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Artigos Sexta-feira, 08 de Outubro de 2021, 08:46 - A | A

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Sexta-feira, 08 de Outubro de 2021, 08h:46 - A | A

NEILA BARRETO

Quatro anos sem Sarita Baracat

NEILA BARRETO

ARQUIVO PESSOAL

NEILA BARRETO

 

Sarita Baracat faz parte da história mato-grossense como uma heroína. Heroína por uma série de fatores: é a primeira dela e, por ter sido a primeira prefeita eleita em Várzea Grande, no período onde não existia cota para as mulheres. E, apesar dos anos, apesar das cotas, a política continua extremamente machista. É só olharmos no quadro da Assembleia Legislativa, na Câmara de vereadores e compararmos com o número de eleitores.

Filha de pais estrangeiros, mas de ascendência que fugia aos padrões da imigração em massa para o Brasil da segunda metade do século XIX e primeira metade do século XX, Sarita Baracat de Arruda conquistou o universo mato-grossense.

É a segunda filha, dentre os dez filhos do casal sírio Cheda Baracat (Miguel) e Warda Zain Baracat (Rosa) que veio da Síria para Argentina, depois o Brasil, para então, se fixarem em Várzea Grande-MT. Seu pai foi mascate e, depois proprietário de comércio de secos e molhados, no centro da cidade de Várzea Grande, cuja maior fonte de renda era uma pequena fábrica de balas, posteriormente padaria, bar dentre outras atividades que exerceu.

Tornou-se uma mulher política de destaque e tem hoje um lugar na história e memória da cidade várzea-grandense e mato-grossense. Enquanto viva declarou: “Eu nasci em Várzea Grande, em 29 de dezembro de 1931, àquela época 3º Distrito de Cuiabá, filha de imigrantes sírios, pioneiros em Várzea Grande, lembra Sarita”.

A origem de Sarita Baracat remonta a duas cidades sírias: Damasco e Saidnaya, terras dos seus pais, além de Cuiabá. São seus avós paternos Kalil Baracat e Noza Zahi e maternos: Abdala Zain e Diba Rezek. Na certidão de nascimento consta o ano de 1930, como ano de nascimento, um engano cometido pelo pai, no ato do registro, junto ao cartório, em Várzea Grande, pois a data correta é 1931.

Por ter nascido na época em que Várzea Grande era terceiro distrito de Cuiabá, fazia questão de dizer que era uma várzea-grandense: “Carrego comigo o cheiro do povo e da terra de Couto Magalhães. Isso não quer dizer que eu não tenha amor por Cuiabá. Tenho e confesso isso com muito orgulho, pois Várzea Grande e Cuiabá são cidades irmãs. As pontes sobre o rio Cuiabá nos uniram e nunca nos separam. Mas minha vida está aqui em Várzea Grande, lembrava Sarita. Na infância e adolescência começou a enfrentar os primeiros obstáculos. Menina ainda, teve que esperar os irmãos, Eda e João crescerem para frequentar as escolas na Capital. Ela e os irmãos, a pé, faziam o trajeto de Várzea Grande até o Colégio Estadual de Mato Grosso, em Cuiabá, para concluir os estudos ginasial e secundário.

Mas, Sarita era mulher de luta. Contava com a força que é própria das mulheres no enfrentamento dos obstáculos cotidianos. Em seu caminhar entre Várzea Grande e Cuiabá, na busca da instrução escolar, aprendeu fugir de nuvens ameaçadoras e detectar por onde rondavam os perigos. Aprendeu a conhecer o lado masculino nas vivências diárias com a política, uma vez que, convivia com muitos homens em seu próprio seio familiar. A energia e a disposição da professora, contadora e advogada, discreta, miúda e feliz era o que atraia as simpatias de outrem.

Sua biografia mostra as dificuldades e os enfrentamentos de uma mulher que ousou experimentar novas maneiras de se relacionar, mesmo com a maternidade, por exemplo. Sarita teve dois filhos, Nico e Fernando, e adotou Eveline. Avó de Kalil Baracat, atual prefeito de Várzea Grande, mas foi além; ela criou outras pessoas. Por ter essa formação de professora, sempre teve preocupação com os afilhados como se filhos dela fossem.

Sarita nunca foi vaidosa. Sempre andou com o rosto limpo; sempre usou um batom cor de boca; nunca deixou que o cabelo passasse do comprimento que ela achava ideal; as roupas, sapatos e bolsas sempre foram simples, ela nunca gostou de ostentar. Ela nunca usou joias, apenas um relógio, um anel e não passava disso. Sarita sempre foi discreta e muito simples.

Com a redemocratização do país, em 1946, em Várzea Grande, começou a participar de movimentos políticos. Ingressou na política várzea-grandense em 1954, aos 23 anos de idade, como presidente da ala feminina da União Democrática Nacional (UDN) e foi secretária do partido (UDN) entre os anos de 1958 a 1964 e, delegada do partido junto a justiça eleitoral de 1954 a 1964, quando em 1957, surgiu o convite de Gonçalo Botelho de Campos (UDN-1949-1951), para entrar para a política, como candidata a vereadora.

