Corrida foi a atividade física mais praticada pelos brasileiros em 2025, segundo o Panorama Setorial Fitness. Basta observar as ruas ou ir a um parque para ver o quanto cada vez mais as pessoas estão correndo. As motivações são várias – por saúde, diversão ou competição, o que importa é manter-se em movimento.
Quem corre e participa de provas pode não fazer ideia de quão poderosa tem se tornado a indústria da corrida no Brasil. É um mercado bilionário, que também se movimenta pela venda de inscrições, tênis, fotos e produtos correlacionados. Ainda há os patrocínios de grandes empresas e, cada vez mais, de instituições públicas. E é nessa linha que eu quero chegar.
Corri a centésima edição da São Silvestre, uma apoteose para quem pratica a atividade o ano inteiro e corre para lá no último dia a fim de celebrar. Cinquenta e cinco mil corredores nas ruas e os paulistanos na plateia para acompanhar. Poderia ter sido uma festa para todos, mas não foi. Além das falhas de organização, até compreensíveis, como a quantidade insuficiente de água num dia de forte sol, o que mais me chamou a atenção foram as notícias de falta de camisetas e medalhas para os finalizadores. Não necessariamente a falta, mas o que a pode ter causado: o furto dos produtos.
No mesmo dia do evento, imagens de integrantes do staff vendendo medalhas da prova no metrô ganharam as redes sociais. Em nota, a empresa organizadora falou de suposto extravio ou mesmo desvio de camisetas, confirmou o roubo de medalhas praticado por terceirizados contratados e ainda denunciou fraude de números de peito por “pipocas”, classificados como “invasores de corrida de rua”. Nesse caso, o que ainda consegue me assustar é a nítida percepção de uma corrupção endêmica, aquela que nos está culturalmente impregnada, mesmo no cidadão politicamente ativo que entoa discursos anticorrupção.
Agora em Mato Grosso, decidi não participar da Corrida de Reis deste ano assim que eu soube que a 41ª edição dessa corrida de rua não seria nas ruas de Cuiabá e Várzea Grande. Com as obras inacabáveis nas avenidas da capital mato-grossense, os organizadores decidiram ir contra a tradição e realizar a corrida em um parque igualmente inacabado. Longe do povo, no sol a pino para aparecer na tevê, asfalto irregular, o constante improviso – os corredores que lutem! Reclamação geral nas redes sociais, mas tudo divino, maravilhoso, segundo os sites que vivem de replicar release governamental.
“Este ano, tomamos a decisão de levar para o Parque Novo Mato Grosso até para mostrar esse parque, que é o maior da América Latina, através da transmissão da tevê, para todo o estado”, admitiu um dos realizadores no telejornal matutino. Só não explicou a pressa de mostrar um lugar ainda em construção, em que as imagens desmentiam a propaganda feita de discursos similares aos eleitoreiros. A transparência, aliás, nunca corre junto com eventos que envolvam participação estatal.
Ano passado, eu tive a curiosidade de saber os valores envolvidos na organização de uma corrida cuja inscrição é uma das mais caras no estado mesmo sendo promovida por órgão público e com apoio e patrocínio de diversas instituições. Após reiteradas solicitações via Lei de Acesso à Informação, recebi enfim a resposta de que a prova, embora leve o nome da instituição, é realizada por uma associação de direito privado, não sendo, portanto, submetida às mesmas obrigações legais impostas aos entes estatais.
Nada contra esses eventos, pelo contrário, eles são muito importantes para estimular um estilo de vida pautado em constante cuidado com a saúde física e mental. Resta, porém, sempre aquela dúvida sobre como têm sido usados os recursos públicos, seja por emendas, patrocínio ou apoio institucional. E se as empresas ou associações a quem é destinada a gerência desses recursos realmente pensam naquelas pessoas que, em seu corre diário, sobrevivem pelo próprio suor e ainda levam nos ombros o peso de infindáveis impostos.
(*) EDELSON SANTANA é jornalista em Cuiabá.
Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br
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