídios no estado. O efeito copycat e um fenômeno em que a ampla exposição de crimes pode estimular a repetição de comportamentos violentos. A iniciativa publicada no Diário Oficial desta sexta-feira (17), também prevê a criação de diretrizes voltadas à comunicação pública e à cobertura jornalística de casos de violência contra a mulher, com foco na divulgação responsável das informações.
A medida ocorre em meio ao cenário de violência de gênero registrado em Mato Grosso. Em 2025, o Estado contabilizou 52 feminicídios, o maior número da série recente e que colocou Mato Grosso entre os estados com maiores índices desse tipo de crime no país. Já em 2026, foram 23 feminicídios registrados no primeiro semestre, número que, embora inferior ao mesmo período do ano passado, mantém o tema entre as principais preocupações da segurança pública e da rede de proteção às mulheres.
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A resolução, publicada no Diário Oficial do Estado, considera que a espetacularização dos crimes, a divulgação detalhada do modo de execução e a romantização ou humanização dos autores podem potencializar novos episódios de violência. O texto também ressalta a importância de conciliar a liberdade de imprensa com a proteção das vítimas, a ética jornalística e o interesse público.
O grupo será coordenado pela delegada Judá Maali Marcondes e contará com representantes da Secretaria de Estado de Comunicação (Secom), Gabinete de Enfrentamento à Violência de Gênero contra a Mulher (GEVM), Polícia Civil, Polícia Militar, Politec, Assembleia Legislativa, Tribunal de Justiça e Ministério Público.
Entre as atribuições está a elaboração de um Manual de Pronunciamento Oficial, destinado a policiais e agentes públicos, estabelecendo parâmetros para entrevistas, coletivas e notas oficiais. A proposta é evitar a divulgação de detalhes sobre a dinâmica dos crimes, imagens que exponham o sofrimento das vítimas e informações que possam atribuir culpa às mulheres ou justificar a conduta dos agressores.
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O GT também deverá produzir um Guia de Recomendação Jornalística, elaborado em diálogo com veículos de comunicação. Entre as orientações previstas estão evitar manchetes sensacionalistas, não construir narrativas que vitimizem os autores dos crimes e garantir que reportagens sobre violência contra a mulher tragam, de forma destacada, informações sobre canais de denúncia e acolhimento, como o Ligue 180 e os serviços especializados disponíveis no Estado.
Outra missão será desenvolver programas permanentes de capacitação para assessores de comunicação, porta-vozes das forças de segurança e profissionais da imprensa, além de propor mecanismos voluntários de monitoramento e diálogo contínuo com os veículos de comunicação para avaliar a adoção das recomendações.
O grupo terá 90 dias para concluir os trabalhos, prazo que poderá ser prorrogado por mais 60 dias. Ao final, deverá apresentar um relatório com os manuais e um plano de implementação para validação pela Rede Estadual de Enfrentamento à Violência contra a Mulher.
EFEITO COPYCAT
O chamado efeito copycat, também conhecido como "efeito contágio", descreve a repetição de comportamentos violentos após a ampla divulgação de crimes pela mídia ou pelas redes sociais. O fenômeno já foi discutido em diferentes áreas, especialmente em estudos sobre ataques em escolas, suicídios e feminicídios.
Em maio deste ano, durante encontro promovido pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin), especialistas alertaram que a divulgação excessiva de autores, métodos utilizados e detalhes dos crimes pode estimular novos episódios de violência. Na ocasião, também foi defendida uma comunicação que priorize a responsabilização dos criminosos, as consequências legais e os canais de proteção às vítimas, em vez da espetacularização dos casos.
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Especialistas em violência de gênero também defendem que reportagens sobre feminicídios evitem expressões como "crime passional" ou justificativas relacionadas a ciúmes e ao fim de relacionamentos, uma vez que esse tipo de narrativa pode minimizar a gravidade da violência contra a mulher.
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