Sem uma semente de qualidade a conta da lavoura não fecha. A busca pela redução dos custos de produção é uma realidade no agronegócio brasileiro que tem margens cada vez mais apertadas. Por isso, o produtor rural precisa avaliar cuidadosamente cada investimento e a escolha da semente é uma das mais decisivas e pode comprometer toda a safra antes mesmo da lavoura começar a se desenvolver.
Um levantamento recente da CropLife Brasil revela um cenário preocupante. A área cultivada com sementes de soja não certificadas cresceu 210% em quatro safras, passando de 3,1 milhões de hectares em 2021/22 para 9,6 milhões de hectares em 2025/26. Isso significa que praticamente um em cada cinco hectares de soja no país é cultivado com sementes não certificadas.
Quem vive da agricultura sabe que uma safra começa muito antes de a primeira semente chegar ao solo. São meses de planejamento, decisões e investimentos, sempre acompanhados da expectativa de uma boa colheita. É justamente por isso que a escolha da semente não pode ser tratada como uma simples oportunidade de economizar. Ao apostar em uma semente pirata, o produtor coloca em risco o resultado da lavoura e todo o trabalho que veio antes dela.
Vigor, sanidade e pureza genética fazem diferença no campo, especialmente quando o clima não colabora. São características que ajudam a garantir uma lavoura bem estabelecida, com plantas mais fortes e maior capacidade de enfrentar as adversidades. Em um cenário de chuvas irregulares e janelas de plantio cada vez mais apertadas, escolher sementes de qualidade, com genética adaptada à região, é uma forma de reduzir riscos e proteger a safra.
Há prejuízos que não podem ser recuperados, principalmente quando o atraso compromete a janela ideal de plantio. Quando a lavoura não se desenvolve como deveria, o produtor pode perder também o dinheiro investido em adubo, máquinas e mão de obra. Em situações mais graves, precisa plantar tudo novamente, e ainda correr o risco de perder a melhor época de cultivo. Dependendo das exigências do contrato, o uso de sementes irregulares pode comprometer o acesso ao crédito rural e até a cobertura do seguro agrícola
É justamente nesse ponto que precisamos mudar a forma de avaliar o custo das sementes. O preço de aquisição não pode ser o único critério. A análise deve considerar o custo por hectare efetivamente estabelecido, a segurança do investimento e o potencial de retorno ao final do ciclo. Uma semente mais barata não representa uma lavoura mais econômica.
A agricultura brasileira só chegou onde está porque a ciência caminhou lado a lado com a lida no campo. A semente certificada carrega anos de pesquisa, controle rigoroso e rastreabilidade, o que garante ao produtor que o que vai brotar na terra, sem surpresas amargas pelo caminho.
É compreensível que, diante das dificuldades econômicas, o agricultor procure alternativas para reduzir despesas. No entanto, a competitividade do agronegócio não pode ser construída apenas sobre o menor preço dos insumos. Ela depende, sobretudo, de eficiência e produtividade.
A verdadeira economia está em produzir mais e melhor com os recursos disponíveis. A rentabilidade começa na escolha da semente.
(*) IVAN CARLOS RIEDO é engenheiro agrônomo, doutorando em Ciência e Tecnologia de Sementes, com mais de 15 anos de experiência, atua como Head de Produção de Sementes da Polato Sementes.
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