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Artigos Sexta-feira, 09 de Janeiro de 2026, 08:44 - A | A

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Sexta-feira, 09 de Janeiro de 2026, 08h:44 - A | A

BRUNO SOLLER

Jogo cruzado: Centrão sustenta Flávio e ajuda Lula

BRUNO SOLLER

Um dos lances mais icônicos para quem acompanha o futebol é a lendária jogada de Ronaldinho Gaúcho quando olhava para um lado, fazendo com que todo o time adversário se movimentasse para uma direção, mas com o pé trocado ele armava o ataque pelo outro flanco, driblando toda uma defesa e possibilitando que sua equipe chegasse próximo do objetivo que era balançar as redes do oponente. Olha pra um lado, toca pro outro. Nessa cantiga, o dito centrão brasileiro, parece estar se inspirando no craque da seleção e fazendo um balanço parecido. Assegura Flávio Bolsonaro na disputa, mas o objetivo final é premiar Lula.

Por mais que o Brasil ainda esteja atrasado em relação a outras democracias do mundo na arte da profissionalização das campanhas, não há como negar que qualquer candidatura minimamente ensaiada parte de um pressuposto de avaliação de cenários, com aplicação de pesquisas quantitativas, qualitativas, análise de conjuntura, levantamento de dados prévios e a sistematização dessas informações. Nesse sentido, não há como negar, que ao cruzar essas informações prévias, a candidatura de Flávio Bolsonaro é a mais frágil de todas as oposicionistas a Lula.

Flávio tem só um ativo: ser filho de Jair Bolsonaro. Rememorando o que houve na eleição passada, vemos que Jair Bolsonaro teve 43,2% dos votos no primeiro turno, somando pouco mais de 51 milhões de eleitores, crescendo basicamente 7 milhões para o segundo turno, atingindo 58 milhões e a porcentagem de 49,1 do eleitorado. Faltou muito pouco para alcançar a metade mais um necessária para a vitória eleitoral. Todas as pesquisas de opinião são unânimes em mostrar que há um congelamento de votos entre o eleitor lulista de primeiro turno de 2022 e o bolsonarista da mesma volta, no mesmo ano. Esse eleitor não é volátil entre os polos e quando rompem com o apoio buscam ou a nulidade ou alguma terceira candidatura. É ínfima a migração de votos entre lulistas e bolsonaristas.

Para vencer Lula, desse modo, a candidatura oposicionista deve ser capaz de aglutinar o voto bolsonarista e ter maior penetração no eleitor que não escolhe os polos em primeira instancia do que teve Bolsonaro em 2022. Ou seja, é fundamental que essa candidatura não seja menor do que Bolsonaro ou mais restrita do que foi Bolsonaro. Insta que esse nome seja mais amplo e não carregue a pecha única de ser bolsonarista. Flávio, nesse sentido, é a redução direta do bolsonarismo. É menor politicamente do que o pai e tem poucas condições de romper a barreira, para ampliar rumo ao eleitor mais de centro.

Outro dado muito preocupante quantitativo é a rejeição a Flávio Bolsonaro. 62% dos entrevistados da última pesquisa Quaest presidencial dizem que não votariam no filho do ex-presidente. 54% acham que Bolsonaro errou ao escolher Flávio. O resumo dessa situação pode ser visto na bolsa de apostadores oficial das corridas eleitorais, o Polymarket. Nela, Lula nunca teve tanta chance de reeleição, desde que Bolsonaro ungiu Flávio para ser seu sucessor.

A despeito do que pode ser uma estratégia política de Bolsonaro, de manter o nome de sua família em evidência e não deixar seu espólio se esvair ou diluir entre tantos nomes pretensos ao Planalto, a escolha de Flávio do ponto de vista racional para o jogo eleitoral é cientificamente provada como errônea. Os índices quantitativos que o colocam na segunda posição tem um componente direto do que é chamado recall. Ou seja, com o distanciamento do processo, os eleitores se apegam aos nomes mais conhecidos para responder em quem votariam, já que boa parte dos nomes listados ainda não lhes são familiares.

