Foi no miolo da manhã curitibana — essa manhã fria, com cara de quem nunca gostou de gente que não nasceu bordada em renda europeia — que Renato Freitas apareceu com o rosto aberto em vermelho. Vermelho de sangue, vermelho de luta, vermelho de quem já sabe que, naquela cidade que se acha Suíça, qualquer corpo negro que ouse caminhar ereto é visto como afronta.
A cena correu as redes feito água de enxurrada descendo ladeira: Renato ensanguentado, um sujeito branco, desses que se acham “cidadãos de bem”, provocando, filmando, atiçando. “Você não é o famosinho?”, ele solta, com aquela ironia rala de quem pensa que coragem é falar grosso enquanto grava. O ataque, dizem, ainda não tem motivação oficial — mas, francamente, precisa? Curitiba tem um histórico que fala sozinho. A cada esquina, o racismo boceja.
Renato não é um acidente na paisagem. É um corpo fora do script, que atravessa o palco onde esperavam apenas figurantes obedientes. Já tentaram tudo: perseguiram, ameaçaram, farejaram — literalmente farejaram — o deputado no plenário, como se um cão pudesse identificar o que a elite teme: um negro periférico, intelectual, que sabe usar a palavra como lança e o mandato como território. Aquela cena dos cães no parlamento foi tão simbólica que parecia escrita pelo diabo para um capítulo perdido de Grande Sertão: Veredas — mas era só a política brasileira sendo ela mesma: brutal, covarde, teatral.
O que está por trás do ódio a Renato não é sua postura, nem seus discursos, nem seus votos. É sua existência. É o fato de ter chegado onde disseram que não era lugar dele. É ter se tornado, com seu mandato enraizado na quebrada, um espelho incômodo para os donos da cidade. Eles tentam cassá-lo não porque ele é fraco, mas porque é forte. Não porque representaria pouco, mas porque representa demais — e representa os que nunca foram convidados para o banquete.
Hoje, quando tentaram mais uma vez calá-lo à força, não atingiram só o deputado: acertaram o nervo exposto da democracia brasileira no Paraná. A violência contra Renato é aviso e ameaça: “não ultrapassem as linhas que desenhamos”. Mas ele ultrapassa. E pagam para ver. Aos poucos o Renato vai se tornando uma ideia!
Peço licença aos jornalistas antigos, aos cronistas que ouvi nas rádios enquanto o rio corria barrento lá no Pantanal, mas há dias em que o texto tem que engrossar. Não dá para falar como se comentássemos o preço da soja. O que fizeram com Renato exige esculacho, exige o dedo apontado, exige nome aos bois — e aos cães. O Brasil já cansou da elegância que protege agressor filha da puta. Esse vermes da extrema direita Bolsonarista do Paraná.
O mínimo agora é o óbvio: proteção imediata, investigação séria, responsabilização. A vida de um deputado negro não pode ficar ao sabor da própria sorte, especialmente quando enfrenta uma máquina de ódio tão bem abastecida. Há risco real para democracia brasileira. Há histórico. Há alertas que não cabem mais na gaveta.
Renato Freitas não está só. Está cercado de gente que, mesmo de longe, veste sua pele como quem veste armadura. Gente que entende que quando um corpo negro cai na política, cai junto um pedaço da república.
Seguimos com ele.
Seguimos vigilantes.
Seguimos, teimosamente, na luta — porque há manhãs em que o sangue que corre não é sinal de derrota, mas de que a coragem ainda está viva.
(*) JOÃO GUATÓ é o pseudônimo do autor da página Pasquim Cuiabano no Facebook, que publicou este texto originalmente.
Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br
Clique aqui e faça parte no nosso grupo para receber as últimas do HiperNoticias.
Clique aqui e faça parte do nosso grupo no Telegram.
Siga-nos no TWITTER ; INSTAGRAM e FACEBOOK e acompanhe as notícias em primeira mão.








