Terminou a Copa do Mundo de Futebol de 2026, um dos maiores eventos esportivos da história, que mobilizou emoções e paixões de mais de um bilhão de pessoas em todo o planeta.
Uma competição dessa magnitude encerra múltiplas histórias – de atletas, equipes e anônimos – e permite inúmeras leituras. Haverá quem se dedique a análises da evolução tática do futebol. Outros se debruçarão sobre a preparação física e mental dos jogadores. Não faltarão os que farão considerações geopolíticas e filosóficas. Muitos destacarão as influências históricas, culturais, artísticas e até gastronômicas no desempenho das seleções. E, finalmente, especialistas econômicos debaterão as cifras bilionárias envolvidas na logística do evento, nos patrocínios, nas premiações e nos ingressos.
Proponho uma reflexão sobre o significado das vitórias e das derrotas.
O senso comum atribui a láurea de vencedores apenas aos que sobem ao degrau mais alto do pódio. Todos os demais seriam, em alguma medida, perdedores. Esse juízo não se restringe ao esporte, mas replica-se em diferentes dimensões da vida: nos estudos, nos negócios, na política, na arte e até nas relações afetivas.
A Copa do Mundo revelou que a realidade é mais complexa. Houve equipes que não chegaram às semifinais, mas escreveram páginas inesquecíveis de luta e garra e, por isso, as considero vitoriosas. Um exemplo é a seleção de Cabo Verde. E houve finalistas que, mesmo se tivessem vencido, sairiam moralmente derrotados por sua complacência com cantos e manifestações racistas de grupos de seus torcedores. Suas medalhas de prata estão manchadas pela covardia da omissão e do silêncio diante do horror do preconceito.
A euforia por um título esportivo é efêmera, assim como o são o poder, a felicidade e a própria vida. Duradouras são as atitudes que conduzem às conquistas e as lições que delas recolhemos.
Cervantes, o maior escritor da nação campeã da Copa de 2026, legou-nos, em sua obra-prima Dom Quixote, uma lição imortal, pronunciada por Sancho Pança (aqui em versão adaptada):
“Abre os braços, ó Mancha, e recebe teu filho Dom Quixote que, se vencido vem por braços alheios, vencedor vem de si mesmo, que é a maior vitória que se possa alcançar.”
Cervantes inspirou-se na tradição filosófica grega (Sócrates, Platão e o Estoicismo), mas intuições semelhantes pontuam a tradição budista, os ensinamentos de Lao-Tsé e filosofias como o Espiritismo. E o próprio Evangelho de Mateus (16:26) traz a mensagem: “de que vale vencer o mundo e perder a própria alma?”.
Nesta Copa vimos equipes que venceram jogos, mas perderam-se a si mesmas com atitudes antidesportivas. E vimos aqueles que venceram obstáculos de toda sorte e praticaram o esporte com talento e honra. A estes, nossos aplausos e nosso reconhecimento.
(*) LUIZ HENRIQUE LIMA é professor, escritor e conselheiro independente certificado.
Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br
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