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Cidades Sábado, 07 de Novembro de 2026, 17:04 - A | A

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DO CIDADE ALTA PARA O MUNDO

Campeão mundial, karateca cuiabano quer levar esporte como refúgio às crianças periféricas

Atleta de 17 anos da Cidade Alta venceu mundial no Egito com ippon na final e quer usar o karatê para dar oportunidade a crianças da periferia

MARYELLE CAMPOS
Da redação

Arquivo Pessoal

Atleta Manoel Neto campeão mundial

Aos cinco anos de idade, Manoel Neto decidiu que queria ser um karateca. A decisão, influenciada pelo desejo de parecer com os heróis vistos na televisão, se transformou em um projeto de vida. Hoje, com 17 anos, o atleta, que se consagrou como campeão mundial no Egito em 2026, agora deseja ser um exemplo para outras crianças que, assim como ele, podem encontrar no esporte um refúgio.

O percurso de Manoel no karatê, porém, não começa no tatame. Antes mesmo que pudesse começar a compreender o mundo, sua mãe, fã de filmes de luta, o colocava para assistir aos clássicos do cinema com os atores que exibiam, além de seus músculos, as altas performances no duelo corporal.

Logo depois de manifestar a vontade de aprender a lutar, a mãe de Manoel conheceu a sensei Arlene Benedita Marques do Amarante que, em 2014, já tocava um projeto social no bairro Coophamil, coincidentemente próximo ao bairro Cidade Alta, onde Manoel mora até hoje.

À época, o projeto União da Força funcionava na quadra de um clube. Foi lá que Manoel aprendeu parte dos valores que ultrapassam a área esportiva e se refletem na sua personalidade.

“Minha mãe conheceu o projeto da sensei Arlene, que é minha sensei até hoje. E aí no projeto dela, que acontecia no bairro Coophamil, era numa quadra, e foi de lá que saíram vários campeões mundiais, assim como eu”, conta.

Acompanhado até hoje pela sensei Arlene, que também é auxiliar técnica da Seleção Brasileira Sub-18, Manoel conta que, no início, aquele desejo de criança não era suficiente para fazer com que ele se destacasse entre os outros karatecas.

A virada aconteceu em 2023, quando tinha apenas 14 anos de idade e foi convocado pela primeira vez para a Seleção Brasileira. No mesmo ano, ele recebeu a faixa preta, a mais alta na hierarquia.

O ano, porém, não foi marcado apenas por conquistas. Como relembra em entrevista exclusiva ao HNT, ele também precisou enfrentar a dor do luto ao perder o avô.

“Eu fui começar a pensar mais nas competições, a ver com outros olhos, em 2023, porque até 2022 eu não era uma pessoa que se destacava tanto dentro do karatê... Em 2023 foi a primeira vez que eu fui convocado para a Seleção Brasileira e foi o ano também que eu recebi minha faixa preta. Eu tinha 14 anos e eu sabia que eu precisaria ter uma responsabilidade maior, eu seria também um exemplo para as outras crianças que se inspiraram em mim”, relembra.

Dali em diante, o karatê ganhou um espaço central na vida de Manoel, um exemplo vivo de como o esporte pode ser transformador no percurso de quem vem de uma realidade periférica.

Para além de uma luta marcial ou algumas horas de treino, o karatê também alcançou um lugar emocional e psicológico em Manoel, que desde a infância precisou lidar com perdas sucessivas de familiares.

“Quando eu tinha cinco anos, eu tive a separação dos meus pais. Foi o primeiro trauma da minha vida. As pessoas vinham e falavam para mim que eu agora tinha que ser o homem da casa... Cinco anos depois, teve a morte da minha mãe. Em 2020, também, a minha avó morreu. E em 2023, o meu avô morreu. Então, se não fosse o karatê na minha vida, esse tempo todo, talvez eu poderia ter crescido uma criança um pouco mais revoltada... Hoje em dia eu sou uma pessoa um pouco mais centrada por causa do karatê”, diz.

