A história política do Ocidente ensina, com notável insistência, que a proximidade excessiva entre igreja e Estado raramente produz harmonia duradoura. Ao contrário, costuma gerar exclusão, intolerância e o enfraquecimento das liberdades individuais. Em tempos de recrudescimento do discurso religioso na arena política, torna-se urgente refletir sobre os perigos de confundir fé — experiência íntima e espiritual — com o poder estatal, que deve ser público, racional e inclusivo.
O primeiro risco dessa união é a corrosão da neutralidade do Estado. O filósofo John Locke, em sua Carta sobre a Tolerância, já advertia que a função do governo é proteger bens civis — vida, liberdade e propriedade — e não conduzir almas à salvação. Quando o Estado assume uma doutrina religiosa como referência normativa, ele deixa de ser árbitro comum e passa a operar como agente de uma verdade particular. O resultado inevitável é a marginalização de quem crê diferente — ou de quem não crê.
A experiência histórica é eloquente. Do absolutismo europeu legitimado pelo “direito divino dos reis” às teocracias contemporâneas, a fusão entre poder religioso e político produziu perseguições, guerras e silenciamentos. Voltaire, ao denunciar os horrores do fanatismo, sintetizou esse perigo com ironia cortante: quando a religião se torna instrumento do poder, a razão é a primeira vítima. A crença, que deveria consolar, passa a vigiar; a moral, que deveria orientar, converte-se em punição.
Do ponto de vista sociológico, Max Weber ajuda a compreender esse fenômeno ao distinguir a ética da convicção da ética da responsabilidade. A religião, fundada em valores absolutos, opera no plano da convicção. Já o Estado moderno exige responsabilidade: decisões tomadas considerando consequências plurais, em sociedades marcadas pela diversidade. Quando o governante age como líder religioso, substitui a ponderação racional pela fidelidade dogmática, tornando a política refém de certezas inflexíveis.
Há ainda um risco menos evidente, mas igualmente grave: a instrumentalização da própria religião. Hannah Arendt, ao analisar os regimes totalitários, mostrou como ideologias que se apresentam como verdades últimas tendem a capturar símbolos e crenças para legitimar o poder. Quando a fé se associa ao Estado, ela deixa de ser espaço de transcendência e se transforma em ferramenta de dominação. A religião, então, perde sua força ética e espiritual, tornando-se moeda de troca eleitoral ou escudo contra críticas legítimas.
No contexto contemporâneo, esse problema se agrava em sociedades pluralistas. Estados modernos são compostos por múltiplas crenças, identidades e visões de mundo. A união entre igreja e Estado rompe o pacto democrático ao sugerir que alguns cidadãos são mais legítimos do que outros. Jürgen Habermas sustenta que o espaço público deve ser regido por argumentos acessíveis a todos, independentemente da fé. Quando políticas públicas se baseiam em dogmas religiosos, o debate democrático é substituído pela imposição moral.
Unir altar e trono pode parecer, à primeira vista, um retorno a valores sólidos em tempos de incerteza. Mas a história demonstra que essa união cobra um preço alto: a perda da liberdade, o empobrecimento do debate público e a transformação da fé em instrumento político. Um Estado verdadeiramente democrático precisa garantir espaço para todas as crenças — inclusive para a descrença — sem se submeter a nenhuma delas. A fronteira entre igreja e Estado não é um muro contra a fé, mas uma linha de proteção para a liberdade.
É por aí...
(*) GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO é do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso – IHGMT.
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