O ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama voltou ao centro da disputa política americana ao participar de comícios em diferentes estados e reforçar as campanhas de candidatos democratas às eleições legislativas. Na reta final da votação, marcada para terça-feira (3), o político tem usado a popularidade e a experiência acumuladas na Casa Branca para mobilizar eleitores e criticar o governo de Donald Trump.
Aos 65 anos, Obama percorreu estados como Texas, Geórgia, Michigan e Ohio, onde discursou em eventos ao lado de candidatos ao Senado e ao governo estadual. A participação ocorre em um momento em que parte do Partido Democrata busca renovar suas lideranças e construir uma estratégia política para o período posterior a Trump, que não poderá disputar um terceiro mandato presidencial em 2028.
A volta do ex-presidente aos palanques também recupera elementos de sua campanha vitoriosa de 2008, quando conquistou projeção nacional com um discurso de esperança e mobilização popular. O lema Yes, we can — ou “Sim, nós podemos” — voltou a ser entoado por apoiadores durante os eventos.
CRÍTICAS A TRUMP
Durante um comício em Michigan, Obama atacou o que classificou como corrupção, favorecimento de interesses econômicos e incompetência do governo republicano. Ele também ironizou as reformas realizadas na Casa Branca durante a atual gestão.
O ex-presidente comparou a decoração do edifício a uma unidade da rede de restaurantes Cheesecake Factory caso o ex-ditador iraquiano Saddam Hussein tivesse aberto uma franquia. A declaração provocou reação da Casa Branca, que respondeu publicamente às críticas.
Na sequência, Obama questionou a prioridade dada pelo governo à resposta à sua piada, em vez de temas como inflação, corrupção e aumento do custo de vida.
Segundo o ex-presidente, a administração Trump estaria desviando a atenção dos problemas econômicos enfrentados pelas famílias americanas. Ele também criticou a falta de soluções para questões que afetam diretamente a população.
APOIO A NOVOS LÍDERES
A presença de Obama nos comícios tem sido considerada importante para candidatos que tentam ampliar o espaço democrata em estados competitivos ou com forte presença do eleitorado conservador.
No Michigan, ele participou de um evento com Abdul El-Sayed, candidato democrata ao Senado, e Jocelyn Benson, que concorre ao governo estadual. Médico sanitarista, El-Sayed busca se tornar o primeiro senador árabe-americano dos Estados Unidos, caso seja eleito.
Em Ohio, Obama dividiu o palanque com o ex-senador Sherrod Brown e a médica Amy Acton, candidata democrata ao governo estadual. Acton ganhou projeção ao liderar a resposta local à pandemia de Covid-19 e apontou o ex-presidente como uma de suas principais inspirações para entrar na política.
Já na Geórgia, Obama participou de um evento em Atlanta para apoiar o senador Jon Ossoff, que busca a reeleição, e Keisha Lance Bottoms, ex-prefeita da cidade e candidata ao governo estadual.
Para o cientista político Jonathan K. Hanson, professor emérito da Universidade de Michigan, o ex-presidente representa uma referência política capaz de ajudar a organizar as críticas ao atual governo.
Na avaliação do especialista, a atuação de Obama também evidencia a dificuldade dos democratas em encontrar uma liderança nacional com capacidade semelhante de transmitir mensagens de maneira direta e mobilizar eleitores de diferentes perfis.
ATAQUES ELEITORAIS
Em Ohio, Obama também saiu em defesa de Amy Acton após um ataque de campanha envolvendo a mãe da candidata. O empresário republicano Vivek Ramaswamy, adversário de Acton na disputa pelo governo estadual, divulgou um vídeo em que a mãe critica a própria filha.
As duas estão afastadas após um conflito familiar relacionado a uma denúncia de abuso sexual contra o padrasto de Acton. A candidata acusou a mãe de proteger o marido em vez de apoiá-la. O episódio provocou críticas públicas até mesmo de integrantes do Partido Republicano.
Ao comentar o caso, Obama condenou o que considerou uma estratégia de campanha baseada em ataques pessoais para atrair atenção pública.
O ex-presidente afirmou que seus adversários ultrapassam limites para permanecer nos holofotes, em uma crítica à escalada de confrontos políticos durante a campanha.
LEGADO DE 2008
A tentativa de recuperar elementos da trajetória de Obama também aparece na campanha de Abdul El-Sayed. Segundo o articulista Carlos Lozada, do The New York Times, a estratégia apresenta semelhanças com a utilizada pelo democrata em 2008, quando sua origem familiar e seu nome foram explorados por adversários para questionar sua identidade americana.
El-Sayed, filho de imigrantes egípcios, enfrenta ataques relacionados à origem familiar e à religião. Sua campanha tem procurado responder às críticas com informações sobre suas raízes e sua trajetória no Michigan.
A comparação com Obama também remete à campanha presidencial de 2008, quando o republicano John McCain saiu em defesa do então adversário democrata após uma eleitora questionar a confiança que poderia depositar nele por supostamente ser árabe.
McCain respondeu que Obama era um cidadão americano decente, embora os dois discordassem politicamente em questões importantes.
Quase duas décadas depois, a presença do ex-presidente nos palanques mostra como seu legado continua sendo utilizado por uma nova geração de democratas. A estratégia busca transformar a memória de sua campanha em uma ferramenta para enfrentar Trump e reorganizar o partido diante dos próximos ciclos eleitorais.
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