Segunda-feira, 02 de Fevereiro de 2026
facebook001.png instagram001.png twitter001.png youtube001.png whatsapp001.png
dolar R$ 5,36
euro R$ 6,23
libra R$ 6,23

00:00:00

image
facebook001.png instagram001.png twitter001.png youtube001.png whatsapp001.png

00:00:00

image
dolar R$ 5,36
euro R$ 6,23
libra R$ 6,23

Artigos Segunda-feira, 02 de Fevereiro de 2026, 08:46 - A | A

facebook instagram twitter youtube whatsapp

Segunda-feira, 02 de Fevereiro de 2026, 08h:46 - A | A

ELISMAR BEZERRA

O amor do velho Antônio Macêdo

ELISMAR BEZERRA

Um rio é pleno de encantos, e tantos são, que enchem as mentes, os pensares e imaginação das gentes que o habitam, às margens, com todas as lindezas tecidas no seu correr aprazado com a Terra, os Céus e o Mar, onde descansa pra depois subir ao Céu. É um ser vivente que nasce dos mistérios que há no fundo da Terra, lá, onde ninguém foi; dali os traz à luz dos dias e luares e olhares, brotando pequenininho, pra não espantar ninguém – então, escorre ajuntando e levando vida, vivificando almas desérticas e olhares secos, pro seu destino sem-fim. Um rio abre risos ao acaso, desinteressadamente, aos que nasceram nos seus domínios e aos que renasceram ao vê-lo, ao conhece-lo. Do alto da ribanceira, o velho Antônio Macedo olhava o barco ganhando as águas do Araguaia, descolando-se devagar do porto, buscando o canal, bem no meio, para navegar na segurança das águas ligeiras e fundas, sem o risco de encalhe e pedras.

O barco partia empurrado por dois motores Archimedes–12, carregado ao limite das suas oito toneladas: “com a água lavando o passeio”, como se dizia. Ia levando gente e mercadorias embarcadas no porto de Aruanã, vindas de Goiânia, para serem negociadas, trocadas, geralmente por peixe seco, couro de jacaré, couro de lontra e, raramente, vendidas por algum dinheiro. Pararia de porto em porto, para descer e embarcar gente e mercadoria, até Belém; de lá, voltaria com outras mercadorias e gente, distribuídas ao longo daquelas margens ermas. Sim, um barco, navega porque é feito para levar gente e suas esperanças a um porto – então, seu destino é voltar ao primeiro porto, e quase sempre volta...

Sem ele, o barco partia – e nunca ocorrera, de ser assim. Os portos dos lugarzinhos desconhecidos do mundo, corrutelas sem vizinhança de cidade, sem importância para além de si e dos poucos que as demandavam, receberiam o barco do velho Antônio Macedo, sem ele; e comentariam essa novidade: ele que tantas e tantas vezes parara naqueles lugares, vendendo e comprando coisas, com seu falar manso e agradável. No cair de noites sem lua e estrelas, quando navegar era muito arriscoso, ele aportava e pernoitava num daqueles lugares: cumprimentava amigos, dava benção e um presentinho a algum afilhado, reluzindo os olhos de satisfação, por rever e ouvir e sentir o jeito sertanejo daquela gente. Lugarzinhos plantados nas margens em eras de muitos anos passados, por homens e mulheres tangidos pelas pauperizes mais desgraçadas, que lhes maltratavam o ser, onde viviam. Aportaram naqueles ermos, porque não havia donos à vista; eram plenos de solidão, sem marcas do interesse proprietário e, ali, foram ficando a vivificar tudo com um labutar bruto, diuturno, conformado na precisão do comer sem refinos e do morar sem a ameaça do desterro de outrora...

