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Artigos Sexta-feira, 21 de Agosto de 2026, 09:39 - A | A

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Sexta-feira, 21 de Agosto de 2026, 09h:39 - A | A

ROBERTA HERINGER

Defender mulheres sem ser feminista: afinal, do que uma candidata a deputada em Mato Grosso está falando?

ROBERTA HERINGER

Reprodução

ROBERTA HERINGER

A declaração embora possa parecer, à primeira vista, apenas uma escolha de identidade política, quando uma declaração como essa parte de uma liderança política que ocupa um cargo eletivo e se apresenta como candidata, ela deixa de ser apenas uma opinião pessoal e passa a fazer parte de um discurso político que merece ser analisado com um pouco mais de profundidade.

Antes de qualquer coisa, precisamos lembrar o que é feminismo. Feminismo não é partido político, não pertence automaticamente à esquerda e tampouco existe uma única forma de pensar o feminismo. Há diferentes correntes feministas, com divergências importantes entre si, inclusive sobre economia, Estado, direitos, família, sexualidade e organização social. O ponto que as aproxima é a compreensão de que mulheres historicamente foram colocadas em uma posição de desigualdade e que essa desigualdade não é apenas uma questão individual, mas também social, política, econômica e institucional. É dessa tradição de pensamento e de mobilização que surgiram muitas das pautas que hoje consideramos direitos básicos das mulheres.

Por isso, uma mulher pode não se declarar feminista. O que ela não pode fazer, se pretende participar honestamente desse debate, é fingir que a defesa das mulheres surgiu agora, convenientemente, dentro de um discurso eleitoral. A luta pela participação política feminina, pelo direito ao voto, pela igualdade jurídica, pelo enfrentamento da violência e pela construção de políticas públicas específicas para mulheres tem uma história. E boa parte dessa história foi construída justamente por mulheres que se organizaram e foram chamadas de feministas por fazerem aquilo que hoje parece tão simples: reivindicar que mulheres também deveriam ter voz, direitos e poder de decisão.

Há, portanto, uma ironia difícil de ignorar quando uma mulher que ocupa um cargo eletivo afirma que defenderá as mulheres sem ser feminista. O próprio espaço político que ela ocupa é resultado de uma transformação histórica na condição das mulheres. Durante muito tempo, mulheres sequer eram consideradas plenamente aptas a participar da vida política. O direito ao voto feminino no Brasil foi conquistado em 1932 depois de décadas de mobilização das sufragistas, e a participação das mulheres na política continuou sendo ampliada por uma sucessão de lutas e conquistas. Uma mulher chegar ao poder não é apenas um fato individual; também é parte de uma história coletiva que foi construída antes dela.

Isso não significa, evidentemente, que toda mulher eleita representa automaticamente os interesses das mulheres. A ciência política há muito diferencia presença de representação substantiva. Ter mulheres ocupando cadeiras no Legislativo é uma conquista importante, mas isso não significa que toda mulher eleita necessariamente defenderá políticas capazes de enfrentar as desigualdades que atingem outras mulheres. E talvez seja exatamente aí que a declaração precise ser levada a sério.

Se uma liderança política afirma que vai defender as mulheres sem recorrer ao feminismo como referência, tudo bem. Mas então será preciso olhar para aquilo que vem depois do discurso. Porque defender mulheres significa entrar em uma agenda que já existe e que envolve violência doméstica, feminicídio, violência sexual, autonomia econômica, saúde, maternidade, participação política, proteção social e tantas outras questões que foram historicamente colocadas no debate público justamente pela mobilização das mulheres.

