Cidades Domingo, 15 de Maio de 2011, 07:00 - A | A

Domingo, 15 de Maio de 2011, 07h:00 - A | A

NADA A COMEMORAR

Várzea Grande completa 144 anos e população pede mudanças

Moradores estão insatisfeitos com a falta de estrutura da cidade; um dos setores mais citados é a falta de segurança

ALIANA F. CAMARGO
aliana@hipernoticias.com.br

Várzea Grande comemora neste domingo (15) 144 anos de fundação. No entanto, os problemas enfrentados na cidade e a insatisfação da população mostram que, na realidade, não há muito o que comemorar. As principais dificuldades apontadas são a falta de saneamento básico, de água, ausência de segurança pública, saúde precária, para citar algumas deficiências da cidade.

Nos últimos anos Várzea Grande entrou num verdadeiro colapso, desestabilizando a estrutura de vários setores. Conhecida anteriormente como promissora cidade-pólo industrial agora, vive dias de sucessivas desorganizações e escândalos por parte dos seus gestores. 

Distantes de uma opinião formada sobre por onde começar a mudar a realidade, as pessoas ouvidas pela reportagem dizem que o município está abandonado e pedem providências para que a situação seja revertida.

João Cândido da Silva, 50 anos, dono de uma banca de revista no centro da cidade, avalia a situação como precária. Para ele a cidade não tem prefeito. “Aqui não tem comando, tá abandonada. Não temos incentivo por parte da prefeitura. Vamos comemorar o quê?”, questionou. João Cândido lembra que a educação no município também está ruim. Nesta semana os professores da rede municipal já se posicionaram por um indicativo de greve. O salário base de um professor está na faixa de R$ 623,00. “Compensa fazer faculdade, estudar e depois trabalhar para ganhar tão pouco?.”

Mayke Toscano/Hipernotícias

Esquerda para direita, Dona Miguelina Paes Campos, Cleide Moria da Silva e Miguel Gomes do bairro Manga, segundo eles, a insatisfação é grande.

As indagações por parte de João Cândido reflete a grande insatisfação também compartilhada por dona de casa Miguelina Paes Campos. Com 65 anos, a aposentada vive há 10 anos em uma pequena casa alugada no bairro Manga. Miguelina diz que tem que mudar tudo em Várzea Grande. Seu depoimento um tanto descrente de tais mudanças é visível no rosto de seus vizinhos. Para ela o sistema de lixo é precário, existem muitos buracos nas ruas e a saúde é muito ruim. "O pronto-socorro dessa cidade não tem condições, tem que mudar".

O sistema de esgoto e abastecimento de água também é um dos pontos levantados por quase todos os entrevistados. Tanto no centro da cidade como em bairros periféricos a situação não agrada a ninguém.

Josy Tolentino, 29 anos, mora no centro de Várzea Grande há dois anos. Para a vendedora de cosméticos a estrutura da cidade é fraca e a rede de esgoto deixa a desejar. Considerado uma das regiões mais estruturadas, o centro da cidade também está com o sistema de esgoto comprometido. “Às 6 da manhã e 6 da tarde são horários ruins, porque vem um cheiro horrível de esgoto em minha casa, não sei por quê, mas o fato é que além de vir o mau cheiro também estamos com problemas de água”, diz Josy.

No bairro Manga as dificuldades apontadas por Miguel Gomes Vieira, 48 anos, são referentes à falta de água e segurança. No quesito abastecimento, a maioria dos bairros da cidade, segundo Miguel, recebe água a cada dois ou três dias, dependendo da época.

Ruas esburacadas, lixo nos terrenos baldios e esgoto a seu aberto são apontados por Edson Ferreira que mora no bairro Construmat. Com 49 anos, o reciclador diz que precisa ter uma consciência por parte da população. “A prefeitura deveria fazer esse trabalho de conscientização das pessoas, aqui tem muita gente que joga lixo no chão, não há respeito “.

Mayke Toscano/Hipernotícias

Córrego virou esgoto à céu aberto, bairro Construmat.

Há poucos metros o entrevistado Edson apontou um esgoto a céu aberto. “Antes era um rio alí, as pessoas contam que era limpo, tinha jacaré, algumas capivaras, agora é puro esgoto. Aqui na cidade são poucos os lugares que tem rede de esgoto, tudo é fossa”. Difícil imaginar como era, já que a imagem mostra um córrego tomado por lixos e um mau cheiro terrível. Algumas pessoas que moram ao lado dizem que a nascente do córrego sai do aeroporto, passa pelo bairro Manga, atravessa o Construmat e desemboca no rio Cuiabá, esgoto indo direto para o rio sem nenhum tipo de tratamento.

Perguntado sobre se há o que comemorar nos 144 anos da cidade de Várzea Grande, o reciclador Edson Ferreira disse categórico “Se trocar todos os gestores dessa cidade por pessoas competentes, no outro dia a gente comemora”.