Em quase vinte anos, o velho Antônio Macedo navegou rio-abaixo e rio-a-cima, parando em cada lugar, de modo a marcar o calendário com seu passar duas vezes ao ano: no tempo da seca e das cheias; assim, foi se fazendo parte das paisagens ribeirinhas, e quase lenda, nas histórias que se contava, acontecidas e inventadas, sobre seu navegar sem fim. Como no Porto da Pedra Furada: lugarzinho de umas duas dúzias de casas, feitas em taipa e adobe, cobertas de piaçava: viviam ali, os filhos dos filhos dos filhos dos que chegaram primeiro. Tinham já, um jeito próprio de viver, urdido sob sol e chuva e benzimentos, em dias e noites de trabalho, cumpridos sem desejos e tentações além da saúde para a produção do comer e do agasalhar-se com as roupas, a casa e a fé. De cidade, sabiam o que Seu Macedo, ou algum outro barqueiro, noticiava; embora Benvindo Neto, às bocas das noites do verão (que era quando não chovia e o céu ficava limpo de nuvens, e as estrelas pareciam mais perto das águas e das praias), ligava um velho rádio Semp que, entre uma e outra canção, dava-lhes notícias de revoltas, furdunço de estudante com polícias e voz grave de militar virado presidente, dizendo ameaças – mas, isso, no curto tempo em que as pilhas Rayovac aguentavam fazê-lo funcionar.

Do que ouviam: cidade era perigo e desassossego sem fim. Além daquelas ribanceiras, a baixo e a cima, tudo o mais era distâncias, de nem se imaginar ir e chegar; de modo que, ali, era-lhes o centro do mundo, e era bom...O velho olhava com olhar de saudades, o barco que ia se diminuindo nas distâncias de águas e margens; olhava devagar, como os velhos olhares aprenderam e sabem olhar, vendo-o desaparecer das vistas já cansadas, gastadas nos anos das décadas de viver-ribeirinho: no vasculhar apurado da terra cascalhosa dos garimpos e, depois, quando não precisava mais de mais ganhos e se deu ao seu gozo de singrar, a baixo e a cima, o rio que amava, a lhe substanciar o ser. Era um olhar de acariciamento, um agradecer ao rio e ao barco, que se distanciavam dele sem adeus compassivo, nem pesar: seguiam sua natureza de navegarem ao mar e aos portos; ele, não: olhava como quem se despede, porque o tempo lhe pesava no corpo como pedra-poita, a ancorá-lo ali, no porto da sua velha Aruanã – onde o Araguaia e o Vermelho se encontram e seguem indivisos...

Tudo o que vivera, jazia nas coisas que fizera e lhe fizeram rico; agora, entregues ao único filho, vivendo na capital, com os negócios. Das vistas que viam longe e bem, discernido coisas e dinheiro e gente e olhares e gestos negociais, pouco restava: ficaram nas coisas e dinheiro e gente e negócios feitos no desespero para tudo ter, aos montes e maços e, então, ser. Foi quando, ainda não sabia, que, navegando, é que seria. É que o saber só se dá à inteligência, ao custo do viver, corroendo os tempos e vigores da vida-moça: madureza e saberes se confluem na vejez; mas, ao contrário dos rios, que seguem vigorosos num só, nomeados, a velhice não faz brotar esperanças: era aos outros, um homem rico, mas velho, ser findando-se...

Mas, agora, é que Antônio Macedo sentia brotar e crescer em si, compreensões novas sobre o que vivera antes, quando vivia o desespero de pouco saber, sentindo que precisava saber, que tinha que saber; e o que lhe valia isso, sem as forças no corpo para fazê-las realidade? Saber só tem valimento, se realizado, feito. Aí, numa manhã de meados de abril, quando uma bruma preguiçosa cobria as águas do rio, lá embaixo, vista da ribanceira, imaginou dizer o que sabia aos que sabia que não sabiam, embora achassem que tudo sabiam; então, pensou: “Velhice, meu amigo”, disse ao Araguaia, “é um lembrar sem fim, sem consequências para o real da vida, sem valor para os que fazem da pressa seu jeito de ser, reduzindo o viver a dias comerciáveis...”. Era quase um desvario, ele-comerciante, dizer-pensando essas coisas ao rio – que, calando em si o entendimento, seguia com seu ofício de levar, na sua doçura, o sal da terra ao mar...

