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Artigos Sábado, 31 de Janeiro de 2026, 07:44 - A | A

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Sábado, 31 de Janeiro de 2026, 07h:44 - A | A

ANDRÉ ALVES

O cão Orelha, a repetição do horror, os filhos que criamos e os monstros que negamos

ANDRÉ ALVES

O grupo de adolescentes que matou o cão Orelha em Santa Catarina não é um caso isolado e não se trata de os jovens serem doentes. Nos últimos 30 anos, desde o caso do indígena morto em Brasília, em 1997, após ter seu corpo queimado por jovens, o que não faltam são exemplos deploráveis de grupos de adolescentes e jovens adultos contra animais e seres humanos.

Se puxarmos na memória, iremos lembrar de outros casos de pessoas em situação de rua queimadas, patrimônios depredados, crianças, negros, indígenas, gays, transexuais, mulheres agredidas, estupradas. Mortas. Não é um caso isolado, não é um sintoma de uma sociedade “doente”, mas sim da reprodução de um modelo de “ser homem” que coloca qualquer minoria abaixo do “homem”.

Os atos desses jovens com valores deturpados servem, para eles, como rituais de pertencimento, de superioridade e de desafio às leis, que às vezes começam com animais, às vezes com rachas de carro que fazem vítimas, às vezes agredindo parentes menores, ou simplesmente se portando e tendo orgulho de se intitular um redpill. E, assim como no caso dos jovens catarinenses, que já tinham tentado afogar outro cão antes, de acordo com a Polícia, seguem para novos desafios.

Há um filme brasileiro emblemático sobre o tema: Cama de Gato. De 2002 e com o Caio Blat no papel principal, três jovens paulistanos, em busca de diversão, estupram e matam uma adolescente que, depois dos crimes, precisam se livrar do corpo. A filósofa estadunidense Judith Butler e o sociólogo Jessé Souza já se debruçaram sobre o tema, mostrando o quanto a masculinidade pode ser perversa, principalmente quando vários homens com uma concepção deturpada sobre o que é ser homem se juntam.

O que não muda é o roteiro: é sempre a sensação de poder, autoridade, de estar acima da Justiça. Seja por serem ricos, seja por serem homens héteros, seja por terem cargos de poder, como acontece com alguns policiais, seja por acharem que simplesmente podem. E isso precisa mudar.

Os adolescentes cometeram crimes ao matar o cachorro. Pais e parentes cometeram crimes ao tentar atrapalhar as investigações. Puni-los é o mínimo que se espera, mas só isso não basta. É preciso extinguir essa visão deturpada de que homens podem tudo contra aqueles que eles julgam inferiores.

É preciso se perguntar que tipo de exemplo os pais (homens) dão aos filhos e qual é a educação apropriada. Pagar escola cara não resolve nada se eles reproduzem modelos machistas (logo, perigosos) onde estão inseridos, seja no núcleo familiar, seja no círculo de amigos (dos pais).

A pergunta crucial a se fazer não é como deixamos esses crimes acontecerem por jovens que deveriam estar fazendo qualquer coisa menos matando, agredindo, estuprando. A pergunta definitiva é: o que eu, enquanto homem, enquanto pai, estou fazendo para que meus filhos e os jovens que me rodeiam não se inspirem nessas ideias erradas e estraguem as vidas deles e de terceiros. 

Talvez o ponto mais difícil, e por isso mesmo o mais urgente, seja admitir que esses jovens não surgem do nada. Eles não são aberrações isoladas, mas produtos de ambientes onde a violência simbólica é normalizada, onde piadas misóginas passam impunes, onde a empatia é ridicularizada, onde a ideia de “ser homem” ainda está associada a dominar, humilhar, vencer a qualquer custo. Não basta punir os atos extremos se continuamos a tolerar, no cotidiano, as pequenas violências que os antecedem. Cada comentário depreciativo, cada silêncio cúmplice, cada risada diante do sofrimento alheio é um tijolo na construção desses monstros que depois fingimos não reconhecer.

(*) ANDRÉ ALVES é jornalista.

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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