Uma reportagem do Intercept Brasil, publicada nesta quarta-feira (16), revelou um áudio em que o empresário e cantor gospel Samuel Modesto propõe usar uma organização não governamental para receber uma verba de emenda parlamentar que, segundo ele, não poderia ser destinada diretamente à empresa dele.
A gravação foi feita durante uma reunião em 23 de maio de 2026 e envolve a entidade Jesus Cristo Por Um Mundo Melhor (JCPM), localizada na zona norte de São Paulo. Conforme a reportagem do Intercept, a proposta estaria relacionada a uma emenda da deputada estadual Edna Macedo (Republicanos-SP), irmã de Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus.
Segundo o veículo, a ideia apresentada por Modesto era que a ONG recebesse o dinheiro público e posteriormente contratasse a empresa de eventos gospel do cantor, a SGM. Na gravação, divulgada pelo Intercept, Modesto afirma que a verba seria de valor elevado.
“A verba é muito alta. É muito alta mesmo”, diz o cantor, segundo o áudio publicado pelo veículo.
VALOR PASSARIA DE R$ 2 MILHÕES
Ainda de acordo com a reportagem do Intercept, Edson Lopes Queiroz, que na época era vice-presidente da JCPM, teria defendido que a organização aceitasse a proposta. Em outro áudio, Queiroz afirma que a verba passaria de R$ 2 milhões e menciona a necessidade de uma ONG já em funcionamento para viabilizar o recebimento do recurso.
A reportagem também relata que Modesto discutiu possíveis formas de utilização do dinheiro, citando ações como compra de roupas, atendimento odontológico e realização de shows em comunidades.
O cantor, segundo o Intercept, também mencionou a possibilidade de parte do dinheiro ter de ser devolvida à parlamentar. Ele teria citado, como hipótese, o recebimento de R$ 2 milhões com posterior devolução de R$ 400 mil, mas afirmou não saber se isso aconteceria.
ONG RECUSOU PROPOSTA
A presidente da JCPM, Eliete de Almeida Lima Delmutti Ramos da Silva, recusou a proposta, conforme apurado pelo Intercept. O veículo informou que áudios gravados posteriormente mostram a dirigente mantendo a decisão mesmo diante da defesa feita por Queiroz.
Ainda segundo a reportagem, Queiroz foi posteriormente destituído do cargo de vice-presidente da organização. A JCPM declarou ao Intercept que nenhuma proposta de Samuel Modesto foi aceita pela entidade.
O Intercept também ouviu especialistas em administração pública sobre a proposta registrada nas gravações.
Segundo Caio César de Medeiros Costa, professor da Universidade de Brasília (UnB), uma eventual utilização da ONG para beneficiar terceiros poderia contrariar o princípio da impessoalidade na administração pública.
O professor Marcelo Marchesini, do Insper, também avaliou que utilizar uma organização para ocultar os possíveis beneficiários de uma emenda poderia afrontar as regras aplicáveis aos repasses públicos. As avaliações dos especialistas se referem à proposta registrada nos áudios. A reportagem do Intercept informa que o acordo com a JCPM não foi concretizado.
EMENDAS PARA EVENTOS DA UNIVERSAL
A reportagem também relaciona o episódio a outros repasses de emendas destinados a eventos ligados à Igreja Universal.
Segundo levantamento publicado anteriormente pelo próprio Intercept, Edna Macedo destinou R$ 2,2 milhões em emendas para eventos da igreja. O veículo também informou que, desde 2023, parlamentares teriam destinado pelo menos R$ 16,8 milhões para eventos da Universal.
Os recursos citados na reportagem foram repassados por meio do Instituto Paulo Kobayashi (IPK). O Intercept informou que procurou as demais pessoas mencionadas na reportagem para obter posicionamentos, mas não recebeu respostas. O espaço permanece aberto para manifestações.
*Fonte: Intercept Brasil.
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