Na arquitetura institucional do Estado Democrático de Direito, o Deputado Federal ocupa uma função central: é o elo direto entre a sociedade e o poder legislativo nacional. Ao lado do deputado estadual e do vereador, ele compõe a cadeia de representação política que dá voz às necessidades concretas do povo dentro do sistema republicano. Não se trata de um cargo simbólico, mas de uma função estratégica, dotada de responsabilidades jurídicas, políticas e morais.
Do ponto de vista da Ciência Política, a representação é o fundamento da legitimidade democrática. Como ensina Hanna Pitkin, representar não é apenas “falar em nome de”, mas agir no interesse dos representados, de forma responsiva e responsável. O deputado federal é eleito para legislar, fiscalizar o Executivo, propor políticas públicas e defender os interesses do seu Estado no plano nacional. Seu mandato existe para transformar demandas sociais em ação institucional concreta.
Sob a ótica filosófica, especialmente a partir do pensamento republicano clássico, o representante político deve orientar sua ação pelo bem comum, e não por paixões ideológicas, interesses pessoais ou disputas simbólicas estéreis. Aristóteles já alertava que a degeneração da política ocorre quando o governante deixa de buscar o interesse da pólis e passa a servir facções. O mesmo raciocínio se aplica ao legislador moderno.
Nesse contexto, é legítimo e necessário questionar o desempenho dos deputados federais eleitos por Mato Grosso nas últimas eleições. O Estado enfrenta desafios reais e urgentes: infraestrutura logística precária, gargalos no escoamento da produção, conflitos fundiários, deficiências na saúde pública, educação desigual, problemas ambientais complexos e a necessidade permanente de desenvolvimento regional sustentável. Essas são pautas que exigem atuação firme, técnica e constante no Congresso Nacional.
Entretanto, o que se observa é que parte significativa da representação federal mato-grossense se afastou dessas agendas estruturais. Em vez de concentrar esforços na defesa dos interesses do Estado, muitos parlamentares passaram a dedicar energia quase exclusiva à defesa política dos envolvidos nos atos de vandalismo de 8 de janeiro e a uma campanha permanente de oposição ideológica ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Trata-se de uma inversão de prioridades que compromete a função representativa do mandato.
A crítica aqui não é de natureza partidária, mas institucional. A oposição é elemento legítimo da democracia; o que não é legítimo é transformar o mandato parlamentar em militância permanente, desconectada das necessidades objetivas da população. Max Weber, ao tratar da ética da responsabilidade, alertava que o político maduro deve responder não apenas por suas convicções, mas pelas consequências reais de seus atos. Quando o deputado abandona pautas estruturantes para travar batalhas simbólicas, o prejuízo recai sobre quem o elegeu.
Do ponto de vista prático, essa postura gera perdas concretas para Mato Grosso: menos articulação por recursos federais, menor capacidade de influência em comissões estratégicas, ausência em debates decisivos para o agronegócio, infraestrutura e políticas sociais. O Estado deixa de ser protagonista para se tornar espectador de uma política nacional polarizada, na qual seus representantes optaram pelo conflito ideológico em detrimento da mediação institucional.
A Filosofia Política também nos ensina que a política se degrada quando o representante deixa de reconhecer o outro como adversário e passa a tratá-lo como inimigo. Carl Schmitt descreveu essa lógica como própria de contextos de ruptura, não de normalidade democrática. Quando deputados substituem a racionalidade legislativa pela retórica do confronto, enfraquecem o Parlamento e empobrecem a democracia.
Portanto, é necessário reafirmar: o deputado federal é, junto com o deputado estadual e o vereador, um dos representantes máximos da sociedade, e seu mandato pertence ao povo, não a projetos pessoais ou cruzadas ideológicas. Mato Grosso precisa de parlamentares que compreendam a grandeza do cargo, que saibam dialogar, negociar e legislar com foco no desenvolvimento do Estado e no bem-estar da população.
Resgatar o sentido republicano da representação é mais do que uma exigência ética; é uma urgência política. Sem isso, o custo do abandono continuará sendo pago pela sociedade mato-grossense, estamos em atraso, em oportunidades perdidas e só olhando uma democracia cada vez mais distante dos problemas reais do povo.
(*) JOÃO EDISOM DE SOUZA é Analista político e professor universitário.
Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br
Clique aqui e faça parte no nosso grupo para receber as últimas do HiperNoticias.
Clique aqui e faça parte do nosso grupo no Telegram.
Siga-nos no TWITTER ; INSTAGRAM e FACEBOOK e acompanhe as notícias em primeira mão.






