"Mais limpo e moderno, com referências ao original e à simplicidade e ao cuidado artesanal que sempre definiram o Instagram."
Essa foi a explicação de Adam Mosseri, diretor do Instagram, para o novo desenho do logotipo da rede social. E eu, que particularmente não sou muito fã de mudanças em desenhos de logotipo, dessa vez achei que o Instagram acertou em cheio.
Não apenas pelo resultado visual. O que me chamou atenção foi o conceito por trás da mudança e, principalmente, o momento em que ela acontece.
Porque quando uma marca como o Instagram fala em simplicidade, originalidade e cuidado artesanal, eu acho muito difícil olhar para isso apenas como uma decisão de design. Existe uma leitura possível sobre o que está acontecendo dentro da própria plataforma e sobre o tipo de comportamento que ela precisa estimular para continuar sendo interessante para as pessoas.
Nos últimos anos, a produção de conteúdo mudou completamente. Hoje temos ferramentas capazes de produzir, em poucos segundos, textos, imagens, vídeos, roteiros, ilustrações e praticamente qualquer outra coisa que antes exigia tempo, repertório, técnica e trabalho humano.
E isso é extraordinário.
O problema nunca foi a ferramenta. O problema começa quando a ferramenta passa a produzir conteúdo para ninguém, sobre coisa nenhuma, com a mesma aparência de milhares de outros conteúdos que já estão circulando. Não precisa ser especialista em redes sociais para perceber o quanto isso saturou rapidamente. Você abre o Instagram e encontra uma quantidade enorme de conteúdos que parecem ter sido produzidos seguindo as mesmas referências, as mesmas estruturas, os mesmos raciocínios e até as mesmas maneiras de falar. Em muitos casos, você olha para aquilo e não consegue identificar quem está por trás. Poderia ser uma marca, outra marca, uma pessoa ou qualquer outra pessoa.
É como se a internet tivesse ficado muito mais eficiente em produzir conteúdo e, ao mesmo tempo, menos eficiente em produzir identificação.
E esse é um ponto importante quando falamos de comportamento digital.
Rede social não nasceu para ser uma vitrine de peças publicitárias perfeitamente executadas. Ela existe porque há pessoas do outro lado. Pessoas olhando, comparando, descobrindo, comentando, discordando, se reconhecendo, criando curiosidade e procurando alguma coisa na qual possam se reconhecer.
A conexão acontece justamente porque existe alguém ali.
Quando começamos a retirar esse elemento humano da produção e transformamos conteúdo em uma linha de produção, em escala, com fórmulas cada vez mais previsíveis, alguma coisa se perde. Não necessariamente a qualidade técnica. O que se perde é a possibilidade de reconhecer uma pessoa por trás daquilo.
E reconhecer alguém é muito diferente de achar algo bonito.
É quando você percebe uma maneira particular de pensar. Uma escolha que não faria. Um humor que só aquela pessoa teria. Uma opinião que incomoda. Uma história que lembra alguma coisa da sua própria vida. Uma referência inesperada. Uma forma diferente de explicar uma coisa simples. É também quando alguém consegue colocar para fora aquilo que existe dentro dela e que não poderia ser produzido por uma ferramenta sem que antes tivesse existido uma pessoa para colocar aquilo no mundo.
Os medos, as dúvidas, as experiências, as contradições, as pequenas obsessões, as referências culturais, as dores, as alegrias, a criatividade, o repertório, as cores e, principalmente, a identidade.
Tudo aquilo que torna uma pessoa interessante para outra pessoa. Por isso, quando o Instagram resgata no discurso da sua nova identidade visual palavras como "original", "simples" e "artesanal", acho que vale prestar atenção.
Não estou dizendo que o Instagram criou uma nova logo para mandar um recado sobre produção de conteúdo. Seria uma conclusão grande demais para uma mudança de identidade visual. Mas é impossível ignorar que a plataforma está inserida em um ambiente no qual o excesso de conteúdo começou a produzir um efeito bastante particular: quanto mais conteúdo existe, mais difícil fica encontrar alguma coisa que realmente desperte interesse.
E talvez esse seja um dos grandes desafios das redes sociais daqui para frente, porque produzir conteúdo ficou fácil demais e isso mudou completamente o valor daquilo que está sendo produzido. Quando qualquer pessoa consegue gerar dezenas de peças em pouco tempo, a quantidade deixa de ser um diferencial e a capacidade de despertar identificação começa a ganhar ainda mais importância.
Durante muito tempo, a discussão foi sobre profissionalizar a presença digital. Depois veio a preocupação em produzir cada vez mais. Vieram as ferramentas, as automações, os templates, os calendários, as fórmulas, os métodos e agora as ferramentas capazes de fazer uma parte enorme desse trabalho em segundos.
Talvez o movimento seguinte seja justamente o contrário.
Não abandonar a tecnologia. Não voltar para uma romantização de que tudo precisa ser feito manualmente. Não fingir que essas ferramentas não existem.
Mas recuperar aquilo que a tecnologia não deveria substituir: a capacidade humana de observar, pensar, sentir, escolher e transformar uma experiência em alguma coisa que possa ser compartilhada com outra pessoa.
E isso muda bastante a maneira como eu vejo a produção de conteúdo hoje.
Em um ambiente em que qualquer pessoa consegue produzir praticamente qualquer formato de conteúdo, a pergunta que começa a importar é o que existe naquilo que você está produzindo que carrega a sua experiência, o seu olhar, o seu repertório e a sua maneira particular de enxergar o mundo. Porque é justamente aí que aparece aquilo que não pode ser simplesmente reproduzido por outra pessoa ou gerado em escala.
A sua experiência. O seu olhar. O seu repertório. A sua maneira de enxergar uma situação. As coisas que você percebe e outras pessoas não percebem.
E talvez seja justamente por isso que uma identidade visual que fala em simplicidade e cuidado artesanal apareça em um momento em que produzir ficou tão fácil.
Não sei se o Instagram está conscientemente dizendo tudo isso.
Mas sei que o comportamento digital está mostrando alguma coisa.
As pessoas não entraram nas redes sociais para consumir conteúdo. Elas entraram para encontrar pessoas, descobrir outras perspectivas, acompanhar histórias, se reconhecer em experiências e encontrar algo que desperte nelas a vontade de continuar ali.
E talvez a gente tenha passado tempo demais tentando transformar pessoas em conteúdo.
(*) ROBERTA HERINGER é Estrategista Digital e criadora do Estratégia Política Digital.
Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br
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