Os resultados deslocam o centro de gravidade para mais perto do Capitólio, onde os democratas tentarão conter o poder de Trump após dois anos de conivência dos republicanos no Congresso.
Isso não apenas traz à tona uma dinâmica do seu primeiro mandato, quando os democratas da Câmara assumiram o poder nas primeiras eleições de meio de mandato de Trump e, por fim, o destituíram duas vezes, mas, com o controle também do Senado, os democratas agora podem obstruir as nomeações de Trump para cargos no Gabinete e para juízes federais e da Suprema Corte.
Trump praticamente garantiu que os resultados seriam vistos como um referendo sobre si mesmo, ao instar repetidamente os eleitores a "fingirem que eu estou na cédula", enquanto visitava estados predominantemente conservadores para apoiar candidatos republicanos e alertava sobre um Washington onde os democratas estariam no poder.
Mas os resultados mostraram como os eleitores rejeitaram os candidatos escolhidos a dedo por Trump, ao mesmo tempo que expressaram preocupações generalizadas sobre os altos custos decorrentes de sua guerra contra o Irã e de sua política tarifária punitiva.
Durante uma entrevista à Fox News que foi ao ar na manhã desta quarta-feira, Trump tentou se eximir da culpa, afirmando que os democratas "fizeram um bom trabalho" em suas campanhas e culpando os candidatos republicanos por suas derrotas. "Não vejo isso como um ataque a mim", disse ele.
Os resultados deixam Trump - que acompanhou a apuração na Casa Branca com seus assessores e membros de seu gabinete - com uma redução drástica de seu capital político, tanto nacional quanto internacionalmente.
De investigações a impeachment, o que está em jogo
Os principais democratas, prevendo uma maioria em pelo menos uma das casas do Congresso, já vinham sinalizando quais seriam seus principais alvos de investigação: as políticas do governo Trump, a conduta de seus funcionários e as interações entre autoridades governamentais e empresas privadas que tentaram exercer influência sobre a Casa Branca.
Entre suas prioridades estão os negócios da família Trump, a forma como o governo lidou com a investigação de Jeffrey Epstein e alegações mais amplas de corrupção corporativa.
Uma maioria democrata terá o controle das comissões, orçamentos e equipes maiores, além do poder de intimação, o que poderia obrigar o governo a ser mais receptivo ao Congresso. Em resposta, a Casa Branca poderia retomar a estratégia do primeiro governo Trump, quando protelou os pedidos do Congresso por documentos e depoimentos e invocou o privilégio executivo sobre certas informações.
O presidente também está se preparando para grandes batalhas legislativas, afirmando ter um "forte poder de veto". Na noite de terça-feira, Trump publicou uma foto de seu característico boné vermelho com a palavra "VETO" bordada.
As opções em minoria
Mas não é o fim do jogo para Trump. Desde retomar a campanha militar contra o Irã até vetar projetos de lei democratas, o mandatário ainda poderia utilizar os poderes que lhe restam para retomar o protagonismo em seus dois últimos anos de mandato.
"Cada vez que Trump se vê encurralado, ele levanta ainda mais a voz e sai para lutar", comentou à AFP Peter Loge, diretor da Escola de Mídia e Assuntos Públicos da Universidade George Washington.
Vetos
Diversos meios de comunicação informaram que seu governo planeja usar ordens executivas para impulsionar políticas migratórias duras, como fez nos primeiros 100 dias de seu segundo mandato.
Trump, a primeira pessoa com uma condenação penal a vencer uma eleição presidencial, disse que enfrentará qualquer investigação dos democratas.
Irã
A política externa é uma das áreas em que um presidente em fim de mandato ainda tem amplos poderes.
Trump poderia retomar os ataques contra o Irã, embora na terça-feira tenha indicado que ainda busca um acordo para pôr fim ao conflito iniciado em fevereiro junto com Israel.
"Caso contrário, simplesmente vou terminar o trabalho", declarou à Fox News.
"Não creio que ele queira que seu legado seja o de um belicista. Ele quer que seu legado seja deixar os Estados Unidos mais fortes", comentou à AFP Ryan Hass, da Brookings Institution.
O mandatário republicano também descartou especulações sobre uma destituição do secretário de Defesa, Pete Hegseth, caso a guerra no Irã continue.
Cessar-fogo na Ucrânia
Trump desejou ser visto como um pacificador e poderia pressionar a Ucrânia a aceitar algum tipo de entendimento com a Rússia. Na próxima semana, estão previstas conversas trilaterais em Abu Dhabi.
Mas sua influência diante de governantes como o chinês Xi Jinping e o russo Vladimir Putin pode ter sido enfraquecida com a derrota eleitoral de terça-feira.
O revés nas urnas ocorre a menos de duas semanas de um possível encontro dos três líderes em uma cúpula em Shenzhen, China.
Monumentos
Donald Trump, um magnata do ramo imobiliário, também poderia se afastar da confrontação para se concentrar em seu tema favorito: deixar um legado físico em Washington.
Em seu discurso final antes da votação, falou pouco sobre política e, em vez disso, concentrou-se na renovação do espelho d'água do Lincoln Memorial e em outros planos para embelezar a capital.
Seu projeto principal é o gigantesco salão de festas, avaliado em 400 milhões de dólares, que está construindo na Casa Branca e espera concluir até o fim de 2028, antes de deixar o cargo.
*Com informações de agências internacionais.
(Com Agência Estado)
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