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Artigos Quarta-feira, 07 de Janeiro de 2026, 14:40 - A | A

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Quarta-feira, 07 de Janeiro de 2026, 14h:40 - A | A

CRISTHIANE FONSECA

Estados Unidos x Venezuela: o espelho do Brasil polarizado

CRISTHIANE ATHAYDE

O primeiro reflexo do Brasil polarizado diante da intervenção dos Estados Unidos na Venezuela não foi geopolítico. Foi tribal. As torcidas que hoje organizam o debate político entre bolsonarismo e esquerda correram para interpretar o que acontecia no país vizinho como extensão da própria guerra doméstica. Para uma parte, a ação americana virou cruzada moral contra um ditador. Para outra, qualquer crítica ao chavismo passou a ser tratada como submissão automática ao imperialismo. É a cegueira típica das torcidas. Não se olha o tabuleiro regional, não se analisa o precedente internacional, apenas se reage a partir do próprio espelho político. Nesse ambiente, o mundo real desaparece.

Esse ambiente polarizado já começa a se converter, de forma explícita, em instrumento eleitoral para as eleições de 2026. A crise venezuelana passa a ser colada ao governo Lula como rótulo político, reativando o discurso de que o presidente seria conivente com ditaduras e que o Brasil estaria a caminho de se tornar uma “nova Venezuela”. Ao mesmo tempo, presidenciáveis de direita e extrema-direita já sinalizam alinhamento elogioso à postura de Trump, exaltando a ação americana como demonstração de força e decisão, sem qualquer problematização sobre soberania.

Feita essa constatação sobre o Brasil, é preciso olhar para os fatos. Não há relativização possível sobre o que representou o regime de Maduro. A Venezuela foi submetida a um governo autoritário, marcado por perseguição política sistemática, repressão, captura das instituições e colapso econômico profundo. A miséria não foi acidente, mas consequência direta de um modelo de poder concentrado em uma elite burocrática enquanto milhões de venezuelanos eram empurrados para fora do país. A rejeição social a Maduro é compreensível.

O ponto crítico surge depois. A captura de Maduro foi justificada pelo discurso do combate ao narcotráfico, mas as falas iniciais de Trump deixaram claro que a democracia não era o eixo da ação. O foco foi material. Controle, influência e acesso ao petróleo venezuelano. Direitos humanos e crime organizado funcionaram como moldura moral, subordinando a soberania venezuelana a interesses estratégicos.

É nesse ponto que o episódio venezuelano dialoga diretamente com o Brasil. O país acabava de recompor, no último ano, uma relação com os Estados Unidos marcada por tarifas, ameaças comerciais e constrangimentos diplomáticos, tensionamentos que, em determinado momento, tiveram como pano de fundo o discurso de defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro e um suposto alinhamento político-ideológico.

E é nesse contexto que o discurso do presidente Lula deve ser lido. Ao condenar a ação, afirmar a violação da soberania e do direito internacional e defender o multilateralismo sem citar nominalmente Trump ou os Estados Unidos, o presidente fez uma escolha deliberada. Optou por criticar o método sem escalar o conflito. Foi pragmatismo, não concessão.

Em um cenário de precedentes perigosos, a contenção foi estratégia, não silêncio. Até porque o risco contemporâneo não se expressa apenas por tanques ou intervenções diretas. Instrumentos silenciosos, porém eficazes, já foram utilizados no passado recente, inclusive contra o Brasil, que passou a incomodar os Estados Unidos por seus movimentos no tabuleiro internacional, pela ampliação do protagonismo no BRICS, pelo debate sobre a redução da centralidade do dólar e pelo peso estratégico de seus minérios.

O posicionamento do presidente, tido como blasé, não agradou as duas principais torcidas do tabuleiro político brasileiro. A direita instrumentalizou a fala de Lula para reforçar a caricatura de que ele seria conivente com regimes autoritários, enquanto a esquerda reagiu com frustração por esperar um confronto mais direto com Trump.

A Venezuela, vista do Brasil, revela menos sobre Caracas e mais sobre nossas próprias limitações. Expõe como a polarização interna converte a geopolítica em torcida, transforma métodos de força em aplauso ou rejeição automática e bloqueia a compreensão do que está em jogo. Ao naturalizar a violação de regras em nome de discursos morais convenientes, legitima-se um precedente que ultrapassa governos e ideologias. Quando isso ocorre, o problema deixa de ser um governante específico e passa a ser o próprio funcionamento do sistema internacional. E esse risco não escolhe lado nem poupa quem hoje acredita estar protegido.

(*) CHRISTIANY FONSECA é Cientista Política e Doutora em Sociologia pela UFSCAR.

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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NAIME MARCIO MARTINS MORAES 08/01/2026

PARABÉNS!!! Mas permita-me algumas considerações: O debate brasileiro em torno da Venezuela revela menos preocupação com o destino do povo venezuelano e mais a incapacidade crônica do país de pensar estrategicamente. Direita e esquerda se digladiam como torcidas organizadas, explorando a crise conforme a conveniência narrativa do momento. Enquanto isso, fatos objetivos permanecem: o presidente Lula jamais escondeu sua simpatia política por Nicolás Maduro, a quem recebeu com honras de chefe de Estado justamente quando grande parte da comunidade internacional denunciava eleições marcadas por ilegitimidade, fraude e supressão da oposição. Some-se a isso o flerte contínuo do governo brasileiro com regimes autoritários — Irã, Rússia e China — cujas consequências já extrapolam a diplomacia e invadem, de forma concreta, os negócios, a logística e a autonomia econômica do Brasil. Mas reduzir o episódio à política doméstica é um erro de miopia histórica. A ação dos Estados Unidos precisa ser observada sob outro prisma: o da disputa real de poder em escala global. E, goste-se ou não, o Brasil está no epicentro desse tabuleiro. Somos a maior potência agrícola do hemisfério sul e um dos pilares da segurança alimentar mundial, exportando volumes recordes de soja, milho, carnes e proteínas que sustentam bilhões de pessoas. Paradoxalmente, essa força convive com uma dependência estratégica alarmante: fertilizantes majoritariamente oriundos da Rússia e da China; portos estratégicos sob influência de investimentos chineses; crédito rural atrelado a bancos de Pequim; cadeias logísticas amarradas por contratos que condicionam preços, rotas e margens. Não é parceria inocente — é dependência estruturada. Nesse contexto, a prisão de Maduro e o reposicionamento da Venezuela sob controle americano não são um ato isolado, tampouco um capricho imperial. São o primeiro movimento explícito de contenção. Um rugido defensivo de uma potência que se recusa a assistir, passivamente, à erosão de sua influência e à consolidação de um sistema global hostil aos seus valores e interesses. Os Estados Unidos entenderam que a batalha central não é apenas militar, mas industrial e tecnológica: repatriação de fábricas, reconstrução da indústria pesada, blindagem da produção de semicondutores, ruptura deliberada das cadeias asiáticas. Não se trata de protecionismo ingênuo, mas de engenharia estratégica para conter um colosso que censura, reprime dissidentes e transforma soberania alheia em ativo descartável. O mundo, afinal, deixou de fingir neutralidade. A divisão voltou a ser explícita. De um lado, países com imprensa livre, instituições previsíveis, alternância de poder e direitos civis minimamente preservados. Do outro, regimes que controlam informação, economia e indivíduos, tratando liberdade como ameaça e não como valor. Os Estados Unidos decidiram agir não por nostalgia de hegemonia, mas porque recuar, neste momento, significa terceirizar o futuro a sistemas que não toleram a liberdade — nem fora, nem dentro de suas fronteiras.

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