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Artigos Terça-feira, 03 de Novembro de 2026, 08:16 - A | A

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Terça-feira, 03 de Novembro de 2026, 08h:16 - A | A

ROSANA DE BARROS

Jovelina Pérola Negra

ROSANA LEITE ANTUNES DE BARROS

Dr. Rosana.jpeg

O nome de batismo é Jovelina Farias Belfort. Ela recebeu o apelido carinhoso “Pérola Negra” pelo amigo Dejalmir, seu parceiro e incentivador no samba. Nasceu no dia 21 de julho de 1.944 no Rio de Janeiro, e fez a passagem no mesmo local, no dia 2 de novembro de 1.998.

Se declarava herdeira musical do estilo de Clementina de Jesus. E, como a sua inspiradora, também foi empregada doméstica antes do sucesso. Fez parte da ala das baianas do Império Serrano, a sua escola do coração. Foi chamada por muitos como “mãe do pagode”, com enorme contribuição para a preservação do samba raiz.

Jovelina precisou enfrentar o silêncio antes de conquistar o direito à própria voz, não encontrando de pronto as portas abertas para o merecido reconhecimento. A sua trajetória representa a expressão de uma mulher negra que desafiou, com sua presença e arte, as estruturas sociais que historicamente reservaram às mulheres pobres os espaços da invisibilidade.

Construiu a sua identidade artística nas experiências populares, nas rodas de samba e nas manifestações culturais das comunidades negras. A realidade dela é compartilhada por inúmeras brasileiras que sustentaram famílias e contribuíram para a formação econômica do país sem receber a correspondente valorização social. A sociedade que depende do trabalho das mulheres negras frequentemente lhes nega oportunidades de reconhecimento, autonomia e ascensão.

É certo que não existe libertação feminina integral enquanto a condição racial e a desigualdade econômica continuarem determinando quais mulheres podem sonhar e quais devem limitar suas vidas à sobrevivência. A experiência de Jovelina demonstra que a emancipação não acontece apenas nos espaços acadêmicos, nos parlamentos ou nos movimentos organizados. É visível que também se manifesta na cultura, na música e na coragem cotidiana de mulheres que recusam os destinos socialmente impostos.

A existência pública, como mulher negra, trabalhadora e artista, constituiu uma ruptura com expectativas sociais profundamente enraizadas. Em uma sociedade acostumada a reconhecer a mulher negra sobretudo pela força de trabalho, ela reivindicou, por meio da arte, o direito de ser admirada pelo talento, criatividade e personalidade.

A sua voz grave, vigorosa e inconfundível contrariava os padrões tradicionais de feminilidade que associavam a mulher à delicadeza obrigatória, à submissão e à discrição. Jovelina não suavizou sua presença para conquistar aceitação. Ao contrário, fez de sua singularidade uma marca artística. Sua maneira de cantar, sua postura diante do público e a intensidade de suas interpretações demonstravam que uma mulher não precisa corresponder a modelos previamente estabelecidos para conquistar legitimidade.

O samba, por sua vez, não pode ser compreendido apenas como entretenimento. Trata-se de uma manifestação cultural vinculada à memória, à sociabilidade e à resistência da população negra brasileira. Em seus ritmos e versos encontram-se experiências de sofrimento, solidariedade, alegria e sobrevivência. As mulheres desempenham papel fundamental na preservação dessa tradição, embora muitas vezes tenham permanecido à margem das narrativas oficiais que celebraram predominantemente os protagonistas masculinos.

Jovelina integrou uma geração que contribuiu para ampliar a visibilidade do partido-alto e das expressões populares do samba. Sua participação no projeto musical Raça Brasileira, em 1985, marcou um momento importante de sua projeção artística. O reconhecimento chegou quando ela já havia acumulado experiências de trabalho, maternidade e enfrentamento das dificuldades impostas pela vida. Ela mostrou que o talento não possui idade determinada e que a realização pessoal não deve ficar subordinada aos calendários sociais impostos às mulheres.
Jovelina não pediu licença à história. É dela: “Só se deve olhar para alguém de cima para baixo para ajudá-lo a se levantar.”


(*) ROSANA LEITE ANTUNES DE BARROS é defensora pública estadual, mestra em Sociologia pela UFMT, doutoranda em Educação pela UFMT, membra do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso – IHGMT-, e da Academia Mato-grossense de Direito – AMD - na Cadeira 29.

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