Mato Grosso entra na safra 2026/27 diante de um desafio que vai além do volume de chuva: decidir quando plantar, como acompanhar a lavoura e até que ponto o calendário da soja pode comprometer a segunda safra. Com o El Niño em intensificação, as previsões climáticas reforçam a necessidade de cautela, mas não autorizam concluir antecipadamente que haverá quebra generalizada de produção.
Em seu diagnóstico de 8 de outubro, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) indicou elevada probabilidade de permanência de um El Niño forte a muito forte até o trimestre janeiro–março de 2027. No Brasil, o Painel El Niño 2026–2027, divulgado pelo INPE em 1º de outubro com participação de instituições meteorológicas e de monitoramento, apontou 95% de probabilidade de intensidade muito forte no trimestre outubro– dezembro. São projeções sazonais importantes, mas não previsões determinísticas para cada município ou propriedade.
A Organização Meteorológica Mundial também alertou para o aquecimento do Pacífico e para possíveis alterações nos padrões de temperatura e precipitação em diferentes regiões do planeta.
O efeito do El Niño não é uniforme: enquanto partes do centro-norte do Brasil podem enfrentar maior risco de chuvas abaixo da média e temperaturas elevadas, o Sul apresenta tendência distinta, com maior possibilidade de precipitações acima da média. A distribuição regional e o comportamento efetivo da atmosfera serão decisivos.
O plantio em Mato Grosso avançou após um início irregular, conforme os números estaduais citados em levantamentos do setor. Esse avanço ajuda a recuperar o calendário, mas não elimina o risco. O produtor precisa observar não apenas o percentual de área semeada, mas também a distribuição das chuvas, a umidade do solo, a emergência das plantas e a uniformidade do estande em cada talhão.
As estimativas iniciais da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostram por que é importante separar risco regional de projeção nacional. No primeiro levantamento da safra 2026/27, divulgado em outubro, a companhia estimou produção de 367,1 milhões de toneladas de grãos, incluindo 181,6 milhões de toneladas de soja e 148 milhões de toneladas de milho. Uma perspectiva nacional de crescimento pode conviver com dificuldades localizadas e com diferenças importantes entre regiões, propriedades e sistemas de produção.
Para Mato Grosso, uma das principais preocupações é o efeito em cadeia sobre a segunda safra. Quando a soja é semeada ou colhida mais tarde, o milho e o algodão podem entrar em janelas de maior exposição à falta de água no fim do ciclo. Isso não significa que o resultado esteja definido,
mas exige que o planejamento considere o sistema produtivo como um todo, e não apenas a expectativa de produtividade da soja.
No Matopiba — região que abrange áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — a irregularidade das chuvas merece atenção especial, sobretudo onde solos mais arenosos apresentam menor capacidade de retenção de água. Cobertura do solo, palhada, correção e estrutura do perfil, escolha de cultivares e acompanhamento técnico ajudam a reduzir vulnerabilidades, embora não eliminem os efeitos de uma estiagem prolongada.
A Embrapa apresentou ao Ministério da Agricultura um conjunto de 163 medidas de gestão de riscos climáticos, elaborado com participação de especialistas da instituição e do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). A orientação prática não é antecipar ou atrasar o plantio indiscriminadamente, mas avaliar a janela de menor risco conforme o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), o ciclo da cultivar, as condições do solo e o calendário das culturas subsequentes.
Na propriedade, essa estratégia começa com ações objetivas: verificar vigor e germinação das sementes, acompanhar a emergência, registrar a chuva por talhão, observar a umidade do solo e revisar o cronograma provável de colheita. O produtor também deve simular cenários de produtividade e preço, avaliar contratos de comercialização e conferir as condições de enquadramento e cobertura do seguro rural. Decisões financeiras tomadas antes de um problema podem ampliar a capacidade de reação quando as condições mudam.
O El Niño não determina sozinho o resultado da safra. O risco depende da combinação entre chuva, temperatura, fase de desenvolvimento das plantas, características do solo, manejo e decisões de gestão. Por isso, previsões meteorológicas devem ser atualizadas ao longo da temporada e cruzadas com informações locais de campo. O calendário se torna um insumo estratégico porque conecta a implantação da soja à colheita, à segunda safra, ao custo de produção e ao fluxo financeiro da fazenda.
Em um ciclo de custos elevados e margens sensíveis, informação climática e planejamento agronômico deixam de ser apenas ferramentas de apoio: passam a fazer parte da gestão do negócio rural. Mais do que prever uma quebra, o desafio é reconhecer onde o risco está aumentando e ajustar as decisões com antecedência.
(*) STÉPHANO BENEVIDES DO CARMO é empresário e CEO da Classe A Agro. Foi secretário adjunto de Educação Profissional e Ensino Superior da Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação de Mato Grosso (Seciteci-MT) e atua em consultoria e negócios ligados ao agronegócio.
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