Comemorado no dia 02 de fevereiro, o Dia de Iemanjá se tornou uma grande festa religiosa no país. A data surgiu por ser o dia em que os pescadores baianos passaram a oferecer presentes para ela atirados ao mar, em busca de fartura.
Iemanjá é a divindade das águas, memória, ventre e travessia. A sua imagem já foi muitas vezes esvaziada pelo folclore turístico. Todavia, ela encarna uma epistemologia feminina de poder, profundamente política, ancestral e insubmissa. Através dela é possível se resgatar o feminino que governa, que protege, que pune e que cria, sem pedir licença.
Iemanjá emerge como símbolo radical: mãe que não se reduz à abnegação, mulher que detém autoridade, senhora das marés, capaz de acolher e de destruir. Simone de Beauvoir lembra que esse “tornar-se mulher” não é universal nem neutro, mas, sim, atravessado por raça, cultura, ancestralidade e espiritualidade.
As Yabás, que são orixás femininos no Candomblé, governam elementos essenciais da existência: águas, ventos, tempestades, fertilidade, justiça. Iemanjá rege o movimento, o parto, o luto, o afeto e a fúria. Há nela uma grande capacidade de sustentar a vida em permanente transformação. Essa concepção dialoga diretamente com o que bell hooks define como feminismo enquanto prática de liberdade, ou seja, uma proposta que não busca apenas inclusão no sistema, mas a reconfiguração das bases que organizam poder, conhecimento e existência.
Ao longo da história brasileira, Iemanjá foi embranquecida, suavizada e romantizada. Transformada em “rainha do mar”, perdeu parte de sua densidade política e cosmológica. Esse processo é análogo ao que ocorre com as mulheres negras no Brasil: seus símbolos são celebrados, mas seus corpos e saberes seguem marginalizados. Lélia Gonzalez já denunciava esse mecanismo ao apontar como a cultura nacional se apropria da herança africana, mas ao mesmo tempo nega humanidade plena aos sujeitos negros.
Sueli Carneiro afirma que o racismo estrutura as relações sociais no Brasil, evidenciando que não há feminismo possível sem o enfrentamento do racismo. Assim, a despolitização não é acidental, integrando um projeto de apagamento das matrizes negras de pensamento e espiritualidade.
A maternidade de Iemanjá rompe com o cárcere moral imposto às mulheres, sendo ela a mãe de muitos orixás, não estando confinada à lógica da maternidade sacrificial. Sua maternidade é potência, autoridade e decisão.
As águas de Iemanjá carregam a memória da diáspora africana, dos corpos lançados ao mar, e das mulheres violentadas pela escravidão colonial. Beatriz Nascimento elucida que há necessidade da busca de pertencimento pela reconstrução da identidade a partir da memória. Iemanjá é, nesse sentido, território simbólico, um quilombo líquido onde a memória ancestral resiste ao esquecimento imposto. Iemanjá, enquanto entidade feminina de poder, desmonta a ideia de que o feminino é, por natureza, subordinado. Ela existe fora da lógica patriarcal que associa poder ao masculino.
Por isso, um feminismo verdadeiramente plural precisa reconhecer que o gênero não é uma categoria neutra, nem universal. Iemanjá ensina que o feminino pode ser autoridade, comando e força. Iemanjá fala pelas águas, pelas mulheres negras, pelas espiritualidades demonizadas, e pelos corpos que recusam o silenciamento.
Reafirmar Iemanjá, em tempos de conservadorismo, controle dos corpos e perseguição às religiões de matriz africana, é um ato de resistência feminista. Não se trata apenas de fé, mas de política. Não se trata apenas de tradição, mas de futuro.
Iemanjá nos lembra que o feminino é profundo. Não é passivo: é movimento. Não é submisso: é soberano. Celebrá-la não é apenas lançar flores ao mar, mas reivindicar um mundo em que o feminino (negro, ancestral e plural) possa existir em sua plenitude.
(*) ROSANA LEITE ANTUNES DE BARROS é defensora pública estadual, mestra em Sociologia pela UFMT, doutoranda em Educação pela UFMT, membra do IHGMT e da Academia Mato-grossense de Direito na Cadeira 29.
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