Por que o ser humano consegue tanta bondade e, ao mesmo tempo, tanta crueldade? A resposta permanece aberta porque o bem e o mal ultrapassam os domínios da filosofia e da religião; pertencem à própria experiência da existência. Desde as primeiras civilizações, a humanidade procura compreender por que a mesma pessoa consegue construir, proteger e amar, mas também destruir, odiar e aniquilar.
Na antiga tradição filosófica, sustenta-se que o mal nasce da ignorância, pois ninguém que conheça verdadeiramente o bem desejaria a injustiça. Outra perspectiva afirma que o mal não possui existência própria, sendo apenas a ausência ou a corrupção do bem, como a sombra depende da luz para existir (Platão; Santo Agostinho). Essas interpretações continuam atuais porque revelam que o problema moral não está apenas nas circunstâncias, mas também na formação da consciência humana.
A literatura demonstrou, talvez com maior sensibilidade do que a própria filosofia, que o mal raramente se apresenta espetacularmente. Ele costuma surgir discretamente, alimentado por pequenas concessões, ambições aparentemente legítimas, ressentimentos silenciosos e desejos que, pouco a pouco, ultrapassam os limites da razão. As grandes tragédias humanas quase sempre começam com escolhas que pareciam insignificantes.
Essa investigação alcançou especial profundidade ao revelar que o verdadeiro conflito moral não acontece entre pessoas boas e más, mas no interior de cada indivíduo. O ser humano frequentemente procura justificar racionalmente seus atos, convencendo-se de que determinadas circunstâncias autorizam a transgressão dos princípios éticos. Entretanto, nenhuma construção intelectual consegue eliminar completamente o peso da consciência, que permanece como tribunal silencioso da própria existência: “o campo de batalha é o coração humano” (Dostoiévski, Os irmãos Karamázov).
As principais atrocidades da história também demonstram que o mal nem sempre decorre de perversidade extraordinária. Muitas vezes, ele nasce da incapacidade de refletir criticamente, da submissão automática às ordens (como se observa em Hannah Arendt, ao examinar o julgamento de Adolf Eichmann), da indiferença e da renúncia ao exercício da responsabilidade individual. Quando o pensamento é substituído pela obediência cega, a violência deixa de parecer exceção e integra a rotina.
Entretanto, reduzir a humanidade à sua capacidade destrutiva seria ignorar a outra face da condição humana. O bem manifesta-se, quase sempre, longe dos grandes discursos e das ações heroicas. Ele está na solidariedade entre as pessoas, na alteridade, no cuidado silencioso, na permanência. São essas pequenas escolhas que sustentam a convivência e preservam a dignidade humana mesmo nas situações mais adversas. Foi na solidariedade que Camus encontrou uma forma de resistência frente ao absurdo da vida.
A coragem moral talvez seja justamente a capacidade de resistir ao ressentimento, à mentira conveniente, à indiferença e à tentação de responder à violência com mais violência. A ética raramente se constrói em gestos grandiosos; ela se consolida na fidelidade diária aos valores que possibilitam a vida em comum: “o que a vida quer da gente é coragem” (Guimarães Rosa). Também, não esquecer da advertência de José Saramago, "se podes olhar, vê; se podes ver, repara".
A história mostra que o mal costuma produzir efeitos imediatos e estrondosos. O bem, ao contrário, opera de maneira discreta, quase silenciosa, mas constrói aquilo que torna possível qualquer sociedade: a amizade, a confiança e a esperança. Talvez seja essa a verdadeira medida da ética, não a ausência do mal, mas a responsabilidade permanente de escolher, todos os dias, aquilo que decidiu ser.
É por aí...
(*) GONÇALO ANTUNES DE BARROS NETO (Saíto) é da Academia Mato-Grossense de Letras (Cadeira 7) e do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso- IHGMT.
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