Por onde o sol se deita sobre as águas barrentas do Pantanal, há uma árvore que floresce fora de tempo. É o Louro, e suas flores brancas não sabem que deveriam esperar a estação certa. Elas abrem porque algo lhes foi prometido, e essa promessa tem nome.
Há pessoas que nascem com a vocação da flor. Não a vocação de serem vistas, mas a de alimentar. Ela foi assim. Uma das abelhas rainhas nativas do Pantanal. Não uma rainha de colmeias importadas, de favos de cera europeia, mas daquelas que pertencem à essa terra desde antes dessa terra ter nome. Sem ferrão, sem agressão, sem pressa. Apenas a obstinação de quem sabe que o trabalho verdadeiro não aparece nos espelhos. Aparece no mel que fica.
Ela conhecia o Pantanal como a abelha conhece a flor, não por descrição, mas por instinto e por ciência. Sabia que cada vazante carregava uma gramática própria, que o rio escrevia e apagava capítulos inteiros de lama e sementes. Conhecia o código dos brejos, a sintaxe das garças, o chamado do Arancuã. Não era uma observadora. Era tradutora. Traduzia o que a natureza dizia para uma linguagem que os homens pudessem, enfim, ouvir.
Naquela hora dourada do entre, em que o sol ainda não partiu e já não está ali, exatamente ali, estará Carolina.
E foi nessa tradução que ela viveu. E foi nessa tradução que se despediu.
O Pé de Louro
Há um pé de louro, à margem de uma baía que enche e esvazia com a memória do rio, que floresce como se estivesse chamando. Suas flores miúdas, de um branco quase translúcido, abrem-se ao fim da tarde, justamente quando a luz perde a dureza do meio-dia e adquire aquele tom de ouro velho, de coisa sagrada. É a hora em que o Pantanal respira fundo.
Nessa hora, as abelhas vêm.
Não se ouve um zumbido estridente. Não se ouve alvoroço. O que se ouve é quase um murmúrio, um canto grave e coletivo, como se a colmeia inteira houvesse combinado de chegar em silêncio. Pousam nas flores do louro com a delicadeza de quem sabe que a flor é mais frágil do que o desejo de a colher. Retiram o néctar sem ferir a pétala. Saem sem deixar marca. E levam consigo algo que se transformará, na escuridão do favo, no segredo da cera, em uma doçura que não pertence a quem a faz, mas a quem a recebe.
Era assim que ela trabalhava. Colhia sem destruir. Traduzia sem distorcer. Saía sem deixar marca. Mas o mel ficava.
Quantos pesquisadores, quantos estudantes, quantos ribeirinhos, pescadores e crianças provaram daquele mel sem saber que era dela? Quantos olharam para o Pantanal com outros olhos porque uma palavra sua, uma aula, um mapa, um relatório, um gesto de teimosia científica lhes haviam aberto uma porta? O mel não carrega o nome da abelha. Mas a doçura permanece.
A Japuíra
Há um pássaro no Pantanal que os cientistas também chamam de Japuíra. Olho claro e asas longas, de voo baixo sobre a água, e tem uma mansidão que parece deliberada. Não foge com medo. Observa com cuidado. Aproxima-se. Tem olhos que encantam e parecem perguntar - e não acusar. É dócil sem ser ingênua. Inteligente sem ser arrogante.
Ela era assim.
Tinha a inteligência de quem estuda por décadas. Ciência moldada nos dados, nas coletas de campo, nas amostras rotuladas com letra miúda, nos mapas traçados à mão antes do satélite existir. Mas tinha também aquela doçura da Japuíra. A disposição de pousar perto, de olhar nos olhos, de ensinar sem cobrar a humilhação de quem não sabe.
A Japuíra voa baixo porque quer ver o rio de perto. Não quer a visão panorâmica do avião. Quer a visão da superfície. A dobra da água, o peixe que pulou, a sombra do jacaré que respirou. Esse era o método dela: aproximar-se. Ver de perto. Tocar a água com a ponta da asa.
O Pantanal não a perdeu. O Pantanal a absorveu. E agora ela é água, é flor, é favo, é rio, é Japuíra. É doçura que permanece.
E foi nessa aproximação que ela viu o que muitos não viram. E foi assim que ela nos deixou ver também.
Os Encantos
O Pantanal não é bonito da forma que as paisagens são bonitas em cartões postais. Não é bonito por ser simétrico ou por ser gentil. É bonito por ser excessivo, contraditório, resiliente. A água cobre tudo e depois vai embora, e o que fica é um chão rachado que guarda sementes vivas. O sol castiga, e a noite responde com uma quantidade de estrelas que faz qualquer um duvidar da própria importância. Os bichos não se escondem. Aparecem, atravessam, dormem no meio da estrada, como se soubessem que ali é o lugar deles.
Ela conhecia esses encantos não como turista, mas como nativa do espírito. Sabia que o Pantanal castiga quem o ama, com ferrão de mutuca, com enchente, com isolamento, com a solidão do campo de pesquisa a centenas de quilômetros do conforto. Mas sabia também que o Pantanal recompensa com o canto da curicaca ao crepúsculo, com a cobra que atravessa a trilha como um fio de água, com o cheiro do barro molhado que é o cheiro mais antigo do mundo.
Ela conhecia o Pantanal inteiro. E o Pantanal a conhecia de volta.
A Despedida
Há uma hora, no Pantanal, em que o sol não está mais no céu e ainda não está debaixo da terra. Está no meio do caminho. Nessa hora, a luz fica horizontal e dourada e tudo — árvore, água, ave, homem — ganha uma sombra longa que toca o horizonte. É a hora do entre. Nem dia, nem noite. Nem aqui, nem lá.
Foi nessa hora que nos despedimos dela.
A despedida de quem viveu pelo todo não é uma despedida, é uma travessia. É a abelha que entra no favo pela última vez não para dormir, mas para selar o que deixou. É a flor do louro que fecha suas pétalas não porque morreu, mas porque entregou o que tinha. É a Japuíra que voa para o alto do rio - não baixa desta vez - e some na linha dourada do horizonte, como se o céu a houvesse reconhecido e chamado pelo nome.
A emoção de perdê-la não é apenas tristeza. É gratidão com dor. É saber que o mel que ela fez vai continuar doce depois que a colmeia se recolher. É olhar para um pé de louro florido ao entardecer e entender que aquilo não é uma coincidência botânica, é uma homenagem que a própria natureza presta a quem a amou sem reservas.
Ela não deixa um vazio. Deixa uma doçura. E onde houver alguém olhando para o Pantanal com olhos de ciência e coração de pantaneiro, ali estará ela. Na flor que abre fora de tempo. Na abelha que pousa sem ferir. No pássaro que se aproxima com mansidão. No mel que não tem nome, mas que todos provam.
Naquela hora dourada do entre, em que o sol ainda não partiu e já não está ali, exatamente ali, estará Carolina.
O Pantanal não a perdeu. O Pantanal a absorveu. E agora ela é água, é flor, é favo, é rio, é Japuíra. É doçura que permanece.
Esta não é uma história sobre despedida. Nem sobre abelha. Nem sobre mel. Quando a gente mexe no coração e nas memórias da natureza, descobrimos coisa mais doce que o mel. Mas isso é uma outra história. Ou talvez seja a mesma, só cantada por um outro pássaro.
(*) ROBERTO RIBEIRO é Pantaneiro, Biólogo, Pesquisador. Metido a poeta, porque o Pantanal não dá margem para ser só racional. Buscador dos encantos e mistérios da natureza - ofício não reconhecido - mas francamente necessário.
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