Artigos Quinta-feira, 21 de Julho de 2011, 21:34 - A | A

Quinta-feira, 21 de Julho de 2011, 21h:34 - A | A

O corrupto da vez

Concluído o “Fora Pagot”, logo outro grande corrúpto vai estar na vitrine para a execração dos incorruptíveis de plantão nas redes sociais, blogs e mídia de oposição ao governo. Bom, mas isso faz parte do jogo de aparências e das querelas ideológicas

MANOEL MOTTA

 

Divulgação

 

Não consegui entender o "linchamento" moral e político do diretor do DNIT, Luiz Antonio Pagot. Isto mesmo depois de sua fala no Senado e na Câmara. Depoimento realizado de forma espontânea, pública e no fórum adequado. O que esperavam dele? Um depoimento sensacionalista, leviano, cheio de insinuações à moda da revista Veja, sem provar nada?

Bobagem. Isso não aconteceu nem quando o Congresso promoveu um verdadeiro festim de encenações histriônicas quando alguns parlamentares de oposição ao governo Lula interrogavam os depoentes com um fervor digno de um espetáculo teatral de circo mambembe. Por ironia da história, os que apareceram naquele momento como arautos da moralidade pública permanecem como parlamentares inexpressivos e, segundo reportagem da revista Carta Capital, tentando sofregamente passar para a base do governo Dilma.

Quem analisar sem paixão o seu longo depoimento nas duas casas perceberá que ele se ateve a dois eixos argumentativos: o primeiro é que todas as decisões eram colegiadas, e o segundo era o de que todos os procedimentos eram fiscalizados e acompanhados pelas instituições designadas para esses fins . Com dados objetivos foi sendo mostrado aos congressistas detalhes de como estavam sendo tratados cada um dos problemas apontados. Não lembro de nenhuma contestação relevante ao que foi apresentando por nenhum parlamentar das duas casas. Além do mais, nenhuma pergunta ficou sem resposta. O que interessa agora é saber se os seus argumentos são verdadeiros ou falsos.

Com o fortalecimento da sociedade civil pós ditadura foram sendo criadas, ou fortalecidas, instiuições de regulação e controle que têm o papel de inibir que corporações, empresas ou indivíduos em articulação com os grupos políticos-ideológicos no poder se beneficiem indevidamente da massa de recursos financeiros posto à disposição da sociedade pelo Estado. Recursos que devem servir a implementação de políticas públicas e de investimento e custeio da estrutura do estado. E o caso de órgãos como os Tribunais de Contas, do Ministério Público e das Controladorias. Se não funcionam é o caso de perguntar, como já se fazia no seculo XIX, quem vigia o vigia, quando está em pauta os interesses econômicos em uma sociedade organizada segundo regras inspiradas no liberalismo econômico, social e político.

Quando cursava o ensino medio, lá pelos anos sessenta do seculo XX, estudando a revolução francesa aprendi com a trajetória de Robespierre que essa história da condenação da corrupção de forma emocional pode conduzir a julgamentos que desprezam os fatos, produzindo injustiças e, no limite, o arbítrio do terror. Lembro que por essa época, para ser mais preciso, dezembro de 1968, um dos argumentos para o AI-5 era o combate à corrupção. O que se viu depois foram anos de arbítrio e de corrupção.

Outro dado importante em seu depoimento foi o de que essa autarquia vem sofrendo um acelerado processo de precarização de seus quadros técnicos em contrapartida à ampliação de suas responsabilidades e da grandiosidade das tarefas que lhe estão atribuídas. Ninguém lhe contestou. É bom lembrar que esse processo de precarização dos aparatos estatatais é o resultado de uma visão político-ideológica que considera que investir na profissionalização do funcionalismo contratando quadros técnicos qualificados e com salários compatíveis com sua formação é desperdiçar o dinheiro público, é inchar a máquina do estado.

É evidente que corporações, empresas e indivíduos financiem candidaturas identificadas com seus interesses políticos e econômicos. As chamadas bancadas de interesses, como a ruralista, para falar só de uma das mais conhecidas, tem suas candidaturas e os seus partidos financiados prioritariamente por esse setor da economia. Com a construção civil não é diferente.

É republicano e democrático que corporações, empresas e indivíduos financiem os partidos e as candidaturas que comtemplem seus interesses. A não ser que se mude as regras atuais de finaciamento de campanhas e elas passem a ter financiamento público.Fazer de conta que isso não acontece, ou não existe, é ingenuidade ou hipocrisia.

Não sei qual o propósito ou o alcance da tal “faxina” que a presidenta Dilma afirma que estar realizando no ministério dos Transportes. Tudo bem, mãos à obra, presidenta! Agora, em que lugar ela vai encontrar a legião de anjos, acima do bem e do mal, tecnicamente neutros capazes de tomar decisões justas e desinteressadas sem qualquer viés político ou econômico é que vai ser difícil. Sem novidades.

Tudo bem, concluído o “fora Pagot”, logo, logo outro grande corrupto vai estar na vitrine para a execração dos incorruptíveis de plantão nas redes sociais, blogs e mídia de oposição ao governo. Bom, mas isso faz parte do jogo de aparências e das querelas ideológicas. A questão agora é saber quem será o herdeiro desse espólio que o PR está deixando escapar de sua área de influência política.

O resto é cretinice do jornalismo denuncista da Veja, Folha de SP, Estadão e Globo.

(*) MANOEL MOTTA é professor-doutor da UFMT, colaborador de HiperNotícias e dirigente estadual do PCdoB/MT. E-mail: mfvmotta@gmail.com

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