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SETEMBRO VERDE

Crianças esperam mais por transplante de órgãos; 50 morreram na fila só em 2025

No Setembro Verde, maior hospital pediátrico do país reforça a importância da doação e chama atenção para os desafios dos transplantes pediátricos

REDAÇÃO

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A pequena Melissa Emorge de Arruda, de seis anos, ganhou nesta segunda-feira (31) a oportunidade de escrever um novo capítulo de sua história. Após 18 dias à espera de um coração compatível, a menina de Cuiabá passou por um transplante cardíaco no Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba (PR).

O desfecho esperado pela família de Melissa ocorre justamente às vésperas do Setembro Verde, mês dedicado à conscientização sobre a importância da doação de órgãos, e ajuda a dimensionar uma realidade enfrentada por milhares de famílias brasileiras.

Atualmente, mais de 49 mil pessoas aguardam por um transplante no Brasil e aproximadamente três mil morrem todos os anos enquanto esperam por um órgão, segundo dados do Ministério da Saúde.

Para crianças como Melissa, a situação é ainda mais delicada. Dados do Registro Brasileiro de Transplantes (RBT) apontam que, em 2025, foram realizados 586 transplantes de órgãos pediátricos no país. No mesmo período, 50 crianças morreram enquanto aguardavam na fila.

Um dos principais entraves para aumentar o número de transplantes é a recusa familiar. Em aproximadamente 45% dos casos, a família não autoriza a retirada dos órgãos.

É nesse contexto que o Hospital Pequeno Príncipe, onde Melissa recebeu seu novo coração, reforça durante o Setembro Verde a necessidade de conversar sobre doação de órgãos ainda em vida.

“Famílias que já conversaram sobre o assunto tendem a autorizar a doação com mais tranquilidade e segurança. Quando a população é bem informada, tendo suas dúvidas e mitos esclarecidos antes de um momento tão difícil, o número de recusas cai e, consequentemente, mais transplantes podem ser realizados”, explica o cirurgião Fábio Navarro, responsável pelo Serviço de Transplante Cardíaco do Hospital Pequeno Príncipe.

MELISSA ENFRENTOU CORRIDA CONTRA O TEMPO

O HiperNotícias acompanhou a luta de Melissa enquanto a menina aguardava pelo transplante. Ela desenvolveu uma miocardite provocada pelo parvovírus B19, que comprometeu gravemente o funcionamento do coração.

Com a piora do quadro, Melissa foi transferida para Curitiba e internada na UTI cardiopediátrica do Pequeno Príncipe. A menina chegou a ficar intubada e necessitou do suporte da Oxigenação por Membrana Extracorpórea (ECMO), equipamento que auxilia temporariamente as funções do coração e dos pulmões.

Enquanto aguardavam pelo órgão, os pais de Melissa também passaram a usar a história da filha para conscientizar outras famílias sobre a importância da doação.

Depois de 18 dias na fila, finalmente surgiu um coração compatível. O transplante foi realizado nesta segunda-feira (31), encerrando a angustiante espera da família e dando início a uma nova etapa do tratamento da menina.

LEIA MAIS: Após 18 dias de espera, menina de 6 anos de Cuiabá recebe transplante de coração

PARA CRIANÇAS, COMPATIBILIDADE É AINDA MAIS DIFÍCIL

Embora a falta de doadores afete pacientes de todas as idades, os transplantes pediátricos apresentam uma dificuldade adicional. Além de critérios como tipo sanguíneo e condições clínicas, é necessário encontrar um órgão adequado ao tamanho da criança. Essa característica reduz consideravelmente o universo de potenciais doadores.

“Órgãos infantis costumam ser compatíveis, em geral, com receptores de tamanho semelhante, o que significa que o número de doadores possíveis é bem menor. Isso faz com que crianças, na maioria das vezes, esperem mais tempo na fila por um órgão de tamanho adequado”, explica Navarro.

Os números mostram ainda uma redução recente no número de doadores pediátricos no país. Foram 274 em 2023, contra 211 em 2025.

Segundo o Ministério da Saúde, um único doador pode salvar até oito vidas.

ISABELA TAMBÉM GANHOU UMA NOVA CHANCE

Melissa não é a única criança que teve a vida transformada por uma família que disse “sim” à doação.

A pequena Isabela, de 11 meses, também recebeu um novo coração no Hospital Pequeno Príncipe. Ainda durante a gestação, exames apontaram uma alteração que posteriormente seria diagnosticada como um fibroma cardíaco inoperável.

Com apenas um dia de vida, ela foi encaminhada ao hospital. Depois de 30 dias na UTI Neonatal e uma série de exames, os médicos concluíram que a única possibilidade de tratamento seria um transplante. Foram três meses na fila até aparecer um coração compatível.

“Não achei que fosse chegar tão rápido. Foi uma felicidade gigante. Após o transplante, posso ver que minha filha está mais ativa. Hoje, ela vive”, conta a mãe, Caroline Antônia da Silva de Paula.

Para Caroline, a decisão tomada pela família doadora mudou completamente o futuro da filha.

“A doação de órgãos é um ato de amor, de esperança e de empatia com o próximo. Hoje, saio com a minha filha com vida. Minha Isabela terá um futuro.”

CONVERSA COM A FAMÍLIA PODE SALVAR VIDAS

No Brasil, a doação de órgãos após a morte depende da autorização da família. Por isso, especialistas defendem que quem deseja ser doador converse previamente com seus familiares.

“Falar sobre isso ajuda a desfazer mitos”

A informação é considerada fundamental para reduzir as recusas justamente no momento em que uma família enfrenta a perda de uma pessoa próxima.

“Falar sobre isso ajuda a desfazer mitos”, reforça Fábio Navarro. Segundo o médico, quanto maior o conhecimento das famílias sobre o processo, maiores são as possibilidades de autorização e, consequentemente, de salvar outras vidas.

REFERÊNCIA EM TRANSPLANTES PEDIÁTRICOS

O Hospital Pequeno Príncipe realiza transplantes de órgãos e tecidos pediátricos há 37 anos. Somente em 2025, foram feitos 308 procedimentos, sendo 44 transplantes de órgãos sólidos — coração, rim e fígado —, 34 de válvula cardíaca, 163 de tecido ósseo e 67 de medula óssea.

Em 2026, até julho, já foram realizados 194 transplantes na instituição.

Com sede em Curitiba, o Pequeno Príncipe possui 369 leitos, dos quais 76 são de UTI, e realiza 76% dos atendimentos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Para famílias como as de Melissa e Isabela, porém, as estatísticas se traduzem de maneira muito mais simples: um doador significa a possibilidade de uma criança continuar vivendo.

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