Segunda-Feira, 20 de Janeiro de 2020, 09h:08

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Cuiabá e baixada, as cartas boas do baralho politico

Por: SUELME EVANGELISTA

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SUELME EVANGELISTA

Mato Grosso é um dos estados da federação com menor adensamento populacional do Brasil e isso implica em algumas consequências no seu desenvolvimento, pois o tamanho do colégio eleitoral define a importância dos entes federados na política, nas prioridades e investimentos seja do governo federal para os estados e dos estados para com os municípios.

Cuiabá e a baixada cuiabana juntas representam quase que 40% dos votos do Estado e se somado com outros 32 maiores municípios dos 141 existentes, chega a 70% de todos os eleitores.

Refletirei melhor sobre porque sempre existe uma batalha violenta pelos votos de Cuiabá, seja na prefeitura ou em outros cargos eletivos. A capital possui 347 mil eleitores de um total de 2.266.325 do Estado, quase que 20% de todo eleitorado de Mato Grosso. Há que se considerar que a capital como dizem é a caixa de ressonância da baixada cuiabana por pertencer a um mesmo eixo político e cultural incluindo Várzea Grande. Essas informações explicam muita coisa sobre os cenários eleitorais. Analisaremos algumas curiosidades sobre esse eleitorado.

Analisando a história dos 7 últimos prefeitos de Cuiabá, 1986-2020, temos uma tendência ideológica de centro-esquerda a considerar partidos e desempenho das gestões, sendo possível afirmar que o eleitorado cuiabano é mais progressita do que conservador.

O PSDB teve 4 mandatos (Wilson Santos e Roberto França), o MDB (Dante e Emanuel Pinheiro) e com apenas um mandato temos PFL/DEM (Frederico Campos), PDT (Dante) e PSB (Mauro Mendes).  Observamos que o PT que é um partido de esquerda disputou e perdeu duas eleições em segundo turno com Alexandre César e Lúdio.

Desses prefeitos eleitos apenas dois, Wilson Santos e Mauro Mendes não eram cuiabanos “pau rodado” o que demonstra um certo bairrismo político. Os únicos dois ex-prefeitos que viraram governadores foram Dante de Oliveira e agora Mauro Mendes. Isso virou inclusive  um mito de que a prefeitura de Cuiabá é um cemitério ou aposentadoria de políticos.

Após a abertura democrática 1986 desses prefeitos eleitos, apenas o governador Dante conseguiu eleger seu candidato a prefeito de Cuiabá Wilson Santos, nos dois mandatos. Esse fenômeno já virou uma lenda urbana nas rodas políticas de que o governador do Estado de praxe não consegue eleger o prefeito da capital.

Isso ocorre entre outros motivos porque parte da classe política sabe que se o governador eleger o prefeito da capital, pode mais facilmente viabilizar sua reeleição. Decidem então marotamente conspirar contra o candidato à prefeito apoiado pelo governador com objetivo de enfraquecê-lo politicamente. Um político conhecido disse outro dia que governador que elege prefeito de Cuiabá, vira rei e citou o exemplo de Dante inclusive que segundo ele teria ficado de “salto alto” sem atender seus aliados.

Essa é apenas uma das inúmeras hipóteses explicativas para esse fenômeno das rivalidades políticas peculiares das eleições em Cuiabá. Noutra perspectiva, mais maquiavélica, a disputa é inevitável porque derrotar um adversário na reeleição para prefeitura, antes de tudo, eliminaria um possível concorrente nas eleições pra governador. Essa preocupação toma sentido à medida que o sonho de qualquer prefeito da capital, sempre será o de virar governador, assim  pesadelo de quase todo governador é o de ter que enfrentar o prefeito da capital. Diz Maquiavel que o maior objetivo de quem está no poder é se manter nele!

Se o governador lançar prefeito e ganhar ótimo, mas se disputar e perder pode ser um sinal ruim. Uma derrota na prefeitura pode dificultar ou encarecer as articulações e campanha a reeleição de qualquer  governador. Apesar de historicamente todos os governadores derrotados na disputa pela prefeitura de Cuiabá se reelegeram depois no governo do Estado, exceto Pedro Taques que perdeu nas duas eleições. Mas seguro morreu de velho, ainda mais nesses tempos de crises em que ninguém arrisca um palpite sobre o futuro das administrações.

