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Artigos Sexta-feira, 24 de Julho de 2026, 13:38 - A | A

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Sexta-feira, 24 de Julho de 2026, 13h:38 - A | A

FERNANDA ESCOUTO

Nos deixem ser fracas

FERNANDA ESCOUTO

Reprodução

FERNANDA ESCOUTO

Às vezes, ser forte nem foi uma escolha. Nós apenas aprendemos que precisávamos ser.

O fim de uma amizade endurece. O término de um relacionamento transforma. A perda de um emprego obriga a recomeçar. A morte de alguém que amamos muda tudo. Uma doença reposiciona a vida.

Sem perceber, vamos vestindo uma armadura.

Pelas conversas de bar com algumas amigas, tenho a impressão de que nós, mulheres, somos mais atravessadas por essa necessidade constante de sermos fortes.

Não sei muito sobre patriarcado para escrever sobre ele. Também não me considero uma feminista fervorosa, embora um amigo já tenha me dito que sou uma grande feminista escondida.

Apesar dessa questão, por ser mulher, também acredito que a postura de robô é cobrada de todos nós.

Mas essa reflexão não vai ser levada para esse lado.

Esse texto é sobre o cansaço de sermos fortes ou precisarmos ser fortes.

Escrevo estas linhas com muita angústia porque esse texto é sobre querermos ser fracas. Poder dizer, com todas as letras: “Queremos ser fracas. Por favor, nos deixem ser fracas”.

Não queremos ouvir que Deus nos quer fortes. Não queremos conselhos. Não queremos explicações. Queremos ser recebidas com a nossa vulnerabilidade, como se estivéssemos em um divã.

Queremos dizer que não conseguimos. Que precisamos de ajuda. Que está difícil demais. Que, desta vez, ser forte não é uma opção e nós não queremos que seja.

Queremos que vejam nossos olhos murchos, nossos corpos inclinados, nossos ombros caídos, como se carregássemos uma muralha em cima.

Queremos ser fracas como uma criança de 20 quilos tentando fazer crossfit.

Imaginem...

Mesmo sabendo que vamos e precisamos nos levantar em algum momento, queremos ter o direito de cair. De permanecer no chão pelo tempo necessário.

Como um estilingue que, antes de lançar a pedra para frente, precisa ser puxado para trás.

Eu e aquelas mulheres com quem converso no bar queremos ser… Não vou usar a palavra “acolhidas”, porque ela tem sido usada de forma banalizada e perdeu um pouco da força.

Queremos apenas ser recebidas.

Às vezes, tudo o que precisamos é desse movimento, poder recuar por um instante.

A gente quer desmoronar mesmo tendo um emprego, mesmo sendo o dito cidadão respeitável e ganhando quatro mil cruzeiros por mês, mesmo tendo sucesso na vida como artista e estar feliz porque conseguiu comprar um Corcel 73.

Talvez este texto não tenha importância para você. Talvez você ache uma grande bobagem.

Entretanto, para aquelas mulheres com quem converso no bar, esse texto chega como um acalento.

Então, por favor.

Nos deixem ser fracas.

(*) FERNANDA ESCOUTO, jornalista.

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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