Se o texto do Christian teve um mérito raro, foi tirar a tecnologia do pedestal sem jogar a tecnologia no lixo. "O algoritmo não vota" não é birra com inovação: é lembrete de realidade. Ferramenta não tem CPF, não encara entrevista ruim, não visita hospital lotado e não explica "de onde vem o dinheiro" quando a promessa cresce mais rápido do que o orçamento.
Acontece que 2026 é aquele tipo de ano em que a política fica grande demais para caber numa tela. E mesmo assim muita gente vai tentar.
Porque desta vez não é só "campanha": é um pacote completo. Governos estaduais, Presidência, assembleias, Câmara e Senado. Ou seja: disputas com escalas diferentes, públicos diferentes, problemas diferentes… e a mesma equipe achando que resolve tudo apertando F5 no dashboard e ajustando prompt.
O que antes era exceção virou regra: ninguém mais pensa estratégia. Todo mundo "roda cenário".
O CANDIDATO-PRODUTO E A EQUIPE SEM MANUAL
Em 2026, o candidato não concorre sozinho. Ele concorre com:
● a própria biografia (e os buracos dela),
● o adversário,
● a inflação emocional do país,
● e a equipe que decidiu terceirizar o raciocínio para a IA.
A equipe, coitada, virou uma espécie de call center sem script próprio. Ela mede, grava, corta, reescreve, testa, publica, responde… mas raramente pensa.
Porque pensar dói. Pensar exige tempo, contexto, dúvida, confronto de ideias e, pior ainda, assumir risco de estar errado. Já o algoritmo entrega resposta rápida, embalada, com métrica anexa e ar de ciência.
E aí nasce o fenômeno mais curioso (e perigoso) desta eleição: o candidato moldado por feedback automatizado.
Ele não é treinado para ter posição. Ele é treinado para ter performance. A equipe roda três versões de discurso, vê qual "engaja mais", ajusta tom, muda ênfase, repete. No fim da semana, o candidato não sabe mais o que pensa, mas sabe exatamente o que "funciona".
Isso não é exatamente novo. Candidato sempre foi adaptável. A diferença é que antes ele se moldava ouvindo a gente, os coordenadores, diretores….. Agora ele se molda lendo painel. E painel não discorda, não contextualiza, não avisa quando o candidato está virando paródia de si mesmo.
A TERCEIRIZAÇÃO DO PENSAMENTO POLÍTICO
Toda campanha moderna tem aquele momento em que alguém na sala diz: "Vamos rodar isso na IA e ver o que sai."
Parece inocente. Parece produtivo. Mas é também o exato segundo em que o pensamento sai pela porta dos fundos.
Porque a IA entrega o que foi pedido, não o que deveria ser pensado. Ela otimiza, mas não questiona. Sugere, mas não confronta. Formata, mas não filtra bobagem.
E o pior: ela deixa todo mundo com a sensação de que "fez o trabalho", quando na verdade só empacotou preguiça em formato editável.
A campanha para governador vira cópia da campanha para prefeito do ano passado, com três palavras trocadas.
A campanha para Senado replica a retórica que "funcionou" em 2022, sem perceber que o contexto mudou.
A campanha para deputado estadual ou federal? Ah, essa roda um modelo de "deputado genérico" e torce para que o eleitor não repare que falta alma, contexto e, principalmente, razão para existir.
Ninguém para e pergunta: "Por que estamos dizendo isso? O que isso resolve? O que muda se ele ganhar?"
Todo mundo só pergunta: "Qual versão testa melhor?"
O VÍCIO DO AJUSTE INFINITO (E A MORTE DA CONVICÇÃO)
A eleição geral de 2026 tem uma característica cruel: é preciso falar para públicos contraditórios ao mesmo tempo. E a tecnologia criou a ilusão de que isso é possível sem custo.
Basta segmentar.
Para o eleitor conservador, o candidato "defende a família".
Para o eleitor progressista, o candidato "luta por direitos".
Para o eleitor de centro, o candidato "é equilibrado".
Para cada nicho, uma versão. Para cada grupo, um tom. Para cada pesquisa, um ajuste.
E no meio disso tudo, o que sobra? Um candidato que não é nada, ou que é tudo, dependendo de quem está olhando. O que, no fundo, dá na mesma.
A equipe chama isso de "estratégia de comunicação diferenciada". O eleitor chama de "esse aí fala uma coisa em cada lugar". E quando o eleitor desconfia, não adianta explicar que foi "ajuste de linguagem". Ele não desconfia da gramática. Ele desconfia da intenção.
E aí está o problema central: a tecnologia permite mentir com eficiência inédita. Não mentira burra, óbvia. Mas mentira sofisticada, segmentada, otimizada.
O candidato não precisa mais escolher o que é. Ele pode ser várias coisas, desde que ninguém compare as versões.
Só que em 2026, com campanhas simultâneas, milhares de candidatos, redes fervendo e eleitor cada vez mais esperto (mesmo quando se finge de distraído)… alguém sempre compara.
A ILUSÃO DA COMPETÊNCIA AUTOMATIZADA
Uma das fantasias favoritas do marketing político moderno é a ideia de que dá para "simular" competência antes de tê-la.