E esse debate ganha uma dimensão ainda mais séria quando estamos falando de Mato Grosso. Não estamos discutindo a condição das mulheres em algum cenário distante ou apenas em uma disputa teórica sobre conceitos políticos. Estamos em um estado que aparece entre os mais violentos do país para as mulheres e que registrou uma das maiores taxas de feminicídio do Brasil. É difícil falar em defesa das mulheres em Mato Grosso sem falar da violência que mata mulheres dentro de suas próprias casas, sem discutir a capacidade do Estado de prevenir esses crimes e sem perguntar quais políticas públicas serão efetivamente defendidas para enfrentar esse problema.

Também estamos falando de um estado em que as mulheres são maioria do eleitorado. E aqui começa a ficar bastante interessante do ponto de vista político.

A mulher não é apenas uma pauta. Ela é eleitora, formadora de opinião, mãe, trabalhadora, consumidora, liderança comunitária e, cada vez mais, uma força decisiva na definição dos resultados eleitorais. O voto feminino é um enorme território político e, justamente por isso, não é surpreendente que diferentes grupos tentem disputar a maneira como as mulheres são representadas no discurso eleitoral.

O problema aparece quando a pauta das mulheres começa a ser tratada como um território de conveniência. Em um momento em que segmentos da extrema direita no Brasil e em outros países chegaram a discutir abertamente a ideia de abandonar ou restringir o voto feminino, enquanto influenciadores desse mesmo campo passaram a questionar a própria participação política das mulheres, torna-se impossível não observar com atenção quando lideranças políticas desse espectro percebem a importância de falar diretamente com elas. Afinal, o eleitorado feminino continua sendo numeroso demais para ser ignorado.

E é aí que a declaração ganha uma camada que vai além do feminismo. Ela fala também sobre estratégia política.

Dizer “vou defender as mulheres, mas não sou feminista” pode ser uma maneira de ocupar o território eleitoral da defesa das mulheres sem assumir uma identidade que determinados segmentos do eleitorado associam à esquerda. Do ponto de vista da comunicação política, é uma escolha perfeitamente compreensível: preservar a pauta, mas tentar retirar dela a marca ideológica que pode produzir rejeição em parte do público.

Só que existe um problema nessa estratégia. Quando se retira o nome, é preciso colocar alguma coisa no lugar.

Se o feminismo é rejeitado como referência, quais são os princípios que vão orientar essa defesa? Quais políticas públicas serão apoiadas? Quais projetos serão priorizados? Como essa liderança pretende enfrentar o feminicídio, a violência doméstica, a desigualdade econômica e a sub-representação feminina? E, principalmente, como suas posições políticas anteriores se relacionam com aquilo que agora está sendo prometido às mulheres?

Porque existe uma diferença considerável entre defender mulheres e defender a ideia de que se defende mulheres. A primeira coisa exige posicionamento, voto, orçamento, política pública e, muitas vezes, disposição para enfrentar grupos que não concordam com essas medidas. A segunda cabe tranquilamente em um discurso de campanha.

E talvez esse seja o ponto mais importante dessa história: o problema não está em uma mulher dizer que não é feminista. O problema começa quando a rejeição ao feminismo é utilizada para reivindicar a defesa das mulheres sem que exista a mesma disposição para defender as políticas públicas que historicamente foram construídas para enfrentar os problemas concretos que atingem essas mulheres.

No fim, a questão não deveria ser qual etiqueta uma candidata escolhe para si. Deveria ser o que ela fará com o poder que pretende receber. Porque uma coisa é certa: chegar a um cargo eletivo como mulher é uma conquista que tem uma história. Usar essa conquista para disputar o voto das mulheres também faz parte da política. O que precisa ficar claro para o eleitorado é o que vem depois da eleição.

Especialmente em um estado onde tantas mulheres ainda estão morrendo vítimas de violência, talvez seja razoável pedir um pouco mais do que uma declaração de que elas serão defendidas.

É pedir coerência entre discurso, trajetória, voto e política pública.

E isso, convenhamos, não deveria ser uma exigência particularmente radical.

(*) ROBERTA HERINGER é estrategista digital para perfis políticos e criadora do @estrategiapoliticadig.

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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