Mato Grosso registrou 906 casos de racismo em 2025, o que corresponde a um aumento de 19,7% em comparação com o ano anterior. Com isso, o estado tem a 4º maior taxa de racismo do país, ficando atrás dos estados Santa Catarina (32,8), Distrito Federal (30,3) e Rio Grande do Sul (26,3).
Os dados baseados em boletins de ocorrência da polícia fazem parte do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado nesta quinta-feira (23), pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (PBSP).
Segundo o levantamento, em 2024 foram 746 casos de racismo em Mato Grosso, o que deixou o estado com uma taxa de 19,4 a cada 100 mil habitantes. Já em 2025, o estado ficou com uma taxa de 23,3 por 100 mil.
O racismo, porém, não foi o único crime a registrar aumento no estado. Os crimes de injúria racial também cresceram expressivamente, com uma variação de 30,8% de 2024 a 2025. Enquanto em 2024 foram registrados 605 casos de injúria racial, em 2025 foram 803.
Ao passo que a média nacional de injúria racial foi de 11,2 por 100 mil habitantes, Mato Grosso atingiu a taxa de 20,6, quase o dobro. Já quanto ao racismo, a taxa nacional ficou em 15,7.
Conforme a legislação, o racismo é um crime coletivo, dirigido contra todo um grupo, enquanto a injúria se refere a ofensa individual. Os dois crimes foram nivelados em 2023 com a Lei 14.532/2023, que endureceu a punição para injúria e agora também recebe pena de dois a cinco anos de prisão.
Incorporada na Lei do Racismo (Lei nº 7.716/1989 ), a injúria racial representou 88,6% dos crimes de racismo no estado em 2025. Com essa proporção, Mato Grosso protagoniza ao lado de estados como o Paraná (88,6) e Minas Gerais (88,6)
"Do ponto de vista da justiça racial, o deslocamento é relevante porque mostra que o sistema está deixando de tratar a injúria racial como uma categoria ‘menor’ ou residual. Em vez disso, ela passa a ser absorvida pela gramática mais ampla da luta antirracista e da criminalização do racismo, o que aproxima a resposta penal de uma lógica de proteção coletiva”, afirmou o levantamento
Em análise comparativa, Mato Grosso ultrapassa outros estados maiores em aspecto populacional, como São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Bahia, que registram taxas menores nos dois crimes.
Registros variam de estado para estado
O levantamento, porém, chama atenção para a falta de uniformização dos dados, já que cada estado adota seu próprio parâmetro.
“O conjunto das respostas nos revelou que há falta de padronização nacional na forma de registrar a injúria racial. Isto é, mesmo após a alteração legislativa, alguns estados continuam operando com lógicas distintas de contabilização, o que afeta a comparabilidade interestadual”, enfatizou o relatório.
O próprio Anuário constata que não foi possível alcançar a cobertura plena para nenhum dos tipos penais monitorados, o que levanta a questão da capacidade do Estado de registrar esses crimes de modo consistente.
Segundo o relatório, esse ponto vai além de um detalhe técnico porque fragiliza a comparação entre os estados e enfraquece a capacidade do Estado de reconhecer, nomear e responder adequadamente às violências.
“Nesse sentido, a leitura sob a chave da “neurose cultural brasileira”, nos termos de Lélia Gonzalez, ajuda a mostrar que a desordem classificatória não é apenas um problema administrativo, mas a expressão de uma estrutura social que normaliza a negação da violência contra pessoas negras”, enfatizou.
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