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Cidades Domingo, 01 de Novembro de 2026, 17:11 - A | A

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DESCOBERTA

Estudo revela novas espécies de cogumelos no Cristalino, em MT

Artigo de 2026 descreve quatro espécies novas do gênero Hygrocybe coletadas nas Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPNs) Cristalino, no norte de Mato Grosso

DA REDAÇÃO

Divulgação

Pesquisadora Juli Simon e cogumelos verdes

Pesquisadora Juli Simon e cogumelos verdes

Um artigo publicado em 2026 na revista científica Phytotaxa descreve quatro espécies novas de cogumelos para a ciência, todas do gênero Hygrocybe. Os fungos foram coletados nas Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) Cristalino, no norte de Mato Grosso, na Amazônia meridional. Para provar que eram espécies diferentes, os pesquisadores compararam a morfologia dos cogumelos e o DNA deles.

O trabalho é liderado por Juli Simon Cardoso, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

A descoberta começou longe do laboratório. A parataxonomista alemã Susanne Sourell, especialista em identificar espécies em campo, sem vínculo acadêmico, visitava a região todos os anos e publicava fotos dos fungos no grupo “Cogumelos do Brasil”, no Facebook. “Todo mundo dizia: ‘nunca vi, espécie nova’”, conta Juli Simon. “Ela descobriu que eu trabalhava com Hygrocybe e começou a conversar comigo”.

As coletas foram feitas em trilhas de floresta de terra firme, nos municípios de Alta Floresta e Novo Mundo. A área fica ao lado do Parque Estadual Cristalino e se conecta a outras áreas protegidas e a territórios indígenas, para a pesquisadora, “uma das áreas mais importantes para a conservação na Amazônia meridional, impedindo o crescimento do Arco do Desmatamento”.

COMO SE DESCOBRE A ESPÉCIE

A pesquisa seguiu dois caminhos. O primeiro foi a descrição morfológica: medir e detalhar o cogumelo e suas estruturas microscópicas. O segundo foi a análise do DNA. “A gente pega um pedacinho do DNA do fungo e compara com o de fungos parecidos. Se o resultado for muito parecido, é a mesma espécie; se não, pode ser uma espécie diferente”, explica Juli Simon. Hoje, diz ela, não se publica uma espécie nova de fungo sem esse exame.

OS QUATRO NOVOS NOMES

Hygrocybe cristalinoensis: verde do começo ao fim, do chapéu ao pé, com borda branca e franjada. Ganhou o nome das reservas e do rio Cristalino. Encontrada na trilha do Francisco, em 2019, e conhecida apenas dali.

Hygrocybe viridilacerata: também verde, mas o centro do chapéu se abre e se rasga em forma de estrela quando o cogumelo amadurece. O nome vem do latim viridis (verde) e lacerata (rasgada). Encontrada na trilha do Francisco, em 2018.

Hygrocybe pegleri: pé longo, com mais de 10 centímetros, o maior dos quatro, e chapéu coberto de escamas amarronzadas. O nome homenageia o micólogo David N. Pegler. Encontrada na trilha da Castanheira, em 2019.

Hygrocybe vinaceosquamulosa: chapéu escamoso, do arroxeado ao rosado, e esporos alongados. O nome junta as palavras latinas vinaceus (vinho) e squamulosus (com escamas). Encontrada na trilha da Castanheira, em 2019, e conhecida apenas dali.
Por que isso importa

Duas das quatro espécies são endêmicas: existem apenas no ponto onde foram descobertas, e é essa distribuição restrita que faz da área uma prioridade para conservação. “Pesquisei em muitos lugares e nunca vi tanto cogumelo quanto lá”, diz a pesquisadora.

Os fungos são pouco conhecidos: apenas cerca de 5% das espécies de fungos do planeta têm registro científico. E eles sustentam a floresta. Decompõem a matéria orgânica, guardam carbono no solo e ajudam a maioria das plantas a absorver nutrientes. Conservar os fungos é conservar a mata e os bichos que vivem nela.

PROJETO FUNGOS DO CRISTALINO

O estudo faz parte do Projeto Fungos do Cristalino, parceria da Fundação Ecológica Cristalino (FEC), do Laboratório de Micologia da UFSC e de Susanne Sourell. O objetivo é conhecer os fungos da região e planejar estudos nas áreas de Ciências Biológicas, Ciências Agrárias e Ciências da Saúde. A pesquisa tem parceiros nos Estados Unidos e no Canadá e recebeu bolsas do CNPq e da CAPES.

O apoio da FEC em campo foi decisivo, segundo a pesquisadora. “A FEC é uma das mais importantes apoiadoras de pesquisas científicas na Amazônia meridional. Eles nos oferecem alimentação e hospedagem, além do trabalho de vários guias locais”, diz Juli Simon. “É bem difícil conseguir esse apoio. Muitas vezes a gente paga para trabalhar e fazer ciência no Brasil".

Quem acompanha esse apoio dentro da fundação é Mayara Gomes Correa, médica veterinária, doutora em Ciência Animal e consultora em pesquisa e gestão das Reservas Cristalino. “A Fundação Ecológica Cristalino apoia a realização de pesquisas científicas nas RPPNs Cristalino, contribuindo para ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade amazônica e suas possibilidades de conservação”.

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