Artigos Segunda-feira, 03 de Outubro de 2011, 16:01 - A | A

Segunda-feira, 03 de Outubro de 2011, 16h:01 - A | A

As vaias do bem!

As vaias do povo a Eder de Moraes foram um recado a Silval, de que o povo ainda o respeita, mas não tolera mais seu assessor. Extinguir a Agecopa foi correto, mas manter Eder na Secopa pode ser entendido como uma tapeação. E não se tapeia a massa agitada

KLEBER LIMA

 

Mayke Toscano

 

Devagarinho, de crise em crise, a realidade vai se mostrando com as cores da vida real, sem lentes de aumento, sem turbidez, sem refração. Só a matéria exposta. Nada de cenário, decoração ou adereços. Dizem que é na solidão que o homem se reconhece, se reencontra consigo próprio, deixa cair as máscaras que o convívio com outros homens em sociedade o obriga a vestir na maioria do tempo.

Silval Barbosa teve seu momento de solidão no último domingo. Embora rodeado de gente, foi no meio da multidão que se viu na máxima solidão que o poder pode provocar. Ali, diante de dezenas de milhares de pessoas atomizadas, sem face, percebeu que estava só.

Quando as vaias inundaram o ambiente do Ginásio Aecim Tocantins não havia a quem recorrer, onde se esconder, nada a fazer, exceto enxergar a matéria exposta, sem versões, sem explicações ou justificativas arranjadas. Foi como estar só diante do espelho, nu, numa sala escura, com um único holofote sobre si, mostrando-o inteiro aos olhos invisíveis da massa. Não havia como esconder defeitos, escolher o ângulo bom para mostrar. Foi visto inteiramente, na sua fraqueza de ser humano, na sua limitação e impotência de gente, que nem cargo nem título protegem.

A vaia da massa provoca sensações estranhas. O coração dispara. A adrenalina corre pelas veias em velocidade alucinante. Um frio cortante desce pela espinha. Forma-se uma bola na garganta seca, recheada por algo entre a angústia e a raiva. Os olhos marejam. As mãos suam. As pernas bambeiam. A vontade instintiva é cavar um buraco e desaparecer. Por átimos de segundos nos deslocamos da realidade, como se levitássemos numa órbita própria, extra-terrena, em meio a formas imperfeitas e estranhas. Tudo escurece em puro torpor. Os tímpanos zunem como se tivessem disparado 100 salvas de canhão a nossa volta. Tudo parece passar em slow motion, como se a própria vida se desenvolvesse em câmara lenta.

“Assim se sesse”, como se diz em bom cuiabanês. No átimo de segundo seguinte, porém, um clarão de realidade se abre à nossa frente, e o barulho da vaia é ensurdecedor. Impressiona como a voz humana, somada a outras milhares de vozes humanas, atingem tantos decibéis, superando qualquer invenção tecnológica. E dessa barulhenta realidade não há como escapar.

As vaias ouvidas por Silval não se direcionavam a ele, é verdade. A rigor, Silval nem precisaria tê-las ouvido, o que é ainda mais aterrador. Mas, os apupos o atingiram em cheio. E que bom que aconteceram antes que fosse ele o alvo direto. Num certo sentido, embora não fosse para ele, surgiram por causa dele, afinal, o vaiado era seu escolhido. E é aí que reside o mistério do poder: os reflexos positivos e negativos das ações do Governo, ainda que desencadeadas pelo mais humilde servidor, recairão sobre o governador, de uma maneira ou de outra, porque é nele que está o centro de gravidade, foi ele quem se expôs na busca de votos, é ele o responsável, o comandante.

O poder é o ambiente mais solitário que um ser humano habitará. Quem o detém normalmente se cerca de pessoas mais preocupadas em agradá-lo e “protegê-lo” que orientá-lo. Desde sempre se sabe que o rei decepa a cabeça dos mensageiros de más notícias. Mas, sem elas (as más notícias), viverá sempre num conto de fadas, até que um fenômeno das ruas o tire do sono profundo, da letargia, da ilusão, porquanto, depois que já não pode fazer mais nada para impedir o naufrágio do navio.

Disse aqui deste espaço há menos de um mês, a propósito da crise entre Executivo e Legislativo, que aquele embaraço tinha sido muito bom para Silval Barbosa, porque ele havia conseguido determinar o tamanho e a importância de um aliado estratégico, o que emitiu sinais muito positivos para “fora do Governo” no que dizia respeito à sua autoridade. Mas, dizia também que faltava uma ação semelhante àquela para “dentro do Governo”, a fim de que todos soubessem, vez por todas, que o centro de gravidade do poder estava no gabinete do governador, e não em qualquer outro lugar.