Doía-lhe, não poder estatuir como alerta pétreo, essa verdade; de pregá-la em todo os portais terrenais: para que vissem e lessem e ouvissem, os que passassem ocupados em gastar suas forças transbordantes, num fazimento sem-fim de coisas – dessabendo, que é vida, o que se emprega no fazer a coisa...

Depois de tudo ter, de jeito a não ter precisão de coisa qualquer, nem necessidade de aquilatar o tempo para algum fazer urgente, o que se pode querer? Onde se aconchegaria a felicidade pela conquista do direito a um gozo que parecia impossível, num sujeito assim, cheio de tudo ter, pleno de satisfação, com todo o necessário disposto nos seus paióis e alforjes, prontos para qualquer desejo, novo ou velho, ainda que estravagante? Como é que se mostram, a alegria e a felicidade, dos que têm riquezas sobejando nos seus fartos domínios? Porque, para as pessoas sem os adornos e brilhos da riqueza, em que transbordam necessidades, precisão e esperanças, e os sonhos se amontoam assemelhados a pesadelos, alegria e felicidade parecem andar encangadas com as muitas tristezas e sofrimentos que as mortificam, dia depois de dia, a lhes turvar mais as noites insones. Onde, então, a alegria e o gozo se fazem mais intensos e belos?

Antônio Macedo já vivera as dores desesperadoras da fome – essa agonia que desvitaliza e faz prostar o ser, que anuvia o olhar e subjuga e reduz o pensar e tudo o mais do viver, ao desespero sem termo de querer comer. Noventa anos, e nunca esqueceu o riso corrosivo da fome, reverberando roncos nas entranhas, espreitando e subjugando qualquer disposiçãozinha do corpo à vontade de comer. Ainda lembrava o seu latejar, feito o riso de uma ferida-aberta, a pulsar incômodos em cada respirar, em todos os cantos da casa beira-chão, em que seu ser, esvaziado de substância, tentava achar sossego. Lembrava da fome totalizando corpo e espírito, num gemer silente, doído, tomando conta de tudo, enfraquecendo, desfalecendo, matando devagar; o olhar se encompridando, sem força pra ver além de si, faminto, sem agilidade nas mãos, sem qualquer ânimo, sequer para levantar a clava de uma vingança justa, contra quem lhe impunha aquela dor – aprendeu de sentir, que a fome mata, antes do corpo tombar, por desvario, o espírito...

A miséria que o despojou, até do necessário à sobrevivência, fê-lo se agigantar maiormente, quando se viu sem pai e mãe aos pouco mais de quatorze anos: ali sentiu destroçar o espírito, ainda em formação inicial; foi quando, em face da grandeza imensurável do mundo, seus desafios e laços, maiores ainda para quem restara só, sozinho, tateou com as mãos quase infantis o limite absoluto do nada ter e ser, em que a vida o assentara – aí, ergueu-se a dizer-se, afrontando o destino e suas perversidades: “Se abaixo disso não posso mais ter-me: eis-me, perseverantemente invencível!” O menino engoliu aquela dor desamparada de alívio, e nunca mais chorou...

Empregou-se em fazendas pra trabalho de menino, até ganhar corpo, regulação e calejamento de homem feito; aí, mergulhou nos garimpos: Baliza, Grotão do Diamante, Pilar de Ouro, Vila Boa, Serra das Esmeraldas, Canta Galo, Tesouro Encantado e Diamantino – nunca dando-se a vícios e folganças: não tinha o que festejar, nem do que se entristecer mais. Era por si, sem ser preocupação nem alegria pra ninguém: era só, sozinho. Abandonou os garimpos quando ganhou o suficiente para se iniciar no comércio de madeira e coisas para erguer, brutamente, casas, sem refinos de rico. Para quem o vira naquele começo, era pequeno, uma pequenez labutada, sem descanso, comparado com as abundâncias dos já estabelecidos; mas, para si, ainda ali, já era imensamente grande, maior que o que sempre fora: alegre era, sem riso de dente à mostra...

