As tempestades de raios sobre Cuiabá nunca mais foram as mesmas desde o primeiro dia em que o Fablicio Rodrigues decidiu captura-las com seu olhar sensível, veloz e brihante e comprtilha-las em suas redes sociais. E apartir de hoje, 22 de agosto de 2023, quando a luz dos olhos do Fablício se apagou para sempre, jamais elas voltarão a ser tão belas.
Meu coração está pesaroso e profundamente dolorido com a partida do Fablício. Não éramos amigos próximos. Não. Nós éramos amigos de almas. Daquele tipo que não precisa conviver o tempo todo para cultivar a amizade e cumplicidade de espíritos. Sempre que nos encontrávamos por aí, trocavamos abraços afetuosos, sorrisos e ideias sobre o que fosse mais importante naquele momento, seja um caso pessoal, uma notícia qualquer, um evento, um trabalho novo, uma fofoca, uma piada. E relembravamos algum episódio dos tempos em que formavamos dupla nas redações pelas quais passamos ao mesmo tempo. Nos bastava isso.
Eu sabia que ele estava doente há apenas alguns poucos dias, quando vi nas redes sociais a notícia da visita do deputado Max Russi à ele no hospital. Fiquei surpreso pela doença ser tão grave. Orei para que ele pudesse se recuperar logo. Acreditei que ele ficaria bom. Não deu. Não porque o Senhor da Criação não tenha ouvido minhas preces. Mas, sim, porque Deus, ao que parece, já o havia escolhido para compor a sua assessoria de imagem lá na assembleia celestial. E quando Ele nos chama, como dizer-lhe não?
Conheci o Fablício em 1992 quando entrei para o time d'A Gazeta, onde ele já trabalhava. Formamos uma dupla dinâmica e original durante aqueles anos em que convivemos n'A Gazeta. Na época, ele ainda era um iniciante atrás das câmeras. O talento estava todo lá, ainda por ser dominado pelo jovem fotografo e aprimorado na técnica, na profundidade e complexidade da arte fotográfica.
Como repórter e fotografo de Cidades, fizemos juntos reportagens incríveis, contamos histórias emocionantes, dramáticas, dolorosas, tristes e repletas de esperança. Como a matéria sobre a ocupação do bairro Doutor Fábio I em que o Fablício, usando sua sinsibilidade e seguindo uma dica minha, fez um registro pungente, cheio de significados e denúncia dramática: a foto de uma boneca desmembrada, abandonada ao pé de uma lixeira calcinada pelo fogo de uma queimada, onde uma placa dava nome à uma imaginária “Rua Ulisses Guimarães”.
Anos depois, voltamos a ser colegas de redação no jornal Folha do Estado. E reeditamos a dupla premiada com o espírito dos jornalistas clássicos, aqueles que só se preocupam mesmo em contar histórias que sejam humanas, que destaquem não apenas os fatos, mas que respeitam os seres humanos que deles fazem parte.
A vida e o esforço pessoal do Fablício já o tinha feito dar um grande salto na qualidade de seu trabalho. Novamente fizemos grandes reportagens, agora na cobertura política, emplacamos manchetes históricas. Mas, também fizemos juntos trabalhos “feijão com arroz”, claro, mas sempre dando o nosso tempero pessoal de crítica, denúncia e ironia combinando texto e imagens sempre de forma pouco convencional.
O Fablício era um garoto simples, meio "caladão", mas de um sorriso fácil, uma simpatia cativante e um caráter exemplar. Seu talento foi lapidado pelo esforço próprio, pela curiosidade e grande capacidade de aprendizado. Ele era respeitador e atencioso com os mais velhos. Gostava de ouvir quem tinha algo para ensinar. E falava muito com quem ele confiava e que sabia ouvi-lo.
Nunca imaginei que eu pudesse sobreviver a ele. Pena não estar em Cuiabá para me despedir e dar meu abraço afetuoso e solidário à esposa e filhas, à sua irmã Tanane e seu cunhado e mentor profissional Jupirany. Resta-me orar em silêncio por sua família, certo que o amigo está em paz.
*Antonio P. Pacheco é jornalista, poeta e escritor
Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias www.hnt.com.br
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