As recentes declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a política brasileira reacenderam um debate que vai muito além da polarização partidária. Em uma era marcada pela Inteligência Artificial e pela guerra híbrida, talvez a principal questão já não seja apenas quem tentará influenciar as eleições brasileiras, mas se o Brasil está preparado para proteger a liberdade de consciência de seus cidadãos.
Durante séculos, a soberania de uma nação foi medida por sua capacidade de proteger seu território. Exércitos, fronteiras e sistemas de inteligência existiam para impedir invasões e preservar a independência nacional. No século XXI, porém, essa lógica tornou-se insuficiente. Hoje, um país pode tentar influenciar outro sem ocupar um único quilômetro de terra. Basta compreender seus algoritmos, dominar sistemas avançados de Inteligência Artificial e disputar o ambiente onde milhões de pessoas constroem diariamente sua percepção da realidade.
Foi nesse contexto que a reportagem publicada pela Folha de S.Paulo, revelando a preocupação do governo brasileiro com uma possível interferência externa nas eleições de 2026, ganhou especial relevância. As recentes manifestações públicas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em apoio a Flávio Bolsonaro e suas declarações sobre a política brasileira não constituem prova de qualquer operação coordenada — e afirmar isso seria abandonar o rigor dos fatos. Mas também seria um erro ignorar o significado geopolítico de o chefe de Estado da maior potência do mundo manifestar interesse direto sobre uma disputa política brasileira em um momento em que as tecnologias de influência jamais foram tão sofisticadas.
A experiência internacional demonstra que esse risco não pode ser tratado como mera especulação. A Cambridge Analytica revelou ao mundo que dados comportamentais podiam ser utilizados para identificar vulnerabilidades psicológicas e direcionar mensagens capazes de influenciar decisões políticas. A Inteligência Artificial levou esse fenômeno a um novo patamar. Hoje já existem sistemas capazes de conversar, argumentar, responder críticas, adaptar sua linguagem ao perfil emocional de cada interlocutor e participar do debate público simulando, com impressionante naturalidade, o comportamento humano.
No IRIA – Instituto Brasileiro para a Regulamentação da Inteligência Artificial, passamos a chamar esses agentes de neurobots, porque sua função deixou de ser apenas automatizar tarefas. Eles disputam percepções, amplificam narrativas e participam do ambiente onde opiniões e decisões políticas começam a ser formadas.
Foi justamente para compreender a dimensão desse fenômeno que o IRIA realizou, para o Correio Braziliense, um estudo sobre a Integridade Cognitiva das eleições brasileiras, utilizando a plataforma Sentinela Eleitoral/Polijetro. A pesquisa identificou indícios compatíveis com a atuação de agentes artificiais sofisticados entre 5% e 7% das interações analisadas nos ecossistemas digitais ligados ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao senador Flávio Bolsonaro.
O estudo não identifica responsáveis, não demonstra interferência estrangeira e não atribui essas estruturas a qualquer candidatura, governo ou organização. Esse cuidado metodológico é indispensável. Ainda assim, os resultados revelam um dado que merece atenção nacional: em ambientes que reúnem mais de dez milhões de seguidores, convivemos com centenas de milhares de interações que apresentam indícios compatíveis com a atuação de inteligências artificiais sofisticadas, capazes de interferir na dinâmica do debate público sem que a maioria dos cidadãos consiga percebê-las.
Essa constatação nos obriga a atualizar o próprio conceito de soberania. Durante décadas, concentramos nossos esforços na proteção das fronteiras físicas. Agora será necessário proteger também nossas fronteiras cognitivas. A disputa estratégica entre as grandes potências deixou de ocorrer apenas sobre territórios, recursos naturais ou mercados. Ela passou a alcançar o espaço mais sensível de qualquer democracia: o ambiente onde os cidadãos formam suas convicções.
É nesse ponto que surge o conceito de Integridade Cognitiva. Não se trata de controlar opiniões nem de limitar a liberdade de expressão. Trata-se de garantir que o debate público continue sendo construído por pessoas reais, em um ambiente transparente, onde a influência política possa ser identificada, compreendida e contestada.
A democracia sempre dependerá do voto. Mas o voto depende, antes de tudo, da liberdade de consciência.
Se permitirmos que esse espaço seja ocupado por inteligências artificiais capazes de simular pessoas, fabricar consensos aparentes e influenciar percepções em escala, estaremos diante de um desafio que ultrapassa governos, partidos e eleições. Estaremos discutindo a capacidade do Brasil de preservar sua própria soberania democrática.
As democracias do século passado aprenderam a proteger suas fronteiras. As democracias do século XXI precisarão aprender a proteger a consciência de seus cidadãos.
Porque um país não começa a perder sua soberania quando outro ocupa seu território. Ele começa a perdê-la quando forças externas passam a disputar, silenciosamente, a forma como seu povo pensa, interpreta a realidade e decide o seu próprio destino.
(*) MARCELO SENISE é Sociólogo, estrategista político, especialista em comportamento humano e Inteligência Artificial aplicada à comunicação política. Presidente do IRIA – Instituto Brasileiro para a Regulamentação da Inteligência Artificial e autor das obras A Delicada (ou não) Arte da Desconstrução Política e da trilogia Blindagem Essencial.
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