Nesse sentido, carregar o sobrenome Bolsonaro ajuda a qualquer um dos postulantes, nessa fase. Para não restringir a análise somente a um candidato, Ratinho Jr, por exemplo, é também beneficiado por vezes com essa correlação. Houve até mesmo uma época em São Paulo, em que um candidato ao senado, chamado Ciro Moura, para confundir o eleitor nas pesquisas, reduziu seu nome para Ciro, gerando um embaralhamento na cabeça do paulista, que pensava estar escolhendo o presidenciável Ciro Gomes para representar o Estado na Câmara Alta, fazendo com que o postulante performasse acima dos dois dígitos nas principais pesquisas.

Os dados mostram claramente que Tarcísio de Freitas e Ratinho Jr., principalmente, apontam para atributos mais interessantes do que Flávio. São menos conhecidos, com possibilidade maior de construção de imagem, dialogam com a base bolsonarista por serem assumidamente de direita, tem experiencia administrativa por governarem grande estados do país e possuem índices de rejeição muito menores. São candidatos que possivelmente teriam mais condição de atrair o eleitor que não gosta de Lula, mas que votou nele por rejeitar ainda mais Jair Bolsonaro. São os nomes que poderiam romper a bolha.

Com todos esses dados nas mãos, uma movimentação tem chamado a atenção da política brasileira. Quando Flávio Bolsonaro se anunciou o ungido pelo pai, a reação do centrão foi a pior possível. Ciro Nogueira, presidente nacional do PP, ex ministro-chefe da Casa Civil de Bolsonaro foi enfático ao dizer que apesar de Flávio ser seu amigo, política não se fazia com amizade. Antonio Rueda, presidente do União Brasil, foi categórico ao dizer que não será a polarização que construirá o futuro do Brasil. A imprensa noticiou que esses líderes nem mesmo queriam receber Flávio após o improvisado anúncio. Entretanto, tudo tem mudado, numa velocidade rara e estranha.

Em menos de 1 mês desse anúncio, o centrão comprou a candidatura de Flávio. Ciro tem dito que ele é o “Bolsonaro que se vacinou”. Flávio alardeia pelos quatro cantos que a União Progressista, federação formada por PP e União Brasil, é “entusiasta” de sua candidatura. Mas, o que chama mais atenção mesmo é que a ruptura que esse grupo político tinha feito com o governo Lula parece ter dissuadido. Após ameaças, André Fufuca, do PP, segue pleno como ministro dos Esportes. O União Brasil que chegou a expulsar Celso Sabino, fez mágica e além de se livrar do ex-ministro, que não acatou a decisão partidária, reverteu o jogo e indicou seu sucessor Gustavo Feliciano, após o aval de Rueda, que se reuniu com a ministra Gleisi Hoffman para chancelar a escolha.

Um ensaio de ruptura do PP com Tarcísio de Freitas, em São Paulo, talvez seja o ápice dessa estranhice. O partido que até pouco tempo comandava a pasta mais relevante do governo, a segurança pública, com Derrite, que foi alçado candidato ao senado em cerimônia conjunta com o governador, agora diz que pode ter candidatura contra o mandatário paulista. Um sinal claro para que ele se mantenha atento ao seu universo eleitoral e tenha dificuldades em construir qualquer caminho para o Planalto. Uma estratégia de prender aquele que mais ameaça Flávio, mas mais do que isso, o que mais ameaça Lula.

Como no futebol, a política é interessante na quantidade de dribles e lances vistosos feitos pelos seus agentes. Não são poucas as manobras que mudaram rumos de eleição. Candidaturas postas pra não haver comprometimentos, apoios velados e rachas injustificáveis para o público, mas calculados friamente por quem o faz. Na partida de 2026, o centrão está com a camisa 8. É o volante de construção, fazendo o box-to-box para eleger aquele que pode garantir mais poder ao grupo. Apaziguar com Lula pode ser a vitória que ninguém estava enxergando, mas que os mágicos da política, à la Gaúcho, podem estar construindo.

(*) BRUNO SOLLER é Cientista Político - PUCSP, Especialista em pesquisas, estratégia eleitoral e advocacy, e diretor do Instituto de Pesquisas Quaest Big Data.

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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