Estabelecido, livre das necessidades mais chãs, a sua alegria era o esforçar-se em ser bom, a cada dia vivido, sem alarde de falador enganoso, que se refestela em louvores comprados: ser bom, bondoso, era como pensava agradar, à alegria, a mãe e o pai perdidos na infância; vivia nessa fé, sabendo que bondade não entra e se perpetua no sujeito – senão, pelo cultivo diuturno, pelo que se diz e faz. Cria ser obrigação sua ser assim, desde que engoliu aquele choro e as dores de ter ficado só; aí, tomou tudo como caminho seu a ser caminhado, a ser feito, fazendo-se no que se fez: eis a Graça. Então, nunca mangou da pobreza medonha, nem se deu a ficar perto de quem mangasse; e impôs-se a si, nunca negar prato de comida a quem precisasse, e sem propor serviço como paga...

O mundo dos negócios odeia os dias de descanso: só é dia verdadeiro, quando a vitalidade operária é consumida pelo esforço do trabalho, de modo a ver, no fim do dia, na coisa feita, a sua fortuna multiplicada. É um mundo de vida coisada, coisificada: aí, olhando o rio, Antônio Macedo se sentia inútil. Mais assim, se sentiu, quando quis falar-ensinando humanidades pra escolares, dizer-lhes do que viu brotar, do que compreendeu, nos seus tempos de fome e opulência – aí, um que ensinava habilidades, capacidades e modos comerciais de ser, enfeixando tudo numa profissão atestada por diploma, disse-lhe, com rompante professoral, secamente: “Pro senhor, que tudo tem, é fácil falar de poesias: aqui, eles têm é que aprender como ganhar o pão!”. O chão amparou seu olhar desprestigiado, despediu-se se desculpando, e foi pra casa remoído pela recusa raivosa, esvaziado do que achava que ainda podia ser, quando foi se oferecer...

Em casa, na sala cheia de lembranças e solidão de viúvo, ouvindo-se no próprio silêncio, alquebrado, chorou sua desnecessidade ao mundo – atirada nas faces...

Tempos depois, era manhã de junho, bateram-lhe à porta: um pequeno grupo de estudantes foi lhe ofertar a honraria de ser padrinho da turma de formandos. Louvou-os pelos estudos, depois lhes perguntou mansamente: “Vocês precisam de ajuda para essa festa bonita, não é?”. Os escolares, com afoiteza, assentiram prontamente: “Então, seu Antônio, o padrinho contribui com uma parte das despesas...”; e falaram sobre os custos da formatura, do baile, de culto e Missa. Ele guardou silêncio de segundos, olhando-os com olhar generoso: “Eu fiquei muito feliz com o convite, de modo que pagarei as despesas da formatura, nos valores que vocês disseram ser, tá bom?”; e antes que suas bocas traduzissem a alegria dos olhares, continuou: “Mas, padrinho da formatura, não posso ser. Digam ao diretor que não mereço essa belíssima honraria, tá bom?”. Levantou-se, despedindo-os com candura.

Da barranca olhou ao Norte, lá na curva do rio: pareceu-lhe despontar um vulto, vindo, como se navegasse contra a corrente, fazendo banzeiro – talvez fosse o barco voltando...

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

Clique aqui e faça parte no nosso grupo para receber as últimas do HiperNoticias.

Clique aqui e faça parte do nosso grupo no Telegram.

Siga-nos no TWITTER ; INSTAGRAM  e FACEBOOK e acompanhe as notícias em primeira mão.

Comente esta notícia

Algo errado nesta matéria ?

Use este espaço apenas para a comunicação de erros