Em 1º de janeiro de 2027, PIS e Cofins deixam de existir e começa a vigorar a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS). Para o produtor rural, que durante anos precisou lidar menos diretamente com a mecânica dos tributos sobre o consumo, a mudança exige uma nova postura: compreender como compra, vende, gera créditos tributários e comprova suas operações. A transformação chega em um ambiente de juros elevados, inflação pressionada e incertezas cambiais. O resultado da safra 2026/27 dependerá não de cada fator isolado, mas da capacidade de administrá-los em conjunto.
A primeira mudança é de lógica, não apenas de nome. A CBS integra um modelo de tributação não cumulativa, no qual o aproveitamento de créditos depende das regras legais e das operações realizadas. Em 28 de outubro, o Tribunal de Contas da União (TCU) calculou em 11,3% a alíquota de referência do tributo, a ser fixada pelo Senado Federal. Para operações com produtos agropecuários abrangidos pela redução legal de 60%, a aplicação matemática desse redutor corresponderia a 4,52%. O número, porém, não representa a carga efetiva de cada produtor, que dependerá do enquadramento tributário, da natureza das operações e dos créditos aplicáveis. Por isso, simulações individualizadas são mais úteis do que a análise de uma alíquota isolada.
Outro ponto exige atenção: diferimento não é sinônimo de isenção. O mecanismo posterga o recolhimento nas hipóteses previstas na legislação, alterando o momento em que o dinheiro sai do caixa. Sua aplicação depende das condições legais e da operação realizada, inclusive do tratamento tributário dos participantes da cadeia. Além disso, produtores rurais que atendam aos critérios legais de receita podem permanecer fora do regime regular de IBS e CBS ou optar por aderir, conforme as regras aplicáveis. Essa decisão precisa considerar a estrutura de custos, os créditos envolvidos e a posição de fornecedores e compradores, com orientação contábil e tributária.
Se a lei define a regra, o contrato define quem paga a conta. A Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato) tem chamado a atenção para os riscos de cláusulas comerciais que podem permitir ao comprador descontar valores relacionados à CBS do preço pago ao produtor, enquanto o aproveitamento do crédito ocorre posteriormente. Quando os prazos não estão alinhados, o produtor pode acabar absorvendo parte do custo financeiro da operação. Não se deve presumir que todos os compradores adotem a mesma prática ou que os créditos sejam recuperados no mesmo prazo. Revisar preços, descontos, vencimentos, documentos fiscais e condições contratuais será parte essencial da gestão.
Essa pressão sobre o caixa se soma ao custo do dinheiro. O Boletim Focus divulgado em 26 de outubro, com base nas expectativas coletadas até 23 de outubro, projetava inflação de 5,19% e Selic de 13,25% ao fim de 2026, além de dólar a R$ 5,05. Para 2027, as medianas apontavam inflação de 4,34%, Selic de 11,75% e dólar a R$ 5,15. São expectativas de mercado, não resultados garantidos nem previsões oficiais do Banco Central.
Esses indicadores não determinam, isoladamente, a rentabilidade da safra. A Selic não corresponde necessariamente à taxa que cada produtor paga, pois o custo efetivo do crédito varia conforme a linha de financiamento, as garantias e o perfil do tomador. O câmbio também atua nos dois sentidos: pode baratear insumos importados e, ao mesmo tempo, reduzir a receita em reais de quem exporta. Já o crescimento de 1,31% projetado para o PIB brasileiro em 2027 aponta para um ambiente de expansão moderada, no qual decisões financeiras mal dimensionadas podem comprometer ainda mais as margens.
Diante desse cenário, a gestão precisa transformar informação em decisão. O primeiro passo é simular o enquadramento tributário com apoio especializado. Depois, revisar contratos de compra e venda, projetar o fluxo de caixa mês a mês e testar diferentes cenários para juros, câmbio, preços e produtividade. Também é necessário reavaliar o calendário de aquisição de insumos e as condições de financiamento, sem concentrar todas as decisões em uma única projeção de mercado.
Tudo isso depende de informação organizada. Notas fiscais, estoques, custos por talhão, contratos, cronograma de dívidas e previsão de recebimentos precisam ser analisados de forma integrada. Dados consistentes permitem comparar alternativas, negociar com fornecedores e instituições financeiras e identificar antecipadamente os períodos de maior pressão sobre o caixa. Em um ambiente de custos elevados e regras tributárias em transformação, essa organização deixa de ser apenas uma tarefa administrativa e passa a integrar a estratégia econômica da propriedade.
Nem todo produtor terá margem para renegociar contratos ou escolher as condições mais vantajosas. Ainda assim, quem chegar a janeiro com contratos revisados, cenários simulados e informações em ordem estará mais preparado para decidir e negociar. A produtividade continuará sendo essencial, mas a safra 2026/27 também colocará à prova a qualidade da gestão rural.
Em 2027, o dado será um insumo tão estratégico quanto qualquer outro.
(*) STÉPHANO BENEVIDES DO CARMO é Empresário, CEO da Classe A Agro e autor da coluna Visão Estratégica do Agro classeaagro.com.br Stéphano Benevides do Carmo • classeaagro.com.br • 2
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