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Artigos Segunda-feira, 02 de Fevereiro de 2026, 09:36 - A | A

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Segunda-feira, 02 de Fevereiro de 2026, 09h:36 - A | A

JOÃO EDISOM

O político que não governa: vive de inimigos!

JOÃO EDISOM

A política contemporânea assiste ao surgimento de uma nova figura: o político do engajamento. Diferente do estadista clássico ou mesmo do político pragmático, este novo ator não se orienta prioritariamente pela solução de problemas reais da sociedade tais como: pobreza, desigualdade, educação, saúde ou desenvolvimento econômico, mas pela manutenção permanente da atenção, da mobilização emocional e do conflito. Seu capital político não nasce da competência administrativa, mas da capacidade de gerar engajamento, sobretudo nas redes sociais.

O engajamento, nesse contexto, torna-se um fim em si mesmo. A política deixa de ser mediação de interesses e passa a ser espetáculo, como já advertia Guy Debord, onde a realidade é substituída por sua representação emocionalmente mais rentável. O problema concreto perde espaço para a narrativa; a complexidade cede lugar ao slogan; o diálogo é substituído pelo ataque. E o ódio passa ser ferramenta de coesão.

A psicologia social oferece chaves importantes para compreender esse fenômeno. Teorias como a da identidade social (Henri Tajfel) explicam como indivíduos tendem a fortalecer sua identidade ao se reconhecerem como parte de um grupo em oposição a outro. O político do engajamento explora esse mecanismo de forma sistemática: cria um “nós” moralmente superior e um “eles” desumanizado.

O passo seguinte é a desindividualização do adversário. Ele deixa de ser uma pessoa concreta, com direitos e dignidade, e passa a ser um rótulo: “corrupto”, “inimigo da pátria”, “ameaça moral”, “traidor”. Nesse estágio, a mentira deixa de ser um problema ético e passa a ser um recurso funcional. A verdade já não importa; importa apenas sua eficácia emocional.

Como demonstram estudos clássicos de Solomon Asch e Stanley Milgram, indivíduos submetidos a ambientes de forte pressão grupal e autoridade simbólica tendem a agir contra seus próprios valores morais. O político do engajamento raramente executa a violência diretamente, mas alimenta o ódio, legitima a hostilidade e normaliza a agressão simbólica. O eleitor radicalizado passa a agir como extensão emocional do líder. Neste estágio o adversário vira inimigo.

Na tradição filosófica e política, há uma distinção fundamental entre adversário e inimigo. O adversário é aquele que disputa o poder dentro de regras comuns; o inimigo é aquele cuja existência é vista como uma ameaça absoluta.

Carl Schmitt, ao definir a política pela distinção amigo–inimigo, alertava para o risco de uma política que absolutiza essa lógica: quando o outro deixa de ser um concorrente legítimo e passa a ser um mal a ser eliminado, a política se converte em guerra.

Hannah Arendt aprofunda esse alerta ao mostrar que a desumanização do outro é condição essencial para a banalização do mal. Quando o discurso político transforma pessoas em símbolos do mal, qualquer violência contra elas passa a ser moralmente justificável. Adversários são vencidos; inimigos são expulsos, silenciados ou mortos.

Nesse cenário, a ética é substituída pela moral tribal: o que importa não é se algo é verdadeiro ou justo, mas se beneficia o “nosso lado”.

Do ponto de vista das ciências políticas, o político do engajamento representa uma ameaça direta à democracia deliberativa. Autores como Jürgen Habermas defendem que a democracia pressupõe debate racional, reconhecimento do outro e disposição ao compromisso. O político do engajamento opera na direção oposta: ele vive da radicalização contínua, pois o consenso é seu maior inimigo.

Nesse modelo, não há espaço para políticas públicas estruturantes, pois elas exigem tempo, cooperação e avaliação técnica, tudo o que gera pouco engajamento. O conflito permanente mantém a base mobilizada e impede que o eleitor cobre resultados concretos.

O adversário político deixa de ser um concorrente legítimo e passa a ser um alvo. A guerra de reputações, muitas vezes baseada em artimanhas, distorções ou mentiras deliberadas, substitui o debate de ideias. O povo, emocionalmente manipulado, torna-se instrumento: chicote simbólico, tribunal moral e, em casos extremos, executor social.

O político do engajamento não governa para resolver problemas; governa para manter o conflito. Ele não constrói pontes, constrói trincheiras. Seu projeto não é coletivo, é identitário. Não busca o bem comum, mas a fidelidade cega de um grupo mobilizado pelo medo e pelo ódio.

A história demonstra, de forma recorrente, que sociedades que abandonam a distinção entre adversário e inimigo caminham para a violência política, o autoritarismo e a degradação moral. Defender a democracia hoje exige mais do que escolher lados: exige recusar a lógica da desumanização, recuperar o valor da verdade e recolocar a política a serviço da vida em comum e não do engajamento permanente.

Porque quando o ódio vira método, a política deixa de ser instrumento de civilização e passa a ser uma fábrica de ruínas.

(*) JOÃO EDISOM DE SOUZA é Analista político e professor universitário.

 

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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