Foi eleita a primeira vereadora do município, dentre todos os candidatos, quem mais recebeu votos. Tornou-se vereadora em 1957-1961, aos 26 anos de idade, em Várzea Grande. Líder do partido de oposição e, presidente da Comissão Executiva Municipal da Aliança Renovadora Nacional (ARENA), em 1966. Foi prefeita de Várzea Grande, de 1967 a 1970 e deputada estadual, de 1979 a 1983, após a divisão do Estado de Mato Grosso. Ao conseguir essa vitória, conseguiu também, simultaneamente, quebrar alguns tabus, por ser mulher e por ser descendente de pais imigrantes.

Para a Desembargadora Maria Helena Gargaglione Póvoas, “Sarita Baracat é uma referência para todos nós. Na condição de militante em prol da maior participação da mulher nas instâncias de poder, faço sempre referências a Sarita Baracat, durante as palestras e eventos voltados para a questão de gênero. Impossível falar da história de Mato Grosso sem render homenagens a mulheres que, como Sarita, quebraram estereótipos de gênero que reforçam papéis diferenciados para homens e mulheres, reservando a eles as atividades de cunho público; e a elas, as atribuições limitadas ao âmbito privado, traduzidas em cuidados com a casa, o marido e os filhos. Assim como milhares de outras mulheres Sarita casou-se, teve filhos, cuidou de sua família. Tornou-se professora, mas os muros da escola não conseguiram limitar a atuação da habilidosa líder política. Era preciso avançar, ganhar espaço político para realizar seu sonho de ampliar o número de escolas públicas em Várzea Grande. Mas a seu modo, com a inteligência, a habilidade e a persistência que lhe são peculiares, contornou obstáculos e se transformou em referência para as mulheres que, anos mais tarde, vieram a ocupar cargos de destaque na política mato-grossense. Dedico a Sarita Baracat o meu mais profundo respeito pela sua contribuição à história de Mato Grosso e pelo exemplo de mulher guerreira que deixou para todos nós.

Foi eleita Deputada Estadual em 15 de novembro de 1978, para o mandato de (1979-1983), pela ARENA, com 5.949, votos sendo a primeira mulher parlamentar eleita após a divisão do estado de Mato Grosso e, a quinta mais votada no estado de Mato Grosso e, a primeira de Várzea Grande, a ocupar esse cargo. Na Assembleia Legislativa, Sarita era muito combativa e enfrentava o plenário com a maior categoria, pois estava respaldada por forte argumentação, preparo e conhecimento; ela conhecia as leis, estudava muito, ia em busca de informações. Nos debates, sempre muito acalorados, conquistou o respeito da mídia local e até nacional, o que lhe valeu destaque político dentro e fora do estado, em razão de suas posturas e comportamento no parlamento estadual. Mulher independente, não teve um rótulo. Sempre andou de maneira discreta. Sempre festeira, gostava de música, muita música, de bailes, de dançar. Sempre gostou de bons livros e boas conversas.

Sarita Baracat foi vice-presidente do Partido Popular (PP), no estado de Mato Grosso, delegada do partido junto a Justiça Eleitoral. Membro efetivo da comissão de assistência social, entre os anos de 1979 a 1980 e membro efetivo da comissão e orçamento de 1981 a 1983. No PMDB foi a primeira secretária executiva, tesoureira do diretório estadual e membro efetivo do diretório regional do PMDB-MT e presidente do diretório municipal de Várzea Grande. Desligou-se do partido para entrar para o PSB e tornou-se secretária de organização.

Sarita Baracat (1979-1983), no parlamento estadual foi seguida pela ex-prefeita de Tangará da Serra-MT, Thais Barbosa (1987-1991), primeira deputada estadual constituinte do estado de Mato Grosso; Serys Slhessarenko (1991-2003); Malba Tânia Varjão (1991-1995); Zilda Campos (1995-1999); Verinha Araújo e Ana Carla Muniz (2003-2007), Luciane Bezerra (2010-2014), atualmente somente Janaína Riva (2015 - 2022), é a representante da mulher no parlamento estadual.

Deixou as suas pegas no futebol mato-grossense no seu clube favorito no Clube Esportivo Operário Várzea-Grandense (CEOV), atual Operário Futebol Clube Ltda. Sarita foi eleita secretária do clube esportivo operário de Várzea Grande, no período de 1951 a 1959. Foi diretora do Santo Antônio Esporte Clube. Membro do conselho fiscal da liga de futebol amador de Várzea Grande – LIFAV e diretora da secretaria da Federação Mato-grossense de Desporto, na gestão de Ranulfo Paes de Barros. “Quando fui prefeita de Várzea Grande eu era presidente de honra do operário, de 1967 a 1969 e, tornei-o tricampeão,” recordava Sarita.

Sarita Baracat de Arruda encerrou a sua militância política aos 81 anos de idade, no ano de 2012. Foi generosa em nos revelar suas memórias mais remotas. Nelas encontramos lutas, enfrentamentos, sacrifícios e poesias. Partiu a 09 de outubro de 2017. Agora, a ela eu diria: “Habitando aí, na curva desse rio, como disse certa vez um escritor, você observará a história da sua vida, plena de sentidos. 

Fonte:Barreto, Neila Maria Souza. Sarita Baracat: vida e trajetória política. Cuiabá, MT: Entrelinhas, 2017. www.neilabarreto.com.br

(*) NEILA BARRETO é jornalista pós-graduada em História e escreve às sextas-feiras para HiperNoticias.

 

Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br

 

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