As vaias de domingo, no entanto, conseguiram mostrar ao Silval o que meus artigos – e os de tantos outros autores – não conseguiram: que o poder deve ser exercido por quem o conquista, que não cabe delegação nesse exercício, e que quem negligencia essa regra de ouro costuma fracassar.

As vaias de domingo, portanto, foram alvissareiras porque representaram o povo, na sua espontaneidade e sabedoria, dialogando com o governador, pessoalmente, sem intermediários, e dizendo-lhe que estava cansado da fanfarronice e histrionismo de Eder Moraes – um peru fantasiado de pavão no galinheiro.

As vaias de domingo não devem ser tomadas por Silval como uma afronta pessoal, mas como um alerta. O povo se manifestou na sua presença com a intenção mais provável de dizer-lhe claramente que ainda o respeita como governador, mas não engole mais Eder Moraes.

Logo, o risco de Silval, caso insista com Eder, é ser tragado para o centro do desgaste, onde ainda não está. Creio que agiu corretamente ao decidir extinguir a Agecopa e pôr em seu lugar a Secopa. Mas, deixar Eder na condução da nova secretaria, com ele agindo da mesma forma de antes, terá sido inócuo. E, pior, pode ser recebido pelo povo como uma forma de tentar tapeá-lo. Não se tapeia a massa agitada. Se essa impressão pegar, as próximas vaias poderão ser ainda mais ressonantes e atingir mais gente.

Creio que seja este o melhor ambiente e oportunidade para Silval recolocar o tabuleiro do xadrez político de seu governo – que estava de pontacabeça – na posição correta, passando a jogar como Rei e não mais como peão. O governador precisa ser defendido, e não gastar seu tempo defendendo assessor!

(*) KLEBER LIMA é jornalista, consultor de marketing e diretor geral de HiperNotícias. E-mail: kleber@hipernoticias.com.br.

(**) Publicado orginalmente em 30.09.2011

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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lieda 04/10/2011

Perfeito artigo, linguagem envolvente, com clareza e realidade. Parabéns Kleber

Honéia Vaz 04/10/2011

Construção de texto realmente muito boa, Kleber. Bom, nisso você nunca foi ruim, mas ótimo. No assunto, só acho que ninguém, nem mesmo um governador, ou devo dizer especialmente o governador, deixaria alguém como Éder (nada popular e aqui não estou dizendo nada contra sua competência, por que ainda precisa ser mostrada na Secopa), num cargo tão estratégico, se a questão não fosse o próprio pescoço ou endosso acordado. O mesmo para Blairo Maggi. Assim também não haveria por que manter alguém que nada mostrou na Agecopa, como Brito, se não fosse pelo próprio pescoço e endosso necessário. De maneira geral, o que está cansando é esta tradicional forma de compor secretariado e etc: totalmente partidária (mesmo que por acordo com coligados) e nada voltada para a população, nada técnica e totalmente política, chegando ao ponto de nós termos que arcar até com acordos que não concordamos. E daí que o Maggi fez acordo para fulano e ciclano continuar por este e aquele motivo. Se não é competente temos que engolir? E daí que o governandor fez e e aquele acordo, agora vamos ter que arcar com as besteiradas dos escolhidos por que há promessas? Você não acha, Kleber? A coisa chegou ao ponto, independente do nome, de pagarmos com nossos impostos a pessoas que não se voltam para nós. E o governador não é um rei defendendo seu peão, mas a si próprio da forma como puder, mesmo que for ele mesmo como o peão, destituindo-se da realeza em muitos momentos óbvios. Olha é, realmente, bem revoltante tudo isso, porque é uma prática no Brasil, e o Silval não é nem o modelo mor.

Vinicius Bello 03/10/2011

Excelente artigo, caro amigo! Os assessores e apêndices de plantão do Paiaguás deveriam ser resolutivos e não problemáticos... Kléber, você consegue se superar a cada texto elaborado... a cada "obra textual criada"... Parabéns!

Paulo Ronan Ferraz Santos 02/10/2011

Kleber: o conteudo até me interessa,mas nao sou conhecedor do caso....mas o texto enche de orgulho o jornalismo de mato grosso..fantastico...linguagem moderna,sedutora,insinuante e devastadora

josé roberto 01/10/2011

Prezado Kleber, se seu artigo tivese só dois parágrafos, já traduziriam tudo que as vaias dizeram: 1)- o peru fantasiado de pavão no galinheiro; 2)e o Governador Silval tem que jogar de REI nesse tabuleiro gigante!

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