A democracia tem um custo, e isso é natural. Garantir eleições livres em um país com dimensões continentais como o Brasil exige tecnologia, segurança, logística e uma Justiça Eleitoral estruturada. O problema não está em investir na democracia, mas em pagar uma conta cada vez mais alta sem exigir a mesma qualidade dos representantes eleitos.
Nas eleições de 2026, o Fundo Especial de Financiamento de Campanha (Fundo Eleitoral) distribuirá cerca de R$ 4,9 bilhões aos partidos políticos. A esse valor somam-se os recursos do Fundo Partidário, os custos da Justiça Eleitoral, da organização da votação, da fiscalização, da propaganda eleitoral gratuita e de toda a estrutura necessária para realizar o pleito. O resultado é que o Brasil figura entre os países que mais destinam recursos públicos ao financiamento de sua democracia.
Essa realidade revela uma grande dicotomia.
Enquanto o Estado investe bilhões para garantir que cada cidadão possa votar livremente, muitos eleitores ainda escolhem seus representantes pela emoção, pela fama nas redes sociais, por promessas fáceis ou por interesses momentâneos, deixando em segundo plano a competência, a experiência e a capacidade de transformar ideias em políticas públicas.
Defender boas causas é importante. Mas defender uma ideia não basta. É preciso conhecer o assunto, compreender como funciona o Estado, saber elaborar leis, fiscalizar o Executivo, negociar soluções e construir consensos. Caso contrário, boas intenções acabam produzindo poucos resultados.
Um deputado estadual ou federal não exerce apenas um cargo político. Ele participa da elaboração de leis, vota orçamentos bilionários, fiscaliza governos e influencia diretamente áreas como saúde, educação, segurança, infraestrutura e desenvolvimento econômico. Essas funções exigem preparo técnico, capacidade de diálogo, equilíbrio e responsabilidade.
Infelizmente, a política brasileira ainda convive com um fenômeno preocupante: candidatos são eleitos pela popularidade, pelo carisma ou pela capacidade de gerar engajamento, mas, uma vez no mandato, demonstram dificuldades para exercer plenamente as atribuições do cargo. Em outros casos, possuem conhecimento, mas carecem de compromisso ético. A sociedade perde nas duas situações.
O eleitor precisa compreender que votar é uma das decisões mais importantes da vida em comunidade. Escolher um representante é semelhante a contratar um gestor para administrar recursos públicos que pertencem a todos. Ninguém contrataria um médico apenas porque ele fala bem, nem embarcaria em um avião pilotado por alguém sem qualificação. Da mesma forma, não deveria confiar o futuro de seu Estado ou de seu país a pessoas despreparadas para a função.
Antes de votar, vale fazer algumas perguntas simples: o candidato conhece os problemas que pretende resolver? Possui experiência ou preparo para transformar propostas em resultados? Tem equilíbrio, ética e capacidade de diálogo? Sua trajetória demonstra compromisso com o interesse público?
A democracia não se fortalece apenas com eleições bem organizadas. Ela se fortalece quando cidadãos fazem escolhas responsáveis. Num país que investe bilhões de reais para garantir o direito ao voto, o mínimo que se espera é que cada eleitor dedique algum tempo para conhecer quem pretende administrar parte desses recursos em seu nome.
Ideias são fundamentais. Mas ideias sem conhecimento, planejamento e competência dificilmente saem do papel. O Brasil precisa de representantes que defendam causas legítimas e, ao mesmo tempo, tenham capacidade para transformá-las em políticas públicas eficientes. Afinal, uma democracia cara somente se justifica quando entrega resultados à altura do investimento feito por toda a sociedade.
(*) JOÃO EDISOM DE SOUZA é Analista político e professor universitário.
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