Aos 10 anos de idade, Manoel perdeu a mãe. O baque emocional foi tão forte que, mesmo ela sendo sua maior incentivadora, ele se distanciou do karatê. A dor da perda se somou à frustração de uma promessa, até então, não cumprida.

O retorno aos tatames ocorreu somente dois anos depois, por motivação do pai. Desde o retorno, ele vem renovando anualmente o título de campeão brasileiro e ainda acumula a posição de hexacampeão brasileiro de Karatê-dô Tradicional.

“Eu saí do karatê em 2019 e dei uma pausa porque foi o ano que minha mãe morreu, eu prometi para ela que eu seria campeão e que ela veria lá do hospital. Eu tinha 10 anos. Quando isso não aconteceu, eu peguei uma medalha de terceiro lugar... eu fiquei muito abatido, depois ela morreu. E aí eu fiquei muito desanimado... Só que em 2021, eu voltei para poder movimentar o corpo, sem pretensão alguma de voltar a competir... O meu pai que me motivou também a voltar para o karatê em 2021. Foi muito importante para mim”, revela.

Sete anos depois de encarar a morte da mãe, ele se consagrou, em uma disputa que parecia quase impossível de vencer, como campeão mundial. A conquista, que ocorreu no Cairo, no Egito, foi dedicada à mãe.

Como recorda, ele estava em desvantagem contra o adversário, um egípcio, o que trazia mais pressão à disputa. Ele chegou a receber uma penalidade, perdendo quatro pontos, e só conseguiu ganhar com um golpe definitivo, chamado de “ippon”, algo semelhante ao nocaute.

“Eu achei uma brecha na defesa dele e consegui entrar com um chute. O árbitro virou e deu o ippon para mim. Os outros árbitros também deram o ippon para mim e eu consegui sair vitorioso”, narra. “Foi uma sensação maravilhosa. Eu nunca imaginei, eu não fui para esse campeonato pensando em ganhar. Eu fui pensando em viver a experiência. Ganhar de ippon na final foi uma sensação indescritível, naquele momento eu lembrei de tudo, lembrei da minha mãe, fiquei muito emocionado”, conta.

Arquivo Pessoal

Atleta Manoel Neto campeão mundial

 

Apesar do acúmulo de conquistas, Manoel não deseja ser apenas um atleta de alta performance. Assim como o esporte o fez chegar a lugares antes inimagináveis, ele também deseja ajudar outras crianças e revela que o espírito de coletividade é nutrido dentro do karatê, sendo mais importante que medalhas.

“Eu acredito até que a competição seja o menos importante porque o karatê é um esporte que é coletivo. Vale muito mais o que você agrega para as outras pessoas do que uma medalha que você ganha... Ser campeão mundial para mim não é só ter um título. Eu quero poder fazer no futuro com que crianças que vêm da mesma realidade que a minha possam também alcançar outros patamares, poder viajar, conhecer novas culturas e mostrar que isso não é impossível”, diz.

Para Manoel, conquistar o pódio não é o mais importante, mas sim inspirar outras crianças. Como analisa, o esporte passou por transformações ao longo dos anos e se tornou uma atividade elitizada, o que, em sua visão, o impulsiona ainda mais a atuar em projetos sociais. O que começou como um desejo de infância se transformou em um projeto de vida.

"Eu não nasci em berço de ouro, houve momentos que financeiramente podiam ter me impedido até de continuar fazendo karatê. Eu vim de um bairro que não é muito bem visto, o Cidade Alta. Hoje em dia eu acredito que está um esporte um pouco mais elitizado. Então eu quero poder ser essa pessoa que faça os projetos sociais, que dê essa oportunidade, que traga a visibilidade para o karatê para poder dar o suporte para essas crianças porque o que mais tem hoje em dia no karatê é criança que desiste, acaba parando de fazer porque não tem suporte suficiente”, finaliza.

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