A campanha já nasce parecendo governo: visual sóbrio, equipe técnica encenada, mapas estratégicos, propostas formatadas com gráficos e fontes sérias. É a estética da seriedade sem o compromisso com a substância.
Porque substância é difícil.
Substância exige estudo, articulação, acordo político real, concessão, escolha, renúncia.
Substância não cabe em stories, não gera reação rápida, não performa bem em vídeo de 15 segundos.
Então a campanha faz o mais fácil: ela parece competente. Produz conteúdo com cara de planejamento. Fala em "eixos estruturantes". Promete "governança eficiente". Usa palavras grandes, gráficos coloridos, transições suaves.
E a equipe, imersa na própria produção, começa a acreditar que aquilo é real.
Esquece que governar não é performar. Que Congresso não tem botão de "refazer". Que a primeira crise não aceita "vamos ajustar a narrativa".
CÂMARA, SENADO, ASSEMBLEIAS: A FÁBRICA DE PROMESSAS SEM PROJETO
Se tem um lugar onde a dependência tecnológica faz mais estrago, é nas campanhas para o Legislativo.
Porque deputado e senador, na prática, têm menos poder individual do que a retórica da campanha sugere. Eles dependem de maioria, articulação, negociação, paciência institucional.
Mas dizer isso não vende.
Então a campanha transforma legislador em super-herói. "Vou lutar por você." "Vou levar sua voz." "Vou mudar o Brasil."
Tudo muito bonito. Tudo muito algoritmizado. Mas profundamente vazio.
Porque ninguém explica o que o cargo faz de verdade. Ninguém educa o eleitor sobre o que cabe ao Legislativo, o que cabe ao Executivo, o que depende de emenda, de comissão, de liderança.
A equipe não quer explicar. Explicar é chato. Explicar não viraliza. Explicar exige que o candidato saiba do que está falando , e isso, convenhamos, complica.
Então roda-se o modelo genérico: "Vote em mim, eu vou resolver." A IA sugere três chamadas, testa-se a que gera mais clique, publica. Pronto. Campanha feita.
Só que não foi pensada. Foi gerada.
O MAIOR RISCO DE 2026: A CAMPANHA QUE ESQUECEU POR QUE EXISTE
No meio de tanto painel, tanto teste A/B, tanto ajuste de pixel e tanto "vamos rodar de novo", a campanha corre o risco de esquecer a única pergunta que importa:
"Por que esse candidato deveria ganhar?"
Não "por que ele testa bem". Não "por que o adversário é pior". Não "por que a narrativa está performando".
Por que, de verdade, ele deveria ter poder?
Se a resposta para essa pergunta não existir , ou se ela vier formatada em bullet points e buzzwords ,, então estamos diante de uma campanha que virou engenharia de aparências.
Eficiente, moderna, tecnológica… e completamente oca.
E o pior é que o eleitor percebe. Talvez não no primeiro vídeo. Talvez não na primeira entrevista. Mas na hora de decidir, na solidão da cabine, ele sente. Sente quando falta peso.
Quando falta verdade. Quando falta alguém do outro lado.
A TECNOLOGIA NÃO É VILÃ , MAS A PREGUIÇA É
Deixa claro: o problema não é usar IA. Não é ter dashboard. Não é medir engajamento, testar mensagem, ajustar conteúdo.
O problema é quando isso substitui o trabalho de pensar.
Quando a campanha para de perguntar "por quê?" e só pergunta "quanto?".
Quando o candidato vira produto em prateleira, testado até agradar todo mundo e, por isso mesmo, não representar ninguém.
A tecnologia pode ser aliada poderosa , mas só se vier depois do pensamento, não no lugar dele.
Se a equipe souber o que quer dizer, a IA ajuda a dizer melhor.
Se a equipe souber para quem falar, os dados ajudam a segmentar com inteligência.
Se o candidato souber quem é, a tecnologia amplifica autenticidade.
Mas se ninguém sabe nada… a tecnologia só amplifica o vazio. Com métrica, gráfico, relatório e tudo. Mas vazio do mesmo jeito.
FECHOU?
Em 2026, teremos candidatos a governador, presidente, deputado estadual, deputado federal e senador.
Teremos campanhas gigantes, médias e pequenas.
Teremos tecnologia de ponta, orçamentos robustos, equipes grandes.
E teremos, também, a pergunta mais antiga da política: "Em quem você confia?"
E essa pergunta não se responde com dashboard.
Não se engana com ajuste de prompt.
Não se compra com teste A/B.
Ela se responde com coerência, trajetória, coragem e, principalmente, com a capacidade de olhar para o eleitor e dizer algo que soe verdadeiro , não porque testou bem, mas porque é.
Porque, como o Christian bem disse, o algoritmo não vota.
E agora a gente acrescenta: ele também não pensa por você.
Se a campanha esquecer disso, pode até ganhar a timeline.
Mas na urna, quem decide continua sendo gente.
E gente, por mais distraída que pareça, ainda tem um radar funcionando para detectar quando alguém está vendendo embalagem vazia.
(*) GABRIEL SCARPELLINI é membro fundador da Alcateia Política, é publicitário e especialista em Marketing Político e Comunicação Governamental pelo IDP. Sócio da GAS 360, agência de publicidade, e atua também como consultor em marketing político.
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