O jornalismo já me transportou para muitos lugares, mas nesta semana, a pauta me levou ao melhor deles: o olhar de minha mãe.
Antes de seguir, faço uma pergunta: quando foi a última vez que você fez algo pela primeira vez? No meu caso, foi ontem, 28 de janeiro. Levei minha mãe ao cinema para assistirmos, apenas ela e eu, a uma obra-prima. O filme escolhido, não por nós, mas pelo destino, foi Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho.
Confesso que fui movida por uma ponta de arrogância juvenil e certa prepotência intelectual. Queria proporcionar a ela três horas de "descanso cerebral" e, ao mesmo tempo, desejava o ponto de vista de alguém que não pertence à bolha da esquerda.
O filme mergulha no período da ditadura militar, mas vai muito além do panfleto, é uma obra para se sentir. Durante quase três horas, o que eu assisti não foi apenas a tela, mas a reação dela. Desde o primeiro minuto, ela reconhecia cada artista, celebrava nossa cultura e sentia falta daqueles que já se foram.
Quando o ano "1977" brilhou na tela, ela sussurrou: "Eu tinha dez anos". A partir dali, ela não era mais uma espectadora, ela estava dentro do filme. Reconheceu os carros, os figurinos e a atmosfera de uma época que ela viveu. Pude experimentar uma emocionante inversão de papéis.
Ver a emoção dela tendo aquela experiência pela primeira vez foi como ver um filho se encantando com o mundo. Ao final, fiz a "pergunta de ouro": — Você gostou do filme, mãe? — Amei — ela respondeu de imediato.
— O que você mais gostou? — É a história de todo mundo — ela sentenciou.
A análise dela foi cirúrgica. Ela enxergou a sutileza com que o filme trata a alma brasileira e suas cicatrizes.
Falou sobre a "sorte" do personagem que, por ser homem e "bonito", forma do personagem sintetizar que nasceu branco, foi criado em vez de ser descartado, fruto de um abuso (de poder) comum em casas de família daquela época.
Ela refletiu sobre as mulheres escravizadas no trabalho doméstico, sobre filhos retirados de suas mães e sobre o direito à memória que foi negado a tantas crianças, protegidas por uma mentira para não herdarem a dor do passado.
"Todos somos Armandos", disse ela, referindo-se ao protagonista. E eu apenas assenti.
Minha mãe notou detalhes que minha "técnica" deixou passar. Ela se impressionou com a corrupção policial retratada logo no início, "só faltou o delegado quebrar biscoito de polvilho no carro para dizer que era pó", ironizou.
Viu a corrupção do funcionário público que usava o Estado para favorecer sua própria empresa e notou as "maçãs boas" no meio do caminho, como a personagem Elza, mostrando que nem toda rebeldia vem do mesmo lugar.
Para ela, o filme foi um mergulho em sombras do passado que ainda são vizinhas de muita gente. "Mostrou a corrupção, o poder e o abuso de uma forma tão sutil que ficou interessante para todos."
Como jornalista, tenho o dever de defender os fatos. Como filha de um jornalista quase historiador, tenho o prazer de preservar a memória. A memória individual, que se confunde com a coletiva, e a coletiva, que dá régua e compasso para a nossa individualidade.
Saímos do cinema do VG Shopping, que, vale o registro, é um espaço democrático de acesso (R$ 19 para todos e gratuito para PCDs), não apenas com um filme assistido, mas com a nossa própria história reescrita.
O cinema nos deu o presente de olhar para trás e entender que, mesmo nas sombras, o afeto de quem nos criou, sejam mães, pais ou as avós que criam como mãe, como no filme, é o que nos mantém inteiros.
(*) ALINE COÊLHO é jornalista.
Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br
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