Matar a cobra no ninho ou se juntar a ela? Eis a dúvida cruel que paira sobre todos os governadores desse país.  Nunca nos esquecendo que na política, quem não estende a mão para um possível aliado, pode criar oportunidade para criar um adversário. A questão sempre será em quem confiar? Inexiste Política sem risco!

Todos ex-prefeitos da capital tentaram reeleição, exceto Mauro Mendes que fez um caminho diferente, parou no auge da popularidade e foi tentar depois o governo em 2018, fugindo da maldição do segundo mandato e deu certo, virou governador. Seria essa também uma estratégia que serviria para Emanuel Pinheiro já de olho em 2022? Veremos!

Essas disputas são sempre ruins para a sociedade, mas na prática, tentar um alinhamento político já que institucionalmente é quase impossível não deu muito certo,  um exemplo, foi a campanha de Lúdio Cabral a prefeito de Cuiabá que tinha como mote o alinhamento do governo federal Dilma presidente (PT), estadual Silval Governador (PMDB) e da prefeitura com Lúdio Prefeito (PT) estimulando o voto útil, perdeu as eleições. Parece que o eleitor gosta mesmo é de ver o circo pegando fogo.

Ainda nessa linha de importância da baixada, analisamos agora a eleição suplementar de senador. Cuiabá costumeiramente sempre teve uma das 3 cadeiras do senado, primeiro com Antero depois com Serys, Pedro Taques e por último com a Juíza Selma. Há inclusive outro mito, de que uma das cadeiras sempre será de Cuiabá, pelo menos foi essa a lógica dos últimos anos. Essa tendência se continuará esse ano?

Se realmente cair o percentual mínimo para se eleger para senador nessa eleição o eleitorado da capital será decisivo para definir a vaga da juíza Selma, principalmente sabendo que tem vários candidatos com base forte no interior, mas sem entrada na capital. Pensando nessa oportunidade, Emanuel Pinheiro já lançou Júlio Campos (DEM) para disputa da vaga e articula o apoio do MDB e parece-me que Mauro/Maggi sinaliza a empresária Margareth Buzzeti (PP).

Nesse cenário, alguns candidatos do interior com algum potencial eleitoral se quiserem ganhar as eleições em tese precisarão disputar esses votos locais, arranjando  suplentes para chapa com potencial eleitoral ou bons apoios em Cuiabá. Essa é uma circunstância especifica dessa eleição suplementar, onde não existirão os apoiadores de chapas pra fazer as dobradas: candidatos a deputados e governadores aumentando a abstenção e a diminuindo o engajamento.

No cenário de pré-candidatos a senado de Cuiabá temos:  Dr. Valdir Caldas (Novo), Profa. Maria Lúcia Neder (PCdoB), Gisela Simona (PROS), Stopa (PV) Margareth Buzetti (PP) e Júlio Campos (DEM).

Vindos do interior temos pelo menos 7 nomes que  vão garimpar apoios políticos na capital ou  como suplentes: Piveta, Nilson leitão, Medeiros, Neurilan, Barbudo e Favaro. Imaginem como que tocará o celular do Emanuel Pinheiro, Mauro Mendes e do Jaime Campos até as convenções e também dos pré-candidatos cuiabanos ao senado. Não há dúvida que essas articulações terão consequências nefastas para todos nas eleições municipais subsequentes.

Resta saber como se posicionará o governador Mauro Mendes e o presidente Jair Bolsonaro nessas eleições suplementares? Mauro se realmente fechou apoio a Margareth  Buzetti do PP com Blairo e cia, deixará Piveta seu vice, Júlio/Jaime, Max, Fávaro, Medeiros e Barbudo a ver navios. Se assim for, esse apoio ao PP já não estaria amarrado com a chapa de Cuiabá? As cartas estão na mesa, façam suas apostas.

O governador e prefeito podem também se manterem neutro no processo evitando as bolas divididas, como  estratégia política ou por receio mesmo do boletim das urnas que como disse o presidente dos EUA Abraan Lincol faz mais estrago do que um tiro de espingarda!

 

O melhor de tudo é que apesar dessas efemeridades, brigas e voluptuosidades do poder quem decide de fato as renovações, permanências, quedas e ascensões dos líderes (novos e velhos) somos nós, o povo. Isso é que é a maior beleza da democracia: de tempos em tempos temos um encontro marcado nas urnas com quem votamos, verdades e mentiras! E que seja assim sempre!

 

(*) SUELME FERNANDES é analista político e Mestre em História.

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