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Artigos Terça-feira, 28 de Julho de 2026, 15:28 - A | A

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Terça-feira, 28 de Julho de 2026, 15h:28 - A | A

MARCELO SENISE

A maior ameaça à democracia brasileira pode não vir das urnas. Pode vir da disputa internacional pela mente dos brasileiros

MARCELO SENISE

MARCELO SENISE

As recentes declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a política brasileira reacenderam um debate que vai muito além da polarização partidária. Em uma era marcada pela Inteligência Artificial e pela guerra híbrida, talvez a principal questão já não seja apenas quem tentará influenciar as eleições brasileiras, mas se o Brasil está preparado para proteger a liberdade de consciência de seus cidadãos.

Durante séculos, a soberania de uma nação foi medida por sua capacidade de proteger seu território. Exércitos, fronteiras e sistemas de inteligência existiam para impedir invasões e preservar a independência nacional. No século XXI, porém, essa lógica tornou-se insuficiente. Hoje, um país pode tentar influenciar outro sem ocupar um único quilômetro de terra. Basta compreender seus algoritmos, dominar sistemas avançados de Inteligência Artificial e disputar o ambiente onde milhões de pessoas constroem diariamente sua percepção da realidade.

Foi nesse contexto que a reportagem publicada pela Folha de S.Paulo, revelando a preocupação do governo brasileiro com uma possível interferência externa nas eleições de 2026, ganhou especial relevância. As recentes manifestações públicas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em apoio a Flávio Bolsonaro e suas declarações sobre a política brasileira não constituem prova de qualquer operação coordenada — e afirmar isso seria abandonar o rigor dos fatos. Mas também seria um erro ignorar o significado geopolítico de o chefe de Estado da maior potência do mundo manifestar interesse direto sobre uma disputa política brasileira em um momento em que as tecnologias de influência jamais foram tão sofisticadas.

A experiência internacional demonstra que esse risco não pode ser tratado como mera especulação. A Cambridge Analytica revelou ao mundo que dados comportamentais podiam ser utilizados para identificar vulnerabilidades psicológicas e direcionar mensagens capazes de influenciar decisões políticas. A Inteligência Artificial levou esse fenômeno a um novo patamar. Hoje já existem sistemas capazes de conversar, argumentar, responder críticas, adaptar sua linguagem ao perfil emocional de cada interlocutor e participar do debate público simulando, com impressionante naturalidade, o comportamento humano.

No IRIA – Instituto Brasileiro para a Regulamentação da Inteligência Artificial, passamos a chamar esses agentes de neurobots, porque sua função deixou de ser apenas automatizar tarefas. Eles disputam percepções, amplificam narrativas e participam do ambiente onde opiniões e decisões políticas começam a ser formadas.

Foi justamente para compreender a dimensão desse fenômeno que o IRIA realizou, para o Correio Braziliense, um estudo sobre a Integridade Cognitiva das eleições brasileiras, utilizando a plataforma Sentinela Eleitoral/Polijetro. A pesquisa identificou indícios compatíveis com a atuação de agentes artificiais sofisticados entre 5% e 7% das interações analisadas nos ecossistemas digitais ligados ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao senador Flávio Bolsonaro.

O estudo não identifica responsáveis, não demonstra interferência estrangeira e não atribui essas estruturas a qualquer candidatura, governo ou organização. Esse cuidado metodológico é indispensável. Ainda assim, os resultados revelam um dado que merece atenção nacional: em ambientes que reúnem mais de dez milhões de seguidores, convivemos com centenas de milhares de interações que apresentam indícios compatíveis com a atuação de inteligências artificiais sofisticadas, capazes de interferir na dinâmica do debate público sem que a maioria dos cidadãos consiga percebê-las.

Essa constatação nos obriga a atualizar o próprio conceito de soberania. Durante décadas, concentramos nossos esforços na proteção das fronteiras físicas. Agora será necessário proteger também nossas fronteiras cognitivas. A disputa estratégica entre as grandes potências deixou de ocorrer apenas sobre territórios, recursos naturais ou mercados. Ela passou a alcançar o espaço mais sensível de qualquer democracia: o ambiente onde os cidadãos formam suas convicções.

É nesse ponto que surge o conceito de Integridade Cognitiva. Não se trata de controlar opiniões nem de limitar a liberdade de expressão. Trata-se de garantir que o debate público continue sendo construído por pessoas reais, em um ambiente transparente, onde a influência política possa ser identificada, compreendida e contestada.

A democracia sempre dependerá do voto. Mas o voto depende, antes de tudo, da liberdade de consciência.

Se permitirmos que esse espaço seja ocupado por inteligências artificiais capazes de simular pessoas, fabricar consensos aparentes e influenciar percepções em escala, estaremos diante de um desafio que ultrapassa governos, partidos e eleições. Estaremos discutindo a capacidade do Brasil de preservar sua própria soberania democrática.

As democracias do século passado aprenderam a proteger suas fronteiras. As democracias do século XXI precisarão aprender a proteger a consciência de seus cidadãos.

Porque um país não começa a perder sua soberania quando outro ocupa seu território. Ele começa a perdê-la quando forças externas passam a disputar, silenciosamente, a forma como seu povo pensa, interpreta a realidade e decide o seu próprio destino.

(*) MARCELO SENISE é Sociólogo, estrategista político, especialista em comportamento humano e Inteligência Artificial aplicada à comunicação política. Presidente do IRIA – Instituto Brasileiro para a Regulamentação da Inteligência Artificial e autor das obras A Delicada (ou não) Arte da Desconstrução Política e da trilogia Blindagem Essencial.

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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