"No começo do ano, quando a aprovação do governo estava próxima de 43%, nosso modelo estimava uma probabilidade de reeleição em torno de 38%", afirmou o cientista político durante almoço empresarial promovido pelo Grupo Lide, em São Paulo. "Com a recuperação da aprovação para perto de 47%, essa probabilidade passou para quase 60%. É uma mudança, como você pode imaginar, muito significativa."
Na avaliação de Nunes, a decisão eleitoral deve ficar novamente nas mãos dos eleitores independentes, que não se identificam com nenhum dos polos, muitas vezes rejeitam ambos e buscam uma alternativa à polarização. Segundo ele, porém, as rodadas mais recentes da Quaest indicam que esse grupo passou a rejeitar mais o principal candidato da oposição, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), e a se aproximar do governo Lula. O cientista político acrescentou que, embora a direita possa estar "desanimada" com a candidatura do senador, continua rejeitando fortemente o PT - uma tensão que considera central para o desfecho da disputa.
Nunes avaliou que o cenário mais provável ainda é uma disputa entre os dois polos e ponderou que, nos últimos dois anos, tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro já foram dados como politicamente derrotados e conseguiram se recuperar ao menos três vezes. Segundo ele, contudo, a eleição ainda não está decidida.
"O Renan Santos (Missão) pode, e parece, ter um ótimo desempenho em debates. O Ronaldo Caiado (PSD) é um político experimentado, tem o apoio de um partido muito importante, além dos feitos que acumula em Goiás. O Romeu Zema (Novo) carrega a importância decisiva de Minas Gerais e é o outsider que se reelegeu conquistando a aprovação de seu Estado; pode ser uma surpresa. Mas nada disso parece ser mais decisivo agora", avaliou.
Entre as principais incógnitas estão a possibilidade de o receio de uma nova vitória de Lula ser suficiente para reorganizar a direita em torno de Flávio, a eventual construção de outra candidatura pelo campo durante a campanha e a capacidade do bolsonarismo de fazer gestos ao centro, reduzir sua rejeição e reconquistar os eleitores independentes.
Nunes explicou que a Quaest utiliza quatro modelos para analisar o cenário eleitoral. O primeiro relaciona a aprovação do governo às chances de reeleição. Segundo ele, a análise de 140 eleições realizadas em 18 países da América Latina nos últimos 30 anos revela um padrão: governantes em busca de um novo mandato ganham, em média, quatro pontos porcentuais de aprovação no período que antecede a campanha, movimento observado com Lula neste ano.
O segundo modelo considera o impacto de fatores econômicos, como inflação, emprego e renda. De acordo com o cientista político, durante boa parte do atual governo, houve uma desconexão entre a melhora dos indicadores macroeconômicos e a percepção da população sobre a própria vida. Mais recentemente, porém, medidas como o Desenrola, a ampliação da isenção do Imposto de Renda (IRPF) e o debate sobre a redução da jornada de trabalho teriam melhorado essa percepção, sobretudo entre os eleitores de centro, tornando o modelo mais favorável a Lula.
Já o terceiro modelo leva em conta as principais preocupações do eleitorado e qual candidato é considerado mais preparado para enfrentá-las. Nunes afirmou que esse é hoje o principal ponto de dificuldade para Lula, uma vez que violência e corrupção estão entre as maiores inquietações dos brasileiros e costumam favorecer a oposição, especialmente candidatos de direita. Para 2026, esse seria o modelo que mais aponta para uma eleição apertada e para a possibilidade de vitória da oposição.
Por fim, o modelo de "calcificação política" aponta para um eleitorado dividido entre dois blocos consolidados. Segundo Nunes, lulistas e eleitores de esquerda formam um campo de aproximadamente 35%, porcentual semelhante ao reunido por bolsonaristas e eleitores de direita. Assim, a disputa começaria praticamente empatada entre os dois polos.
Na pesquisa Genial/Quaest mais recente sobre a corrida presidencial, divulgada em 15 de julho, Lula lidera o cenário de primeiro turno com 39% das intenções de voto, ante 29% de Flávio Bolsonaro. Em uma eventual disputa de segundo turno, o petista venceria o senador por 45% a 37%. A margem de erro do levantamento é de dois pontos porcentuais.
(Com Agência Estado)
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