SENSAÇÃO DE INSEGURANÇA

A insegurança foi o setor mais apontado pelos moradores. Os comerciantes Wilson José Mendes, de 62 anos, e João Carlos Junior, de 29, dizem que existem poucos policiais nas ruas de Várzea Grande. Segundo eles, o efetivo é maior no Natal e em datas comemorativas.

Em cinco anos, a loja de Wilson José, que fica na avenida Couto Magalhães, foi roubada três vezes. “Para mim a segurança aqui é zero. Além dos três roubos que sofremos ainda temos os furtos, geralmente são feitos por clientes que entram na loja e pegam a mercadoria sem que vejamos”.

Dados da Polícia Civil apresentam que a cidade de Várzea Grande registrou de janeiro a abril deste ano 47 homicídios, uma morte a cada 3 dias.

No bairro Manga, a reportagem passou pela rua Ademar de Barros apelidada de "rua 12" em referência ao artigo 12 do Código Penal, enquadrado como tráfico de drogas. O local é considerado um dos mais violentos da cidade pelo fluxo de drogas e usuários que transitam por alí o dia inteiro.

A rua descortina o vazio social da região. Cerca de 10 pessoas, entre usuários e traficantes, faziam presença no momento da reportagem, esperando, certamente, a vinda de mais um cliente.

Mayke Toscano/Hipernotícias

A famosa rua 12 - ao fundo pessoas sentadas esperam o próximo usuário.

Coronel Taborelli, do Comando Regional 2, que abrange Várzea Grande e mais seis municípios vizinhos, disse ao Hipernotícias que a região foi muito mais perigosa. No comando desde fevereiro deste ano, Taborelli diz que antes havia na rua 12 cerca de 50 pessoas traficando drogas. “Nossa equipe está colocando em prática, nesses três meses de comando, o programa 'choque de ordem' que tem como foco aplicar medidas em locais que estão alto índice de práticas de crimes. Diminuímos o número de pessoas que transitam naquele local e vamos diminuir em outros locais também”, afirmou.

Além da famosa rua 12 no bairro Manga, o coronel Taborelli e sua equipe estão aplicando o 'choque de ordem' no terminal André Maggi, na feira de Várzea Grande, no Zero KM e em outros locais onde a presença do tráfico é atuante.

O comandante admite que há déficit de policiais nas ruas de Várzea Grande, mas que isso será sanado com a incorporação de mais de 200 policiais aprovados no último concursos.

OUTRO LADO

O Hipernotícias tentou contato com o secretário de Comunicação, Wilson Pires, porém não obteve retorno. Procuramos o responsável pelo Departamento de Água e Esgoto (DAE) da Cidade para saber sobre o setor tão criticado pelos moradores, porém também não obteve retorno.

Também tentou contato com a Secretaria de Governo da Prefeitura de Várzea Grande, mas ninguém atendou o celular e não houve retorno da ligação.

VÁRZEA GRANDE 144 ANOS DE HISTÓRIA

A fundação de Várzea Grande está ligada às ações empreendidas pelo governo provincial em função da Guerra do Paraguai. Em 1867, em plena guerra, o presidente da província de Mato Grosso, Couto de Magalhães, ordenou a prisão de todos os paraguaios encontrados em Cuiabá e cercanias e criou o acampamento militar na outra margem do rio, para onde os enviou, região até então ocupada pelos índios Guanás e por alguns poucos e pobres lavradores.

Mayke Toscano/Hipernotícias

Igreja Nossa Senhora do Carmo - um dos pontos turísticos da cidade.

Nas primeiras décadas, o povoado várzea-grandense cresceu lentamente, sobrevivendo a população da lavoura, abate de reses e fabricação de lenha, além de uma incipiente industria manual, que proporcionavam o comércio com Cuiabá, feito por meio de barcos. Em 1870, em decorrência do nascimento das primeiras crianças do povoado, o governo destinou verba no orçamento para pagar o primeiro professor de Várzea Grande, mestre Bilão.

Em 1942, no governo do interventor Júlio Müller, foi inaugurada a primeira ponte unindo Cuiabá e Várzea Grande, o que aumentou significativamente seu comércio com a Capital, fornecendo-lhe suínos, galináceos, leite e derivados, lenha, carvão, chinelos, material de construção e cereais, além de peixe. O desenvolvimento da cidade foi ainda impulsionado pela instalação da luz elétrica, em 1945.

Várzea grande foi transformada e município em 23 de setembro de 1948, no governo de Arnaldo de Figueiredo, que nomeou o varzea-grandense major Gonçalo Romão de Figueiredo para exercer o cargo de prefeito, até que se realizassem eleições.

O rápido crescimento de Várzea Grande, principalmente após o seu primeiro centenário, está ligado à grande imigração e à cessão pela prefeitura de áreas para a instalação de indústrias, bem como à tradicional aptidão do seu povo para o comércio e para o trabalho, povo que continua construindo a história do município com seu trabalho cotidiano.

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